Ano A – III Domingo da Quaresma

1ª Leitura: Ex 17, 3-7;
Salmo: Sl 94, 1-2. 6-7. 8-9;
2ª Leitura: Rom 5, 1-2. 5-8;
Evangelho: Jo 4, 5-42.

Ao escutarmos as leituras deste terceiro Domingo da Quaresma, depressa nos apercebemos que o tema da sede e da água são os grandes motivos em torno dos quais se desenvolve a Liturgia da Palavra deste dia.

Na verdade, a água é a realidade mais desejada nas paisagens secas, áridas e sedentas do oriente onde nasceram os textos da bíblia. No entanto, a espiritualidade bíblica soube ver na água um símbolo de Deus. Jeremias define Deus como a fonte de água viva (cf. Jr 2, 13) e são vários os salmos que manifestam a sede de Deus (Sl 42, Sl 62). Assim sendo, não é só a paisagem exterior mas também a paisagem interior que necessita da água para viver. Assim como o deserto anseia as chuvas para germinar, assim também os desertos da nossa vida necessitam de Deus e da sua Palavra. Deus é a água que sacia a nossa sede de vida, que nos recria, que faz germinar a nossa vida tantas vezes marcada pelo pecado, pela solidão e pelo sofrimento.

A primeira leitura do livro do Êxodo narra-nos a caminhada do Povo, libertado por Deus sob a guia de Moisés, do Egipto em direcção à terra da promessa. É uma bela catequese sobre a acção de Deus que liberta e conduz o seu Povo da escravidão à liberdade. No entanto, tal caminho nem sempre é fácil. Há momentos duros e de prova. Quando aparecem as dificuldades, o povo, apesar de todos os sinais amorosos que já recebeu de Deus, põe em questão o amor de Deus e as verdadeiras intenções de Deus. “Porque nos tiraste do Egipto? Para nos deixares morrer à sede, a nós, aos nossos filhos e aos nossos rebanhos?” Ante esta situação, Deus dá mais uma prova do seu amor e fidelidade. Deus oferece ao seu Povo o sinal da água para mostrar que está e caminha com o seu Povo. Deus ordena que Moisés bata com o seu cajado na rocha para que daí brote a água. Interpretando esta passagem, o grande Padre e Doutor da Igreja, Santo Agostinho, viu nesse cajado que bate sobre a rocha uma prefiguração da cruz de Cristo. “O facto que a rocha é atingida com o bastão representa a cruz de Cristo, porque esta graça brotou da rocha quando foi golpeada pelo madeiro”. É do lado aberto de Cristo crucificado e trespassado pela lança que brotam sangue e água, prefiguração da eucaristia e do baptismo. A igreja nasce da cruz de Cristo.

Todos nós nascemos, pelo nosso baptismo, da Páscoa de Cristo prefigurada na Páscoa dos judeus. Pelo baptismo começamos o nosso caminho de filhos de Deus em direcção à terra prometida. No entanto, também nós como o Povo de Deus sentimos, nos momentos de prova, sede de uma vida plena e não poucas vezes pensamos que Deus já não está connosco para saciar a nossa sede de vida e de felicidade. É assim que começamos a procurar outras fontes. Fontes secas ou de má qualidade que não matam a nossa sede. É neste contexto e nesta busca humana da água que dá vida que a Liturgia da Palavra deste domingo nos apresenta o evangelho da Samaritana.

No versículo precedente ao evangelho deste domingo lemos: “Era preciso passar pela Samaria” (Jo 4, 4). Um leitor desprevenido poderia pensar que esta seria uma simples e mera informação geográfica. Mas, na verdade, o passar pela Samaria era algo que se evitava. Algo que se evitava porque era uma região montanhosa e porque as relações entre judeus e samaritanos eram tensas. Na verdade, os samaritanos, eram um povo misto e hostil aos hebreus que se formou depois da conquista da Samaria pelos assírios e da respectiva deportação. Além disso, os samaritanos eram considerados, pelos israelitas, um povo sincretista que tinha abandonado a pureza da fé de Israel. Foram vários, ao longo da história, os confrontos entre Judeus e Samaritanos. Assim sendo, a necessidade de Jesus passar pela Samaria não é uma necessidade geográfica mas uma necessidade teológica que só se pode compreender à luz de Is 52 e Ct 2,8. “A voz de meu amado! Ei-lo que chega, correndo pelos montes, saltando sobre as colinas.”

O texto começa por oferecer-nos alguns dados interessantes. Em primeiro lugar, chama-nos à atenção o número de vezes que o evangelista João repete o nome Jesus. Ele não perde uma oportunidade de mencionar o nome Jesus, mesmo quando ele poderia ser substituído por um pronome pessoal. Este uso pleonástico do nome Jesus indica-nos que João tem o nome de Jesus na cabeça e pretende transmiti-lo.

A indicação temporal e espacial que nos oferece o texto também tem o seu significado. O poço era um lugar importante na tradição bíblica. O poço é o lugar dos encontros no Antigo Testamento, encontros esses que muitas vezes resultaram em casamento. Além disso, também a lei de Deus era considerada um poço donde brotava a água que saciava a sede do Povo. Tudo isto se passa ao meio-dia. Segundo Ct 1, 7 é ao meio-dia que o amado descansa e que por isso pode ser encontrado. A hora sexta é a hora de maior luminosidade onde tudo pode ficar mais claro.

