Ano A – Festa Sagrada Família de Jesus, Maria e José

1ª Leitura: Sir 3, 3-7. 14-17a (gr. 2-6. 12-14);
Salmo: 127, 1-2. 3. 4-5;
2ª Leitura: Col 3, 12-21;
Evangelho: Mt 2, 13-15. 19-23.

 

Em pleno tempo de Natal, considerado como a festa da família, a liturgia deste domingo convida-nos a celebrar a Festa da Sagrada Família. É uma festa tipicamente natalícia. Na verdade, Jesus encarnou no seio de uma família e foi no seio de uma família humana que foi crescendo em estatura, sabedoria e graça aos olhos de Deus e aos olhos dos homens.

A família é uma realidade importante tanto para a vida social como para a nossa caminha de fé. Na verdade, a família é considerada a Igreja Doméstica. Além disto, o apóstolo São Paulo utiliza a analogia da família, do amor fiel e fecundo dos esposos para descrever a relação de Cristo com a Igreja. Tal analogia porta consigo uma grande dignidade para a vida matrimonial e familiar. Os esposos, pelo sacramento do matrimónio, devem ser sacramentos do amor de Cristo pela sua Igreja, do amor de Deus pelo seu povo.

Assim sendo, a fé cristã, e de uma maneira muito especial a liturgia da palavra deste dia, ilumina a realidade da família, uma realidade que por ser tão humana é tão divina.

O evangelho deste dia apresenta-nos a família de Nazaré como um modelo de escuta da Palavra de Deus no meio das dificuldades. O texto evangélico narra o episódio da fuga da Sagrada família para o Egipto. Este texto situa-se entre a visita e adoração dos magos e a matança dos inocentes. É um texto do chamado evangelho da infância. Mais que um relato histórico dos acontecimentos temos aqui uma catequese sobre a pessoa e a missão de Jesus. Mateus quer mostrar nos acontecimentos do evangelho da infância o destino de Jesus.

Desde o seu nascimento, Jesus é rejeitado pelo seu povo, simbolizado pelo rei Herodes que o procura matar, e procurado pelos pagãos, pelos que estão longe, simbolizados nos magos. Jesus é amado por Deus e rejeitado pelos homens.

Além disto, Mateus apresenta Jesus em relação com Moisés e com o Povo de Deus. Como Moisés, Jesus é perseguido à nascença e tem de fugir. Como o Povo de Deus, Jesus faz o caminho em direcção ao Egipto e de lá volta. Jesus é o novo Moisés que vem salvar o seu povo e é plenamente solidário com o seu povo.

Outro dado curioso deste texto são as citações do Antigo Testamento que aqui encontramos. Mateus através destas citações pretende demonstrar que Jesus é verdadeiramente o Messias prometido no Antigo Testamento. Mateus através das citações do Antigo Testamento demonstra quem é e qual é a missão de Jesus e mostra que Jesus cumpriu as profecias veterotestamentárias.

No entanto, este evangelho apresenta-se mais eloquente para nós, neste dia, pelo exemplo de vida familiar que nos oferece em José, Maria e o menino Jesus. Muitas vezes podemos pensar que a família de Nazaré, em virtude do lugar que ocupa na História da Salvação, foi uma família sem problemas.

No entanto, como qualquer família humana ela também teve os seus problemas e as suas dificuldades. A Sagrada Família foi uma família plenamente inserida na tragédia humana. O evangelho deste dia recorda-nos uma das dificuldades que está família viveu. Mateus apresenta-nos a família de Jesus como uma família de refugiados.

No entanto, o evangelho de Mateus apresenta-nos outra característica desta família. A família de Nazaré é uma família que está atenta à Palavra de Deus e se deixa guiar por ela.

José num sonho e através de um anjo, símbolos veterotestamentários da revelação divina, descobre a voz de Deus e levantando-se logo de noite põe-se a caminho. A família de Nazaré é uma família que se deixa guiar pela Palavra de Deus.

