Ano A – IV Domingo do Advento

1ª Leitura: Is 7, 10-14;
Salmo: Sl 23, 1-2. 3-4ab. 5-6;
2ª Leitura: Rom 1, 1-7;
Evangelho: Mt 1, 18-24.

 

A liturgia deste IV Domingo do Advento convida-nos a reflectir sobre a nossa posição ante a promessa de Deus. A primeira leitura e o evangelho oferecem-nos dois exemplos, bem distintos, de atitudes ante a promessa de Deus.

A primeira leitura do livro de Isaías refere-se a um período algo complicado da história de Judá. O povo de Deus, as 12 tribos, estão divididas em dois reinos: o reino de Israel ou do Norte, constituído por 10 tribos, e o reino do Sul ou de Israel, que tem Jerusalém como capital e é constituído por 2 tribos. O nosso texto situa-se no reino do Sul onde o monarca era Acaz.

A política externa era complicada. Assistimos a uma hegemonia da Assíria que começava a dominar todos os reinos vizinhos. Ante esta situação, o reino do Norte aliou-se com o reino da Síria para fazerem frente à Assíria. No entanto, o rei de Israel desejava que também Acaz, rei de Judá, fizesse parte dessa coligação frente a Assíria. No entanto, o monarca de Judá recusou-se a fazer esta aliança. Em consequência, a coligação de Israel e da Síria decidiram invadir o reino de Judá. Ante tal situação o rei Acaz viu-se na necessidade de pedir ajuda e fazer uma aliança com o imperador assírio. Judá era um reino estável a nível político e com uma boa situação económica. No entanto, as alianças com as grandes potências eram fontes de opressão e de sofrimento.

É neste contexto que aparece o nosso texto com a intervenção do profeta Isaías. Na verdade, o que está aqui em jogo não se reduz a uma simples e mera aliança política. O que se joga aqui é a fidelidade a Deus. O povo de Deus é chamado a confiar única e exclusivamente em Deus. Ao fazer alianças militares com países estrangeiros o rei está a afirmar indirectamente que Deus é infiel à sua promessa e que é incapaz de salvar o seu povo.

O profeta Isaías ante esta situação diz ao rei Acaz: “Pede um sinal ao Senhor teu Deus, quer nas profundezas do abismo, quer lá em cima nas alturas”. Isaías implora que o rei peça um sinal para ver que Deus está com o seu povo, que Deus é fiel a sua palavra e que só nele é que está a salvação.

A este pedido do profeta o rei dá uma resposta que a primeira vista parece uma resposta piedosa e repleta de fé: “Não pedirei, não porei o Senhor à prova.” Na verdade, está resposta é a rejeição total do rei à intervenção de Deus. Na verdade, Acaz já tem a sua decisão tomada. Ele não estava disposto a mudar a sua política de aliança com a Assíria. Assim sendo, e pretendendo demonstrar que não duvida do sinal, Acaz, cheio de hipocrisia e de falsidade, recusa o sinal de Deus que o profeta oferece.

No entanto, o profeta não deixa de apresentar o sinal: “a jovem conceberá e dará à luz um filho e o seu nome será Emanuel”. Não podia ser mais desconcertante o sinal. Não é algo de extraordinário mas é algo que chama à confiança em Deus. A jovem à que se refere este texto de Isaías, muito provavelmente, é a mulher do rei que está grávida e prestes a dar a luz Ezequias.

Que significa este sinal que à primeira vista é tão insignificante? O nascimento do filho do rei é a prova de que a descendência de David continua e que Judá, apesar dos ataques dos inimigos, deve ter esperança no futuro porque Deus continua a ser fiel ao seu povo, Deus continua a estar com o seu povo.

No entanto, Acaz não ligou a este sinal. Prefere a aliança militar com a assíria. Acaz não confia em Deus mas confia nos homens e nas alianças políticas.

