Ano A – Santíssima Trindade

1ª Leitura: Ex 34, 4b-6. 8-9;
Salmo: Dan 3, 52.53-54.55acd-56;
2ª Leitura: 2 Cor 13, 11-13;
Evangelho: Jo 3, 16-18.

 

Depois de termos celebrado o Mistério Pascal, lugar por excelência onde se revela o Deus cristão, a liturgia convida-nos a celebrar, neste domingo, a Solenidade da Santíssima Trindade, ou seja, convida-nos a contemplar e a professar a nossa fé no Deus Cristão, o Deus uno-trino.

O facto de acreditarmos em Deus é algo fundamental para a nossa vida de fé. No entanto, a celebração deste dia é uma forte interpelação. Ela convida-nos a ver em que Deus acreditamos. Será que aquele “deus” que dizemos acreditar é verdadeiramente o Deus cristão? Na verdade, há muitas imagens que podemos ter de Deus que estão nas antípodas do Deus Cristão.

Para muitos Deus é o “deus tapa buracos”, o “deus dos pozinhos mágicos” a quem recorremos quando temos algum problema e a quem chantageamos para resolver os nossos problemas. Para outros, Deus é o “deus legislador” que gosta de dar ordens arbitrárias para limitar a felicidade do homem. Como consequência desta imagem de Deus, outros afirmam que Deus é o “deus polícia”, o “deus” que está sempre atento para ver quando o homem peca para o castigar. Para outros Deus é o “deus desmancha-prazeres” porque, como muitos dizem, tudo aquilo que é bom ou faz mal ou é pecado. Para outros Deus é o “deus da guerra e da intolerância” que para impor o seu culto não exclui a violência, o fundamentalismo e a força.

No entanto, o Deus Cristão, o Deus revelado no Mistério pascal não corresponde a estas imagens. Estas foram imagens de “deus” que o Homem construiu e que muitas vezes são a projecção dos seus sonhos e das suas características. Mas quem é o Deus cristão? As leituras deste domingo ajudam-nos a traçar o rosto do Deus cristão.

A primeira leitura do livro do Êxodo transmite-nos a auto-apresentação que Deus faz de si mesmo. Depois de Deus ter libertado o povo da escravidão do Egipto, o povo de Israel fez uma aliança com Deus. No entanto, quando Moisés subiu ao monte Sinai e ficou na presença do Senhor, o povo rompeu a aliança construindo e adorando um ídolo, um bezerro de ouro. No entanto, Moisés intercede pelo seu povo e Deus renova a aliança com o seu povo. É neste contexto de renovação de aliança que o nosso texto se insere.

Depois de ter pedido perdão pelo seu povo, Moisés volta a subir à montanha e aí tem lugar a manifestação de Deus que renovará a aliança com o seu povo. É neste contexto que Deus faz a sua auto-apresentação. Poderíamos pensar, influenciados pelas falsas imagens de Deus que nos habitam, que Deus se apresentaria como o todo-poderoso, como aquele que não deixaria impune os que quebraram a sua aliança. No entanto, não é assim que Deus se apresenta. Deus apresenta-se como o “Deus clemente e compassivo, sem pressa para Se indignar e cheio de misericórdia e fidelidade”. Clemência, compaixão, misericórdia e fidelidade: são estes os atributos de Deus. Deus ama o seu povo apesar das suas infidelidades. Como o povo de Israel foi convidado a descobrir este Deus e a fazer aliança com Ele, também nós somos chamados a entrar em relação com este Deus que é amor, compaixão, misericórdia e fidelidade.

E se alguma dúvida ainda resta da bondade e misericórdia de Deus o evangelho deste dia as dissipa. Na verdade, o evangelista João, nos primeiros capítulos do seu evangelho, onde o texto deste domingo se insere, apresenta quem é Jesus através do encontro de Jesus com algumas personagens.

O texto do evangelho de hoje situa-se no diálogo entre Jesus e Nicodemos, um dos chefes dos judeus que se encontrou com Cristo de noite. O encontro de Jesus com Nicodemos pode ser dividido em três partes: Nicodemos reconhece a autoridade de Jesus devido às suas obras; Jesus afirma a necessidade de nascer de novo pela água e pelo Espírito; Jesus revela o projecto de salvação que é uma iniciativa do Pai e que passa pela cruz. O texto do evangelho deste dia situa-se nesta terceira parte.