É neste espaço e a esta hora que “Jesus, cansado da caminhada, sentava-se”. Sim, sentava-se e não sentou-se como diz a tradução litúrgica deste texto. João usa o imperfeito para indicar que Jesus se sentou sem pressas e com todo o tempo do mundo.

Depois, aproxima-se uma samaritana para buscar água e Jesus começa um diálogo com uma mulher daquele povo com quem os judeus não se davam. Diálogo esse que não era uma simples conversa de circunstância mas uma conversa para a qual estava disposto a gastar tempo. Um Jesus que vence as barreiras culturais que nos impedem de nos aproximarmos dos outros.

“Dá-me de beber”, é assim que Jesus inicia o diálogo. Jesus começa como um pedinte mas tem a intenção de tornar a samaritana numa pedinte. Este texto oferece-nos a imagem de um Jesus pedagógico que desce ao nível do seu interlocutor. Na verdade, a água física foi só um pretexto para falar da água verdadeira que é capaz de saciar a nossa sede de felicidade e de vida plena.

E é assim que de água se passa a falar do marido. No Antigo Testamento, aparece várias vezes a imagem de Deus como esposo do seu Povo. A mulher diz que nesse momento não tem nenhum marido. A resposta da mulher (“não tenho marido”) evoca-nos outros episódios do evangelho de João onde não se tem mas se vai ter (cf. Jo 2, 3; Jo 5,7, Jo 21,5).

Jesus advinha a vida da mulher. Jesus entra na vida da mulher. A adivinhação de Jesus é um elemento comum no evangelho de João (cf. Jo 1, 47; Jo 20, 15, Jo 20, 27-28) e manifesta que Jesus é alguém que penetra em nós, que nos conhece e que põe a nossa verdade sobre a mesa. Na verdade, a mulher não tem marido porque já teve cinco maridos e aquele com está agora não é seu marido. Estes cinco maridos são uma referência aos cinco deuses dos samaritanos (cf. 2 Re 17, 29-41). Deuses esses que são incapazes de dar a água viva que sacia a nossa sede de vida.

Ao ouvir tal coisa a samaritana deixa o seu cântaro, aquele objecto com o qual pretendia tirar a água de tantas propostas limitadas e falíveis de felicidade, porque encontrou a verdadeira fonte de água viva. Como as testemunhas de Domingo de Páscoa, a Samaritana corre a anunciar aos seus conterrâneos Jesus e com a sua pergunta pedagógica (Não será ele o Messias?) leva-os até Jesus. Junto de Jesus também eles acreditam que Jesus é o Salvador do Mundo.

A contrastar com estas atitudes de fé da samaritana e dos samaritanos temos os discípulos. Na verdade, eles estiveram ausente grande parte do relato, tinham ido comprar alimento. Os discípulos admiram-se de Jesus dialogar com uma samaritana mas nãos perguntam nada para não darem ocasião para Jesus falar. Quando falam a Jesus é para lhe pedirem que coma. Mas Jesus responde que tem outro alimento. Se fossem a mulher, os discípulos perguntariam que alimento era esse e pediriam desse alimento. No entanto, os discípulos falam entre si, fecham-se em si e não deixam espaço a Cristo. Neste texto, os discípulos só sabem comer e comprar.

Também nós discípulos de Cristo muitas vezes estamos com Cristo e ele quer-nos dar a verdadeira água e o verdadeiro alimento mas nós recusamos. Na verdade, não queremos que ele entre verdadeiramente na nossa vida, como entrou na vida da samaritana, e a transforme.

Mas qual será a água viva de que Jesus fala e nos quer oferecer? É o próprio evangelista João que, alguns capítulos mais a frente, nos responde. No último dia, o mais solene da festa, Jesus, de pé, bradou: «Se alguém tem sede, venha a mim; e quem crê em mim que sacie a sua sede! Como diz a Escritura, hão-de correr do seu coração rios de água viva.» Ora Ele disse isto, referindo-se ao Espírito que iam receber os que nele acreditassem; com efeito, ainda não tinham o Espírito, porque Jesus ainda não tinha sido glorificado.” (Jo 7, 37-39) A verdadeira água que mata a nossa sede e irriga a nossa existência árida é o Espírito Santo. Como diz o Apóstolo Paulo na segunda leitura: “o amor de Deus foi derramado em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado… Deus prova assim o seu amor para connosco: Cristo morreu por nós, quando éramos ainda pecadores”. É o amor de Deus que se manifesta de forma exímia na Paixão e Morte de Cristo que é derramado nos nossos corações pelo dom pascal do Espírito Santo. É o amor de Deus que é capaz de nos dar vida e saciar o nosso desejo de vida plena. E este amor encarnou numa pessoa muito concreta: Jesus Cristo. Jesus mostra que Deus é amor que nunca desiste do homem e que sempre encontra forma de vir ao nosso encontro e de fazer caminho connosco.

Sem Deus a nossa vida não é vida. Sem Deus a nossa vida é um deserto árido. Só com a água viva do Espírito que derrama nos nossos corações o amor de Deus é que a nossa vida pode florescer. Viver como baptizados, viver como homem novos é viver a partir da água viva do Espírito de Amor, o grande Dom Pascal.

P. Nuno Ventura Martins

missionário passionista

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