Ano A – IX Domingo do Tempo Comum

1ª Leitura: Deut 11, 18. 26-28. 32;
Salmo: Sl 30, 2-3ª. 3bc-4. 17 e 25;
2ª Leitura: Rom 3, 21-25ª. 28;
Evangelho: Mt 7, 21-27.

“Nem todo aquele que Me diz ‘Senhor, Senhor’ entrará no reino dos Céus, mas só aquele que faz a vontade de meu Pai”

Neste último domingo do tempo comum antes de iniciar o tempo da Quaresma, a liturgia propõe-nos a última parte do Sermão da montanha, a última parte deste discurso onde Jesus como novo Moisés no monte (referência ao Monte Sinai onde Deus deu as tábuas da Lei a Moisés) dá a nova lei ao novo Povo de Deus. Assim sendo, o evangelho deste Domingo só se pode perceber tendo em atenção todo o discurso da montanha.

Outra das chaves de leitura a que devemos prestar atenção para compreendermos bem o evangelho deste domingo é a situação que a comunidade de Mateus vivia. O evangelho de Mateus foi escrito por volta do ano 80. Nesta época, já se tinham passado 10 anos da destruição do templo de Jerusalém e os cristãos começavam a desanimar porque a vinda do Senhor Jesus tardava. Nesta conjuntura, apareceram alguns falsos profetas que ensinam doutrinas estranhas e tem comportamentos não menos estranhos.

Ante esta situação, Mateus, recolhendo vários ditos de Jesus, convida-nos a reflectir sobre a maneira como estamos a viver a nossa fé.

O texto evangelho deste domingo começa com a referência àqueles que dizem “Senhor, Senhor” e que até fazem boas obras (“Senhor, Senhor, não foi em teu nome que profetizámos e em teu nome que expulsámos demónios e em teu nome que fizemos tantos milagres?”) mas que não conheceram verdadeiramente Jesus.

O texto muito provavelmente refere-se aos falsos profetas que começavam a surgir. Estes falsos profetas apesar de terem o nome de Deus nos seus lábios o seu coração e a sua vida estavam vazios de Deus. No entanto, também a nós não nos pode deixar de interpelar este texto. Na verdade, também nós corremos o risco do Senhor, com toda a razão, nos dizer: “‘Nunca vos conheci. Apartai-vos de Mim, vós que praticais a iniquidade”. Mais do que o Senhor não nos conhecer somos nós que não conhecemos Jesus e entramos em verdadeira relação com ele. São muitas as atitudes que temos que demonstram que não conhecemos Jesus. Quem se encontrou com Jesus não fica indiferente, tem uma forma concreta de estar no mundo!

Todavia, como o próprio Jesus denuncia no evangelho a vivência da nossa fé muitas vezes se limita a dizer “Senhor, Senhor” e a cumprimos algumas práticas de piedade. Muitas vezes dizemos “Senhor, Senhor” mas não reconhecemos que Deus é o verdadeiro Senhor da minha vida. Muitas vezes cumprimos certas obras não como uma exteriorização da fé mas como um puro acto social.

São muitos aqueles que se dizem cristãos mas que na sua vida não se mostram como cristãos. Esta é uma denúncia séria e deve-nos levar a pensar: não estarei eu a viver numa esquizofrenia? Muitas vezes os nossos lábios e os símbolos que portamos podem dizer que somos cristãos mas as nossas obras desmentem o que dizemos.

Não vale a pena eu dizer que sou cristão e levar comigo símbolo cristãos se não cumprir a “vontade” de Deus. O próprio Jesus disse no Evangelho de João: “Nisto conhecerão todos que sois os meus discípulos: se vos amardes uns aos outros” (Jo 13,35).

Jesus adverte-nos que só cumprindo a vontade do Pai é que poderemos entrar no reino de Deus. Mas podemos perguntar-nos, qual é a vontade de Deus? Todos nós, na oração do pai-nosso pedimos “seja feita a vossa vontade”. Mas qual é a vontade de Deus?