O primeiro versículo do evangelho é a afirmação do amor excessivo de Deus pelo mundo. Tal amor levou o Pai a entregar o seu Filho até à morte e à morte de cruz. A cruz de Cristo, como dizia São Paulo da Cruz é a “maior e mais maravilhosa obra do amor divino”. Deus porque ama os homens e porque lhes quer dar a salvação entrega o seu Filho. Tal entrega lembra-nos o sacrifício de Isaac. Abraão por amor de Deus é capaz de se desprender do seu Filho. No entanto, a vida do filho de Abraão é poupada. Por sua vez, Deus por amor dos homens é capaz de entregar a morte o seu Filho unigénito.

Em seguida, o evangelho afirma que Deus enviou o seu Filho ao mundo para salvar o mundo, para lhe dar a vida plena e com qualidade da salvação e não para o condenar judicialmente. Deus não exclui ninguém da salvação, oferece-a a todos. No entanto, e como mostra a última parte do texto, o homem pode ter duas atitudes diante da oferta da salvação. Pode aceita-la ou recusá-la. Não é Deus que por uma decisão judicial salva ou condena o homem. É o homem que com a sua liberdade pode aceitar ou auto-excluir-se da salvação, dom de Deus a todos os homens.

Tanto a primeira leitura como o evangelho convidam-nos a contemplar a realidade de Deus que é amor. Uma das definições mais concisas mas mais abrangente que encontramos de Deus no Novo Testamento é a definição de João: “Deus é amor” (1 Jo 4, 16). Celebrar a solenidade da Santíssima Trindade, deste Deus que é uno-trino, como nos afirma Paulo na sua segunda carta aos coríntios através da fórmula trinitária mais clara de todo o Novo Testamento (“A graça do Senhor Jesus Cristo, o amor de Deus e a comunhão do Espírito Santo estejam convosco”), é um convite a contemplarmos o amor de Deus. Na verdade, é ao contemplarmos o amor de Deus, um amor que se revela na história da salvação que podemos chegar a afirmação da Trindade.

A mensagem das leituras deste dia mostra-nos que acreditar em Deus é acreditar que Deus é amor. Deus não é solidão mas comunhão. Na verdade, a realidade do amor não se limita a um.

“Crer neste eterno Amor significa crer que Deus é Um em Três Pessoas, numa comunhão assim perfeita, que os Três são verdadeiramente Um no amor, e juntos segundo relações assim reais, subsistentes na única essência divina, que esses são verdadeiramente Três no dar e no receber o Amor, no encontrar-se e no abrir-se ao amor” (Bruno Forte). Usando a analogia de Santo Agostinho podemos dizer que a Trindade é constituída por três: o Amante, o Amado e o Amor recebido e dado, ou seja, o Pai, o Filho e o Espírito Santo.

O Pai é a fonte do amor. É Ele que nos ama desde sempre e entregou o seu Filho à morte por todos nós. É o Pai que começa sempre amar e não precisa de nenhum motivo para isso. “Deus não nos ama porque somos bons e bonitos; Deus torna-nos bons e belos porque nos ama” (Lutero). O amor do Pai, gratuito e infindável, é o que nos torna capazes de amar. É Ele que nos contagia o seu amor.

Se o Pai é o eterno Amante, o Filho é o eterno Amado, aquele que desde sempre se deixou amar. O Filho mostra-nos que não só a gratuidade é divina mas também a gratidão, o deixar-se amar. O Filho é o acolhimento puro, é aquele que desde sempre disse sim ao amor do Pai. Não basta amar, é preciso deixar-se amar. Só seremos imagem do Filho na medida em que sabemos acolher os outros. Na verdade, quando não se acolhe o outro, não se acolhe Deus.

O Espírito é o vínculo do amor que une o Amante e o Amado. É por isso que quando recebemos o Espírito somos capazes de nos unir a Deus e aos irmãos. O Espírito é o êxtase de Deus. O Espírito não só une o Amante e o Amado. É o Espírito que leva Deus a sair de si mesmo. O Espírito é a liberdade e o dom do amor divino. É por isto que quando abrimos o nosso coração ao Espírito somos impelidos à missão porque não podemos guardar só par nós o dom do amor com que somos amados. E é neste eterno evento de amor que tem lugar a unidade divina, o recíproco inabitar-se das três pessoas no amor.

Celebrar a festa da Santíssima Trindade é um convite a descobrirmos e a contemplarmos quem é o Deus Cristão e a renovar a nossa profissão de fé em Deus. A nossa fé no Deus uno-trino tem incidências práticas. A fé no Deus uno-trino tem consequências na nossa vida pessoal, eclesial e social. Na verdade, quem acredita no Deus trinitário que é mistério de comunhão está chamado a contemplar esse Deus que é amor e a entrar nesse mistério de amor. Na verdade, como diz João “todo aquele que ama nasceu de Deus e conhece a Deus” (1 Jo 4, 7).

P. Nuno Ventura Martins

missionário passionista

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