O apóstolo Paulo na leitura aos cristãos de Colossos que hoje escutávamos aconselhava-nos: “habite em vós com abundância a Palavra de Cristo, para vos instruirdes e aconselhardes uns aos outros com toda a sabedoria”.

A carta aos colossenses depois de, numa primeira parte, ter apresentado o papel de Cristo na criação e na redenção apresenta, na segunda parte da carta, as consequências da nossa adesão a Cristo. A nossa vida quotidiana, toda a nossa realidade humana deve ser iluminada pela nossa adesão a Cristo e pela nossa fé. A fé não se limita a um conjunto verdades que temos de acreditar. A fé é um estilo de vida concreto a luz da Palavra de Deus. A fé exige uma resposta existencial.

Assim sendo, a partir de Cristo e tendo em conta a cultura de então, o autor da carta aos colossenses ilumina a vida familiar. A submissão no Senhor das esposas, o amor dos maridos, a obediência dos filhos e a pedagogia carinhosa dos pais devem ser as características dos que aderiram a Cristo.

Não nego que à primeira vista esta leitura possa encher de perplexidade os cristãos contemporâneos. Na verdade, parece que Paulo aprova uma moral familiar de repressão e de submissão. No entanto, a mensagem que esta leitura nos transmite é destruidora de toda a repressão e submissão. É o exemplo de Jesus que nos amou e se entregou por nós que é o critério do homem novo: “ Revesti-vos da caridade, que é o vínculo da perfeição”. Paulo não destrói a ordem social existente mas coloca-lhe um novo fundamento que a revoluciona totalmente.

Iluminados pelo exemplo de Cristo e chamados a seguir o seu exemplo de amor a família torna-se um espaço vital para a vivência da fé. O amor entre o marido e a esposa é símbolo do amor de Cristo à sua Igreja. Assim sendo, os valores do amor oblativo e gratuito, o respeito, o cuidado mútuo devem ser as credenciais com que cada família cristã se apresenta ao mundo.

Além disto os pais não devem se demitir da tarefa tão necessária e cada vez mais necessária que é a educação dos filhos. Tal educação não deve ser feita com violência mas com amor. A força pode vencer mas só o amor é que convence e transforma. Um amor que acompanha, exorta, estimula, corrige e anima. Os pais devem ser as primeiras testemunhas do evangelho para os seus filhos.

Aos filhos Paulo exorta a obediência. Não são de hoje as queixas que se ouvem da boca de alguns filhos: “Os meus pais são uns retrógrados. Eles não percebem nada disto.”

Já a primeira leitura do livro do Eclesiástico, que é um livro sapiencial que oferece aos judeus, fascinados pela cultura grega, os valores tradicionais da fé judaica e alguns conselhos para viverem bem e serem felizes, nos apresenta ressonâncias desta crítica. Ante isto exorta o autor sagrado: “Filho, ampara a velhice do teu pai e não o desgostes durante a sua vida. Se a sua mente enfraquece, sê indulgente para com ele e não o desprezes, tu que estás no vigor da vida”.

A primeira leitura deste dia é uma explicação do quarto mandamento: “Honra teu pai e tua mãe”. A palavra-chave deste texto é a honra. Os filhos devem honrar os seus pais. No entanto, honrar não é simplesmente obedecer. Honrar é obedecer, respeitar, ajudar, dar espaço, dar afecto e importância aos pais.

Este texto mostra-nos que respeitar o Pai e a Mãe é temer o Senhor e que abandonar os pais é uma blasfémia contra Deus.

Neste dia em que celebramos a Sagrada Família e que a liturgia da palavra nos ilumina e nos convida a pensar na nossa vida familiar, devemos tomar consciência que a família é um caminho de santidade, de vida feliz e realizada. No entanto, isto só se pode tornar realidade quando os valores do egoísmo e da tirania desaparecerem e cederem o seu lugar aos valores de Cristo: amor, respeito e fidelidade.

P. Nuno Ventura Martins

missionário passionista

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