Ano A – Festa do Baptismo do Senhor

1ª Leitura: Is 42, 1-4. 6-7;
Salmo: 28, 1-2. 3ac-4. 3b e 9b-10;
2ª Leitura: Act 10, 34-38;
Evangelho: Mt 3, 13-17.

O baptismo de Jesus e o nosso baptismo!

Ao fazer a transição entre o Tempo de Natal e o Tempo Comum a Igreja convida-nos a celebrar a Festa do Baptismo do Senhor.

O Baptismo de Jesus é um momento importante na sua vida. Prova disto é o facto dos quatro evangelhos canónicos narrarem a cena do baptismo de Jesus (Mateus, Marcos e Lucas) ou fazerem referência a tal acontecimento (João). Na verdade, com o baptismo de Jesus por João Baptista nas margens do rio do Jordão, dá-se o início da vida pública de Jesus.

No entanto, a cena do Baptismo de Jesus não deixa de ser interpelante para nós. Na verdade, o facto de Jesus se querer baptizar também interpelou o próprio João Baptista. Prova disto é a primeira parte do evangelho de São Mateus proposto para este dia: “João opunha-se, dizendo: «Eu é que preciso de ser baptizado por Ti e Tu vens ter comigo?».” Tal oposição só é compreensível na medida em que se entender o significado do baptismo de João.

O baptismo que João convida a receber é um baptismo de penitência. Além disto, o baptismo de João também se distingue das habituais abluções religiosa na medida que não é reiterável e que exige uma mudança radical de vida. O baptismo de João está relacionado com o anúncio do juízo de Deus e porta consigo um convite a uma nova maneira de pensar e de agir. João é o precursor do messias e com o seu baptismo e pregação deve preparar o caminho do Senhor. Na verdade, o baptismo de João queria superar a existência pecaminosa vivida até então e iniciar uma nova existência transformada. O próprio rito baptismal, imersão nas águas, manifesta esta verdade. Na verdade, se por um lado a imersão das águas simbolizam a morte por outro lado tal acção também é símbolo de vida e faz referência ao dilúvio. Assim sendo, o baptismo de João é um baptismo de purificação, de libertação do pecado, de recomeço, de ressurreição.

No entanto, afirmar que Jesus se sujeitou ao baptismo de João é algo contraditório. O baptismo de João era um baptismo dirigido aos pecadores e de arrependimento dos pecados e nós afirmamos que Jesus é igual a nós em tudo menos do pecado. Se Jesus não tem pecado porque quis ser baptizado por João no Jordão?

É o próprio Jesus que nos dá a resposta no evangelho deste dia: “Jesus respondeu-lhe: «Deixa por agora; convém que assim cumpramos toda a justiça»”. Não deixa de ser enigmática a resposta que Jesus dá a João. “Por agora” e “cumpramos toda a Justiça” são duas expressões que tem de ser aclaradas. O “por agora” denota uma situação provisória. Como diz Ratzinger, no seu livro Jesus de Nazaré, “numa determinada situação provisória, é válido um certo modo de agir”.

A outra aclaração prende-se com o termo “justiça”. Em São Mateus o cumprimento da justiça equivale ao cumprimento da vontade de Deus. A Justiça é a resposta humana à lei do Senhor, é a aceitação total da vontade de Deus. Cumprir a justiça equivale à obediência incondicional de um filho em relação ao Pai. Assim sendo, o baptismo de Jesus por João no Jordão é um passo necessário para que se cumpra o desígnio salvador de Deus. Jesus, neste episódio, apresenta-se como o filho obediente que cumpre a vontade de Deus. Não nós podemos esquecer que na cultura semita aquilo que definia a relação entre o pai e o filho era a obediência.

Assim sendo, ao receber o baptismo de penitência de João Jesus solidarizou-se com a humanidade pecadora. Jesus, como afirma João Baptista no Evangelho de São João, é o cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo. Jesus é “o verdadeiro cordeiro pascal que expiando apaga os pecados do mundo” (Ratzinger). Jesus tornou-se solidário connosco no pecado para nos libertar do pecado e da morte. Assim sendo, o baptismo de Jesus já faz referência ao mistério pascal de Cristo. “A antecipação da morte na cruz, que acontecera no Baptismo e a antecipação da ressurreição, anunciada pela voz do céu tornam-se realidade no mistério pascal de Jesus”. (Ratzinger) Na verdade, não nos podemos esquecer que no evangelho de João a morte de Jesus na cruz é apresentada como o sacrifício do verdadeiro cordeiro pascal. A referência do baptismo de Jesus ao mistério pascal é o que permite compreender o baptismo cristão.

