Ano A – I Domingo do Advento

1ª Leitura: Is 2, 1-5;
Salmo: Sl 121, 1-2. 4-5. 6-7. 8-9;
2ª Leitura: Rom 13, 11-14;
Evangelho: Mt 24, 37-44.

 

O tempo de Advento, que neste Domingo iniciamos, é um tempo que a Igreja nos oferece para prepararmos a vinda de Cristo. Às portas do Natal do Senhor, onde comemoramos a vinda de Jesus até nós na humildade da natureza humana, somos convidados a preparar a última vinda de Jesus na glória. Na verdade, como dominicalmente professamos no Símbolo da nossa fé, Cristo “de novo há-de vir em sua glória, para julgar os vivos e os mortos; e o seu reino não terá fim”.

No entanto, entre a sua primeira e última vinda, Cristo não está ausente mas contínua diária e repetidamente a visitar-nos. Na verdade, como afirma um texto da liturgia deste tempo de Advento, “agora Ele [Cristo] vem ao nosso encontro, em cada homem e em cada tempo, para que o recebamos na fé e na caridade e dêmos testemunho da gloriosa esperança do seu reino” (Prefácio do Advento I/A). Só poderemos acolher convenientemente a última vinda de Cristo se no hoje da nossa vida, das nossas relações e da nossa a sociedade o soubermos acolher. Não há melhor maneira de preparar a vinda do Senhor do que acolhendo a sua visita desde já. A nossa opção definitiva por Cristo é construída pelos pequenos sins que diariamente Cristo nos pede.

Ao ser um tempo que anuncia a vinda de Jesus à nossa vida e história, vinda essa que comporta um julgamento não no sentido de condenação mas de salvação e de inversão da realidade através do seu amor, o tempo de Advento é marcado pela esperança. Não uma esperança qualquer mas aquela verdadeira esperança que nasce da fidelidade d’Aquele que promete e que é acolhida com uma expectativa operante.

Se dúvidas houvesse deste tom de esperança do Advento, elas dissipar-se-iam ao escutarmos a primeira leitura deste Domingo, onde profeta Isaías oferece-nos um belo oráculo em que anuncia a paz universal: “converterão as espadas em relhas de arado e as lanças em foices. Não levantará a espada nação contra nação, nem mais se hão-de preparar para a guerra”. Os instrumentos e as energias dedicadas a destruição (espadas e laças) transformam-se em instrumentos e energias dedicadas ao trabalho humano e a construção de um novo mundo (relhas de arado/foices). Tal mundo novo nasce do encontro do homem com Deus. É no encontro do homem com Deus, simbolizado neste caminho do homem até ao templo, local da residência de Deus na mentalidade israelita, e na escuta da sua Palavra que nasce um mundo novo onde a divisão, a hostilidade e os conflitos dão lugar à harmonia, ao progresso, ao entendimento entre os povos, à harmonia e à paz universal. Só quando o homem acolhe a visita de Deus que o visita, só quando o homem deixa Deus entrar na sua vida e se deixa interpelar pela sua presença, pelo seu amor e pela sua palavra é que o novo mundo vai nascendo. Só o contacto com Deus é capaz de transformar este mundo cheio de guerra e de injustiças numa casa comum cuja lei é o Amor.

No entanto, nos tempos em que vivemos, onde muitos se deparam diariamente com situações de desespero, viver na esperança é difícil. Ante a dureza da realidade e a demora na instauração do mundo novo prometido, muitos vacilam na sua esperança e pensam que a promessa de Deus, à imagem das promessas humanas, outra coisa não é do que mais uma e simples promessa.