A vontade de Deus é a nova lei que Jesus apresentou no sermão da montanha, ou seja, as bem-aventuranças, o discipulado como sal e luz do mundo, a vivência de uma moral de atitudes e não casuística e a confiança em Deus. É esta a mensagem dos evangelhos que temos vindo a escutar nestes últimos domingos.

Para mostrar a incoerência e o perigo de uma vida de fé esquizofrénica e incoerente o próprio Jesus conta a parábola da casa construída sobre a rocha e sobre a areia. A casa construída sobre a rocha é aquela existência que é construída em Cristo e firme na fé. (cf. Col 2, 7). Só enraizados e edificados em Cristo, pedra angular rejeitada pelos construtores (cf. Act 4, 11) e firmes na fé é que podemos suportar as frequentes tempestades a que somos sujeitos.

A casa edificada sobre a areia é aquela existência que é construída a partir e em função das aparências. É aquela existência de quem não faz as coisas por convicção mas por rotina. É aquela existência que se constrói sobre si própria, sobre a sua auto-suficiência. Uma existência construída sobre estes alicerces frágeis não é capaz de aguentar as tempestades próprias da vida.

É por esta razão que o apóstolo Paulo na epístola aos romanos nos diz que o “homem é justificado pela fé”. Depois de ter mostrado a fragilidade humana marcada pelo pecado, Paulo mostra que o homem não se pode salvar por si próprio, pelas obras que faz. A salvação, a verdadeira vida em abundância, a verdadeira qualidade de Deus é dom da Graça (“todos são justificados de maneira gratuita pela sua graça, em virtude da redenção realizada em Cristo Jesus”), ou seja, do amor de Deus que se revela de uma forma muito especial na Paixão, Morte e Ressurreição de Jesus.

É a fé, a fé neste Deus que nos ama e vem ao nosso encontro que nos pode dar a salvação. É curioso que o termo fé no hebraico relaciona-se com confiança, firmeza. Quem tem fé constrói a sua existência na confiança e na firmeza em Deus.

Apesar de ter sido a primeira leitura a ser proclamada, a leitura do livro Deuteronómio, deste testamento espiritual de Moisés antes do povo entrar na terra prometida, é uma boa interpelação que resume a mensagem deste domingo: “Ponho hoje diante de vós a bênção e a maldição: a bênção, se obedecerdes aos mandamentos do Senhor vosso Deus, … a maldição, se não obedecerdes aos mandamentos do Senhor vosso Deus”.

Temos a liberdade de escolher o caminho que queremos seguir. Mas tal liberdade não impede que se advirta que só o caminho de uma vida edificada em Deus é um caminho de bênção e de felicidade. Por sua vez, o caminho de uma vida sem Deus, construída só sobre o homem e sobre outros ídolos é um caminho de maldição, de infelicidade. Como dizia Bento XVI, no início do seu pontificado, “Cristo não tira nada mas dá tudo”

Que neste Domingo, a palavra de Deus, como convida a primeira leitura do livro do Deuteronómio seja como um frontal na nossa testa, gravada no nosso coração e atada à nossa mão, ou seja, que a Palavra de Deus molde os nossos pensamentos, palavras e acções.

Se queremos aderir verdadeiramente a Jesus, porque reconhecemos que a fé em Deus e a adesão à sua pessoa dá sentido e ilumina a nossa existência quotidiana com todas as suas tempestades, temos de viver coerentemente a nossa fé. Se verdadeiramente sou cristão, devo sê-lo em todas a circunstâncias da minha vida. Se Deus é verdadeiramente a pedra angular sobre a qual eu construo a minha existência não posso dizer com os lábios que Jesus é o meu Senhor e com a minha vida, com os meus ódios, violências, rancores, egoísmos, enganos, … negar que conheço Jesus. Na verdade, “nem todo aquele que Me diz ‘Senhor, Senhor’ entrará no reino dos Céus, mas só aquele que faz a vontade de meu Pai”

P. Nuno Ventura Martins

missionário passionista

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