A segunda parte do evangelho deste domingo revela-nos, através dos céus abertos, da pomba e da voz do céu, a identidade e a missão de Jesus.

Os céus abertos indicam a união entre o céu e a terra e indicam que Jesus vai reconciliar a humanidade com Deus. “A sua [de Jesus] comunhão de vontade com o Pai, o seu cumprimento de «toda a justiça» abre o céu, que, por natureza, é o lugar onde se cumpre perfeitamente a vontade do Pai” (Ratzinger).

O segundo elemento é a pomba. Esta pomba, símbolo do Espírito Santo, faz referência ao Espírito de Deus que pairava sobre as águas primordiais da criação. Em Jesus, com as suas palavras e obras, inicia-se uma nova criação.

O terceiro elemento é a voz vinda dos céus. A voz vinda dos céus era um recurso utilizado pelos mestres para mostrar a opinião de Deus sobre um acontecimento ou sobre uma pessoa. Esta voz vinda do céu, vinda de Deus, é a proclamação da missão de Cristo. No entanto, tal proclamação “não anuncia um fazer mas o seu ser: ele é o filho muito amado no qual repousa a complacência de Deus” (Ratzinger). A voz declara que Jesus é o filho de Deus citando implicitamente as palavras do primeiro cântico do Servo que a primeira leitura do livro de Isaías nos oferece: “Eis o meu servo, a quem Eu protejo, o meu eleito, enlevo da minha alma. Sobre ele fiz repousar o meu espírito”.

O Servo de Deus é uma personagem importante na expectativa messiânica. Na verdade, o Servo é um predilecto de Deus, chamado por Deus a uma missão profética universal. No entanto, aquilo que caracteriza a missão dos servo é o facto de ela ser realizada através do sofrimento e da sua entrega incondicional. No entanto, os sofrimentos do Servo têm um valor expiatório e redentor. Como mostra a voz vinda do céu, a figura misteriosa do Servo do Senhor tem o seu pleno cumprimento em Jesus. Fica claro que Jesus é o Filho de Deus mas também é preanunciado que a sua missão não será levada a cabo pelo triunfo, pelo poder e pela prepotência mas na obediência a Deus e na mansidão. Na verdade, como diz a primeira leitura desta celebração: “não gritará, nem levantará a voz; não quebrará a cana fendida, nem apagará a torcida que ainda fumega”.

Além disto, também encontramos na pericope evangélica deste domingo um prenúncio do mistério trinitário. Na verdade, este texto fala da voz do Pai, da descida do Espírito e do título de Filho. Tal prenúncio trinitário será, no evangelho de Mateus revelado mais explicitamente aquando do envio missionário: “Ide, pois, fazei discípulos de todos os povos, baptizando-os em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo” (Mt 28, 19). Tal referência faz-nos reflectir sobre o baptismo cristão, sobre o nosso baptismo. Na verdade, o baptismo que os discípulos de Jesus administram é “a entrada no baptismo de Jesus, a entrada na realidade que Ele com o mesmo antecipara” (Ratzinger).

Pelo Baptismo a Páscoa de Cristo acontece nas nossas vidas: morremos para o pecado e nascemos para a vida da graça. Além disso, pelo baptismo também nos tornamos filhos de deus. De certa maneira podemos dizer que quando alguém é baptizado os céus voltam-se a abrir e volta-se a escutar uma voz que diz “tu és o meu filho muito amado”.

A celebração do baptismo de Jesus interpela-nos. Como estou eu a viver a minha vocação baptismal? Quem se cruza comigo nos caminhos deste mundo sente o odor da Páscoa que aconteceu na minha vida pelo baptismo? Vivo como filho de Deus e em obediência aos seus mandamentos? Vivo em solidariedade com toda a igreja à qual fui agregado pelo baptismo?

A celebração do baptismo do Senhor, início do seu ministério público, convida-nos a reavivar a nossa vocação de baptizados: filhos de Deus e testemunhas da Páscoa de Cristo.

P. Nuno Ventura Martins

missionário passionista

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