Ano A – IV Domingo de Páscoa

1ª Leitura: Act 2, 14a. 36-41;
Salmo: Sl 22, 1-3a. 3b-4. 5. 6;
2ª Leitura: 1 Pe 2, 20b-25;
Evangelho: Jo 10, 1-10

 

O tempo pascal é o tempo por excelência do anúncio de Cristo Ressuscitado. Anúncio este que nos implica, explica e constitui. Na verdade, ninguém pode ficar indiferente ante o testemunho pascal. Assim acontece na leitura dos Actos dos Apóstolos deste domingo. Pedro, no dia de Pentecostes, anuncia, com os onze, a boa nova da ressurreição a todo o povo: “saiba com absoluta certeza toda a casa de Israel que Deus fez Senhor e Messias esse Jesus que vós crucificastes”.

Ao ouvirem tal palavra, os seus interlocutores ficaram com o coração trespassado. Na verdade, a mensagem que escutam implica-os, tem alguma coisa a ver com eles. Diante da interpelação de Pedro, o povo reconhece a sua culpa e o seu pecado e pergunta: “que havemos de fazer, irmãos?” A esta interpelação Pedro responde que cada um se deve converter, pedir o baptismo e receber o Espírito Santo. Ante a Palavra de Deus ninguém pode ficar indiferente. A palavra de Deus interpela-nos.

A primeira leitura deste dia é um belo exemplo de como nos devemos comportar diante do anúncio da Palavra de Deus. Ouvir o anúncio pascal, ouvir a palavra de Deus não é algo informativo mas performativo. A palavra de Deus implica-nos, explica-nos e constitui-nos. Quando nos deixamos ler pela palavra de Deus, sentimos o coração trespassado porque descobrimos que muitos dos caminhos que trilhamos foram caminhos errados. No entanto, a descoberta do nosso pecado não nos deve levar à angústia e ao desespero. Cristo morreu pelos nossos pecados mas Deus Ressuscitou-o. A vida vence a morte, a luz dissipa as trevas, o amor apaga todo o ódio, a esperança reanima os desesperados. O anúncio da Páscoa é o anúncio do perdão. Deus não nos condena mas oferece-nos o seu perdão. Diante da descoberta da nossa verdade e da verdade do amor e do perdão de Deus só uma pergunta, expressão de um desejo vital, pode sair dos nossos lábios: “Que havemos de fazer?”

É com esta disponibilidade que nos devemos aproximar do evangelho deste domingo. O quarto domingo de Páscoa é conhecido como o domingo do bom pastor. Isto acontece porque o evangelho deste domingo é retirado do capítulo 10 do evangelista São João onde se encontra o discurso do bom, melhor dizendo, do belo pastor.

No entanto, falar, hoje em dia, de pastor parece anacrónico e descontextualizado. A grande maioria de nós nunca viu um rebanho com o seu pastor a não ser na televisão ou através de alguma imagem. Numa sociedade industrial e com grande concentração urbana a imagem do pastor e do seu rebanho é uma imagem bucólica e não suscita em nós as ressonâncias pastorícias e bíblicas que deveria suscitar. Assim sendo, torna-se necessário, para compreendermos melhor o texto evangélico, indicar alguns dados.

O pastor não é só aquele que guia e conduz o rebanho. A função de guia não separa mas une o pastor à sorte do rebanho. O pastor é um companheiro de viagem que partilha com as suas ovelhas a sede, as longas caminhadas em busca dos melhores pastos, o calor do sol e as noites frias. O pastor é aquele que se sacrifica pelas suas ovelhas. O pastor é aquele que arrisca a sua vida pelas ovelhas.

Além deste elemento pastoril, existe um outro elemento teológico que no Antigo Testamento caracteriza o pastor. Na verdade, o Antigo Testamento aplica a imagem do pastor aos chefes, ao rei e a Deus. No contexto assírio-babilónico o rei era designado como um pastor investido por Deus e o seu governo era visto como o acto de apascentar o rebanho. No Antigo Testamento também encontramos alusões a imagem do bom pastor. O próprio Deus é designado como o Pastor de Israel (cf. Sl 23). Esta designação plasmou a piedade de Israel e tornou-se uma mensagem de consolação e de confiança sobretudo nos períodos de calamidades de Israel.

