Ano A – III Domingo de Páscoa

1ª Leitura: Act 2, 14. 22-33;
Salmo: Sl 15, 1-2ª e 5. 7-8. 9-10. 11;
2ª Leitura: 1 Pe 1, 17-21;
Evangelho: Lc 24, 13-35.

 

Testemunhas da Ressurreição do Senhor!

Inicia a liturgia da palavra deste terceiro domingo de Páscoa com a afirmação de Pedro “Foi este Jesus que Deus Ressuscitou, e disso todos nós somos testemunhas”. No entanto, esta afirmação mais do que nos dar uma informação levanta-nos uma questão: serei mesmo testemunha da ressurreição?

Ninguém pode testemunhar correctamente uma coisa que não experimentou. Cada cristão é chamado a ser testemunha da ressurreição do Senhor. Mas como podemos testemunhar a ressurreição de Jesus? Como podemos fazer a experiência do encontro com o Senhor ressuscitado que nos capacita e transforma em testemunhas credíveis da ressurreição do Senhor?

Dúvidas semelhantes a estas tinha a comunidade cristã para a qual Lucas escreve o seu evangelho. Estamos nos anos 80 e a comunidade de São Lucas começa a enfrentar a alguns problemas. Já se tinham passado 50 anos da morte e ressurreição de Jesus. O anúncio da ressurreição do Senhor continuava a fazer-se na catequese. No entanto, cada vez era mais difícil fazer a experiência do ressuscitado. As testemunhas oculares já tinham desaparecido e o mistério pascal de Jesus parecia algo distante, ilógico e irreal. Ante estas dificuldades, o evangelista Lucas apresenta esta página do evangelho para mostrar como é que os cristãos podem descobrir que Jesus está vivo e como podem fazer a experiência com o ressuscitado. Assim sendo, o relato dos discípulos de Emaús, página exclusiva do evangelho de Lucas, mais do que um relato jornalístico é uma página de catequese, é o relato de uma caminhada mais interior do que geográfica.

Eram dois os discípulos que iam a caminho. Um chamava-se Cléofas o outro não possui nome mas engloba em si todos os nomes: o meu, o teu e de tantos contemporâneos nossos. E estes dois estão a caminho. Na verdade, o texto diz-nos que se dirigiam para uma aldeia, a 12 quilómetros de Jerusalém, que se chamava Emaús. No entanto, uma localidade com tal nome e a tal distância é desconhecida.

Estamos na tarde do dia de Páscoa, mas estes discípulos ainda vivem a sexta-feira santa da aparência da vitória da morte sobre a vida, do mal sobre o bem, do ódio sobre o amor, da violência sobre a ternura. Estão tristes e desanimados. Os seus sonhos e as suas esperanças foram crucificados e morreram juntamente com Jesus.

É nesta situação que um misterioso peregrino se junta com eles e os interpela. “Que palavras são essas que trocais entre vós pelo caminho?”. Eles ficaram tristes e afirmaram que ele era o único a ignorar o que se tinha passado em Jerusalém. No entanto, o evangelista Lucas usa aqui uma fina ironia. Na verdade, este misterioso viandante é o único que sabe o que realmente se passou em Jerusalém e é quem vai ajudar estes discípulos a compreenderem o sucedido.

No entanto, o peregrino pede que os discípulos contem o que se passou, pede que os discípulos dêem testemunho de Jesus. No entanto, o testemunho que eles dão de Jesus é um testemunho incompleto. Para eles, Jesus tinha sido profeta poderoso em palavra e obras que foi crucificado e que tinha morrido. Algumas mulheres os tinham desinquietado ao dizerem que o sepulcro estava vazio e que uns anjos lhes tinham aparecido a dizer que Jesus estava vivo. Mas para estes discípulos a morte de Jesus na cruz era algo definitivo pois já tinham passado os três dias que segundo a mentalidade judaica correspondia à morte definitiva e à impossibilidade de retornar do túmulo. Todos estes acontecimentos tiraram totalmente a esperança aos discípulos.

No entanto, a este testemunho sobre Jesus falta a parte mais importante: a ressurreição de Jesus. Dela serão testemunhas. Na verdade, no final do evangelho deste domingo diz-se que “partiram imediatamente de regresso a Jerusalém … e contaram o que tinha acontecido no caminho e como o tinham reconhecido ao partir do pão”.

Mas, como descobriram estes discípulos que Jesus estava vivo? Como fizeram eles a experiência do ressuscitado? O texto desenvolve-se a volta de dois elementos que formam uma unidade: a escritura e a fracção do pão. É a eucaristia com as suas duas mesas, a mesa da palavra e a mesa do pão e do vinho eucarístico, o lugar onde podemos descobrir que Jesus está vivo e que podemos fazer a experiência do ressuscitado.

Ao longo do caminho Jesus faz uma grande aula pascal sobre a escritura aos discípulos. Mostra que a sua paixão e morte estavam preanunciadas na escritura. Começando em Moisés e passando pelos profetas, o estranho peregrino mostra como o amor até ao fim e a dadiva da vida não é um fracasso mas é algo que gera uma vida nova e definitiva.

A palavra de Deus, repartida e explicada em cada celebração eucarística, revela-nos o verdadeiro sentido da história, inidica-nos os caminhos que devemos percorrer e devolve-nos a esperança. Jesus morto e ressuscitado é a chave de compreensão da escritura e é Ele que desvela o seu significado.

No entanto, só na fracção do pão é que os discípulos reconheceram o Senhor. Só quando “se pôs à mesa, tomou o pão, recitou a bênção, partiu-o e entregou-lhe”, só quando repetiu aqueles gestos inauditos com que instituiu a eucaristia é que os discípulos reconheceram Jesus. É na celebração da eucaristia que encontramos e fazemos a experiência do Senhor ressuscitado. A eucaristia é o memorial da paixão, morte e ressurreição de Jesus.

No entanto, a eucaristia não termina com a comunhão. Assim como no evangelho deste dia, depois de terem reconhecido Jesus ao partir do pão os discípulos foram anunciar a ressurreição do Senhor, também cada cristão no final de cada eucaristia é enviado em missão: “Ide em paz e o Senhor vos acompanhe”.

Como Pedro no dia de Pentecostes, também nós temos de ser testemunhas da ressurreição. O testemunho de Pedro que escutamos na primeira leitura deste dia é a mensagem que temos de testemunhar e anunciar ao mundo: “Jesus de Nazaré foi um homem acreditado por Deus junto de vós com milagres, prodígios e sinais, que Deus realizou no meio de vós, por seu intermédio, como sabeis. Depois de entregue, segundo o desígnio imutável e a previsão de Deus, vós destes-Lhe a morte, cravando-O na cruz pela mão de gente perversa. Mas Deus ressuscitou-O, livrando-O dos laços da morte”.

Ser testemunha da ressurreição é a tarefa da Igreja no seu conjunto e de cada um dos discípulos de Jesus. A igreja é a esposa do Senhor Ressuscitado e não a sua viúva. Anunciar a ressurreição é testemunhar que a vida é mais forte que a morte, é acreditar que o amor é mais forte que o ódio, é ver que a ternura é mais forte que a violência, é sentir que a esperança dissipa qualquer desespero.

Que em cada eucaristia nos encontremos com o Senhor Ressuscitado e que esse encontro nos torne testemunhas credíveis da Páscoa de Cristo para a Páscoa de toda a criação!

 

P. Nuno Ventura Martins

missionário passionista

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