No entanto, o sinal que o Senhor, por meio de Isaías prometeu ao rei, foi interpretado pela tradição judaica como uma promessa messiânica. Tal interpretação foi confirmada pela versão grega dos LXX que traduziu a promessa desta maneira: “a virgem conceberá e dará à luz um filho e o seu nome será Emanuel.” Já não se trata de uma jovem mas sim de uma virgem. O futuro messias devia nascer de uma virgem.

É neste contexto que o evangelho de Mateus, proclamado nesta celebração, cita está promessa messiânica e aplica-a a Jesus e a sua mãe Maria. Ao citar este texto, como todos os outros textos e promessas veterotestamentárias ao longo do seu evangelho, Mateus quer demonstrar que Jesus é o Messias esperado.

O nosso texto evangélico não é um relato histórico de tipo jornalístico. Ele é uma catequese que nos quer indicar quem é Jesus. Assim sendo, através de paralelismos com personagens do Antigo Testamento, através de aparições apocalípticas e de uma exegese do Antigo Testamento o nosso texto pretende demonstrar que Jesus vem de Deus, que a sua missão é salvar-nos dos nossos pecados e que ele é o Messias, descendente de David. Todos estes dados são-nos transmitidos por este texto que tem grandes semelhanças com os anúncios de nascimento das personagens importantes no Antigo Testamento e que pretende vincular desde o início a pessoa à sua missão.

É neste contexto que o texto evangélico nos oferece dois nomes deste Messias: Jesus e Emanuel.

Jesus quer dizer literalmente “Deus perdoa os pecados”. No Antigo e no Novo Testamento a expressão perdão dos pecados não significa o perdão de uma falta concreta mas é o resumo de toda a acção salvadora de Deus. Jesus será este Deus que com toda a sua vida, mensagem e obras nos dará a salvação, a qualidade de Vida, a vida plena. Só em Jesus é que podemos encontrar a felicidade.

Emanuel quer dizer literalmente “Deus connosco”. Jesus é o Deus connosco e o Deus para nós. Ele nunca nos abandona. A revelação do seu nome de Emanuel no início do evangelho e a sua promessa de estar sempre connosco no final do evangelho (cf Mt 28, 20) são a prova deste facto. Deus está sempre connosco para nos salvar dos nossos pecados.

Este evangelho também nos apresenta uma figura e um exemplo de acolhimento e obediência aos desígnios de Deus: José, esposo de Maria. Ele estava comprometido com Maria, mas na cultura judaica este compromisso é de tal ordem que o noivo já se dizia marido e não se podia desfazer este compromisso senão por um repúdio. O texto diz-nos que José era Justo. A justiça de José consiste em não querer acobertar com o seu nome uma criança cujo pai ignora, mas também em que, convencido da virtude de Maria, se recusa a expor às formalidades processuais da lei (cf. Dt 22, 20s) esse mistério que ele não conhece. Assim sendo, “resolveu repudiá-la em segredo.”

José tinha os seus planos todos traçados quando num sonho através de um anjo (elementos veterotestamentários que indicação a comunicação de Deus) é desafiado a acreditar que a gravidez de Maria é obra do Espírito Santo e a dar o nome a Jesus. Ao dar o nome o pai reconhece a criança como seu filho. Assim sendo, ao dar o nome a Jesus, José reconhece-o como seu filho e, consequentemente, descendente de David.

Neste texto José aparece como modelo de confiança e obediência aos desígnios divinos. Não precisou de provas incontornáveis para colaborar nos planos e na promessa de Deus. Tinha tudo pensado e decidido mas através de um sonho e de um anjo ele acreditou no inacreditável e confiou em Deus. Neste IV domingo do Advento a vela que devemos acender é a vela da confiança obediente em Deus. Quantas vezes também Deus intervêm ao de leve na nossa vida, quantos sonhos, quantos murmúrios de anjos podemos escutar mas de tão decididos que estamos nas nossas decisões fechamos os ouvidos à proposta de Deus. Que Maria, a Senhora do Sim, e S. José nos ensinem a ter uma confiança obediente em Deus que vem para nos salvar.

P. Nuno Ventura Martins

missionário passionista

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