No entanto, o texto veterotestamentário que mais influenciou o trecho evangélico de hoje foi Ezequiel 33-34. Neste texto, Deus promete ao seu povo, exilado na Babilónia e vítima de tantos líderes que foram maus pastores, que Ele próprio assumirá a condução do seu povo e colocará à frente do povo o Messias, o bom pastor.

O contexto em que o discurso do bom pastor aparece no evangelho de São João também não deixa de ser esclarecedor. O discurso do bom pastor surge depois da polémica entre Jesus e alguns líderes judaicos, resultante da cura do cego de nascença (Jo 9, 1-41). Estes líderes, especialmente os fariseus, impediam o povo de aceder a qualquer possibilidade de vida e de libertação. Estes líderes não eram verdadeiros pastores pois só se preocupavam consigo próprios e não serviam mas serviam-se do povo para os seus interesses.

É neste contexto que o evangelho deste domingo apresenta-nos duas parábolas. Na primeira parábola (Jo 10, 1-6) Jesus apresenta-se como o verdadeiro pastor e na segunda (Jo 10, 7-9) apresenta-se como a porta.

Na primeira parábola, Jesus começa por fazer a contraposição entre os ladrões e bandidos e o verdadeiro pastor. O verdadeiro pastor entra pela porta e o porteiro abre-lhe a porta. O porteiro é Deus que em Ezequiel 34 prometeu apascentar o seu povo através do seu messias. A parábola dá a entender que o porteiro não deixa entrar os ladroes mas deixa entrar, sem demoras, o pastor. O pastor é Jesus, o messias, aquele a quem Deus confiou o cuidado do seu rebanho. Ao declarar-se como pastor Jesus está a dizer implicitamente que é ele o messias prometido por Deus.

Depois da apresentação de Jesus como o verdadeiro pastor, a primeira parábola também descreve a relação que o verdadeiro pastor mantém com as suas ovelhas. Relação esta que é bem distinta da dos falsos pastores. O verdadeiro pastor tem uma relação pessoal com cada uma das ovelhas: chama-as pelo nome e elas conhecem a sua voz. É uma relação de proximidade e de liberdade que Jesus estabelece com cada um de nós.

Se as ovelhas ouvirem a sua voz saem do estábulo e não mais voltam a ele. É o novo êxodo do novo povo de Deus que sai do Egipto do pecado e segue o seu pastor pelo deserto em direcção à terra prometida.

A segunda parábola refere-se à porta. Jesus define-se como a porta. Não deixa de ser curioso que uma das portas do templo de Jerusalém se chamasse porta das ovelhas. Ao designar-se como a porta das ovelhas, Jesus está a afirmar que é Ele o verdadeiro templo, que é Ele que nos permite entrar em contacto com Deus. Jesus é a única porta de acesso para que as ovelhas possam ter vida e vida em abundância.

No entanto, a imagem da porta também se pode referir a todos aqueles que tem a missão de serem pastores e guias na Igreja. O teólogo Ratzinger, no seu livro “Jesus de Nazaré”, afirma que neste texto Jesus indica o critério para os seus pastores depois da sua ascensão. O verdadeiro pastor, terá de entrar por Jesus que é a porta. Jesus permanecerá como o pastor. O rebanho só pertence a Jesus. Quem segue os pastores que Jesus dá à sua Igreja está a seguir Cristo. Na verdade, ninguém pode apascentar o rebanho de Cristo se não for chamado por Deus e se não tiver os mesmos sentimentos de Jesus.

É neste contexto que a Igreja, neste domingo, nos convida a rezar pelas vocações. Que o Senhor, Belo Pastor, nos dê sempre pastores segundo o seu coração e que nos saibamos seguir sempre a voz do Belo Pastor que é o Senhor crucificado e ressuscitado e não nos deixemos seduzir pelas encantadoras vozes dos ladrões e dos bandidos.

P. Nuno Ventura Martins

missionário passionista

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