Foi para animar comunidades cristãs que viviam problemas semelhantes a estes, ou seja, o desânimo e a desilusão ante a demora da última vinda de Cristo e a instauração dos novos céus e da nova terra que o evangelista Mateus redigiu o seu evangelho. A uma comunidade cristã que desanima ante a demora da última vinda de Cristo, S. Mateus, no discurso escatológico do seu evangelho, demonstra que a vinda de Cristo apesar de tardar é um facto certo e que o cristão não deve desesperar mas viver numa esperança activa que o leva a aguardar preparando a vinda de Cristo numa atitude de vigilância, ou seja, de atenção.

Para denunciar certas distracções que nos impedem de viver em vigilância a espera da sua última vinda, Jesus apresenta três imagens: a imagem da humanidade na época de Noé, a imagem dos dois homens e das duas mulheres ocupados nos seus afazeres e a imagem do dono de casa que é assaltado durante a noite.

Na imagem da humanidade na época do diluvio, Jesus denuncia como o desejo exclusivo de gozar a vida presente, o transitório muitas vezes nos impede de nos darmos conta do definitivo. A imagem dos dois homens e das duas mulheres nas suas ocupações laborais demonstra que o trabalho apesar de ser uma realidade necessária não deve ser uma forma de negligenciarmos a vinda de Cristo. A imagem do ladrão que assalta a casa enquanto o proprietário está a dormir não quer dizer que Cristo é um ladrão mas que vira inesperadamente como um ladrão, quando menos se espera e que por isso devemos manter uma vigilância contínua sem cairmos no sono. Jesus convida-nos a estarmos vigilantes e a não nos dispersarmos na rotina dos prazeres, no afã do trabalho e no sono da passividade.

Para compreendermos melhor que sono é este que nos impede de aguardar em esperança a vinda de Cristo devemos recorrer à segunda leitura deste dia, retirada da epístola do apóstolo Paulo à comunidade de Roma. Depois de uma parte mais dogmática, na segunda parte da sua carta, Paulo faz algumas exortações práticas aos cristãos de Roma. Entre essas exortações encontramos esta: “chegou a hora de nos levantarmos do sono”. Ante a certeza da vinda de Cristo, apesar de desconhecer a sua hora e o seu modo, o cristão deve despertar do sono do pecado em que vivia, deve abandonar todas as obras das trevas (“comezainas e excessos de bebida, as devassidões e libertinagens, as discórdias e os ciúmes”) e acordar para vida nova que recebeu no baptismo. Assim sendo, viver despertos e vigilantes outra coisa não é do que viver em fidelidade ao nosso baptismo onde nos revestimos de Jesus.

Quantas oportunidades já esbanjamos, quantas visitas transformadoras já desperdiçamos por estarmos a dormir nos nossos pecados, sedados pela provisoriedade do ter, do poder e do prazer que nos impede de optar e acolher o eterno?

O tempo de Advento é um convite a estarmos atentos à visita do Eterno, a não nos deixarmos adormecer e sedar pelo provisório. O tempo de Advento com o seu apelo à vigilância é um convite a não andarmos nesta vida a dormir. Na verdade, a visita de Deus à nossa vida é tão importante e tão transformadora que é uma tragédia não acolhermos essa visita. E essa tragédia é maior quando deixamos de acolher a visita de Deus por não nos apercebermos dela. Assim como as pessoas no tempo de Noé “não deram por nada” de tão empenhadas que estavam no provisório assim pode acontecer e acontece connosco. O tempo de Advento ao convidar-nos a preparar a vinda do Senhor deve levar-nos a perguntarmo-nos constantemente onde, como e através de que realidade me está a visitar o Senhor neste momento? O que pede de mim essa visita?

Viver o tempo do Advento como tempo de esperança, ou seja, como tempo de espera expectante do Senhor pede-nos que tenhamos a certeza de que Deus é fiel e cumprirá as suas promessas e que preparemos a sua vinda numa vigilância activa. Acendamos pois neste domingo a vela da vigilância, vela essa que deve arder no nosso coração não só durante as quatro semanas do tempo de Advento mas durante toda a nossa vida.

Nuno Ventura Martins

missionário passionista

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