Ano A – Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo

1ª Leitura: Deut 8, 2-3. 14b-16a;
Salmo: Sl 147, 12-13. 14-15. 19-20;
2ª Leitura: 1 Cor 10, 16-17;
Evangelho: Jo 6, 51-58.

Celebramos hoje a solenidade do Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo. Esta festa nasceu na Bélgica, no séc. XIII, e foi estendida a toda a Igreja, pelo Papa Urbano IV, em 1264, como resposta à heresia de Berengário de Tours que negava a transubstanciação, isto é, negava a “conversão de toda a substância do pão na substância do Corpo de Cristo e de toda a substância do vinho na substância do seu Sangue” que se realiza “na oração eucarística mediante a eficácia da palavra de Cristo e a acção do Espírito Santo” (Compêndio do Catecismo da Igreja Católica, 283), ou seja, negava a que Cristo está verdadeiramente presente na eucaristia sob a aparência de pão e vinho. Assim sendo, a festa de hoje é um convite a reflectirmos sobre a realidade da Eucaristia e sobre o lugar que ela ocupa na vida da Igreja. As leituras deste dia ajudam-nos a reflectir sobre a realidade e o significado da Eucaristia.

A primeira leitura desta festa é retirada do livro do Deuteronómio. Este texto surge numa época complicada na vida dos israelitas. Na verdade, eles estavam perto da destruição total e não tinham nenhuma esperança de que se pudesse evitar um desastre nacional. É neste contexto, que o autor sagrado convida os israelitas a lembrarem-se e a não se esquecerem. Mas a lembrarem-se e não se esquecerem de que coisa? O autor sagrado convida os israelitas a recordarem-se dos grandes prodígios que Deus operou em favor do seu povo no passado. Na verdade, esta não é a primeira vez que os israelitas estão em dificuldades. Durante a sua travessia pelo deserto o povo de Israel também teve de enfrentar sérias e graves dificuldades: fome, sede, serpentes venenosas, entre outras. Confiando só nas suas forças e recursos o povo de Israel não conseguiria sobreviver a estas dificuldades. No entanto, o povo de Israel conseguiu-as ultrapassar e isto só foi possível porque Deus caminhava com o seu povo e resolvia até as situações mais desesperadas: fez nascer água da rocha dura e deu ao seu povo a comer o maná. Assim sendo, o autor sagrado convida o povo a fazer memória das grandes obras de Deus em favor do seu povo.

O evangelho deste dia é a última parte do discurso do pão da vida na sinagoga de Cafarnaum no dia seguinte à multiplicação dos pães. Os estudiosos da Sagrada Escritura afirmam que este texto é uma reflexão, à luz da eucaristia, da primeira parte do discurso ou uma deslocação de uma série de materiais que antes estavam no relato da última ceia e que depois foram transferidos para o contexto do discurso sobre o pão da vida uma vez que João preferiu dar relevo ao lava-pés na última ceia. Assim sendo, o texto do evangelho deste dia só pode ser compreendido à luz da eucaristia e ilumina a eucaristia.

Depois de se ter apresentado como o pão vivo descido do céu, afirmação que os judeus com alguma dificuldade poderiam aceitar no sentido em que Jesus se apresentava como um mestre de sabedoria, Jesus afirma que só quem comer a sua carne e beber o seu sangue é que terá a vida eterna. Os judeus não podem compreender tais palavras. Só os discípulos de Jesus é que as podem compreender numa perspectiva eucarística.

A carne de Jesus, ou seja, o seu corpo, a sua realidade física foi o lugar onde Jesus mostrou o seu amor e doação por todos os homens e o sangue de Jesus é uma referência à sua morte na Cruz. Assim sendo, podemos ver que o comer a carne e beber o sangue de Jesus está intimamente relacionado com o mistério pascal. Além disto não nos podemos esquecer que Jesus institui a eucaristia na véspera da sua paixão e morte e como chave de leitura de todo o mistério pascal: “Isto é o meu corpo, que vai ser entregue por vós; fazei isto em minha memória…. Este cálice é a nova Aliança no meu sangue, que vai ser derramado por vós” (Lc 22, 19-20).

O que vimos até este momento da liturgia da palavra deste dia ajuda-nos a compreender a fé da Igreja que afirma que a eucaristia é o memorial da morte e ressurreição de Cristo (Constituição Sacrosanctum Concilium do Vaticano II sobre a Sagrada Liturgia, 47), ou seja, “sempre que no altar e celebrado o sacrifício da Cruz, em que foi imolado Cristo, nossa Páscoa, realiza-se a obra da redenção” (Constituição Lumen Gentium do Vaticano II sobre a Igreja, 3). A eucaristia é o memorial da paixão, morte e ressurreição de Cristo, ou seja, a eucaristia é celebrada em memória do mistério pascal de Cristo. No entanto, o memorial é muito mais que uma simples evocação do que aconteceu no passado. A celebração da eucaristia, em memória e segundo o mandato de Jesus, torna presente, de uma forma sacramental, o mistério pascal de Cristo. A eucaristia é um memorial na medida em que torna presente de uma forma sacramental o dom que Jesus fez de si mesmo, de uma vez por todas, na sua paixão, morte e ressurreição. Pela eucaristia realiza-se aqui e agora o que ela narra. A eucaristia torna presente e actualiza para nós o sacrifício da Cruz, tornando-os contemporâneos da cruz. A eucaristia enquanto memorial da Páscoa de Cristo renova os cristãos na participação do mistério pascal de Jesus. No entanto, o evangelho deste dia também afirma que: “Quem come a minha carne e bebe o meu sangue permanece em Mim e eu nele”. Assim sendo, fica claro que a comunhão do corpo e sangue de Cristo tem como efeito a intimidade a e a comunhão de vida com Jesus. Neste sentido, a fé da igreja afirma que a eucaristia é “o banquete pascal no qual se recebe Cristo” (Constituição Sacrosanctum Concilium do Vaticano II sobre a Sagrada Liturgia, 47). Tal união com Cristo deve levar-nos a identificarmo-nos com Jesus e a comprometermo-nos com o seu projecto. Assim como quando comemos o pão material ele é assimilado e torna-se parte de nós, assim quando comungamos o corpo e o sangue de Cristo devemos ir-nos identificando com Jesus e com o seu projecto. No entanto, tal transformação não é algo que aconteça de forma mágica. Quando comungamos, somos alimentados e recebemos força para nos irmos conformando com Jesus mas isso não dispensa a nossa fé. Para que tenha os efeitos desejados a eucaristia deve ser celebrada e recebida com fé e com a disposição e o compromisso de nos irmos identificando com Cristo.

No entanto, a eucaristia não é uma realidade que se reduza à nossa relação com Deus. A eucaristia também tem consequências na nossa relação com os irmãos. Ajuda-nos a compreender esta realidade a segunda leitura da primeira epístola do apostolo Paulo aos Coríntios. Paulo escreve a uma comunidade onde existem sérias tensões entre os cristãos. Tais tensões, derivantes de motivos teológicos, não se limitavam a uma divergência de opiniões mas comportavam ofensas e maldições. Ante esta situação, Paulo apela à celebração da eucaristia para tentar resolver os problemas: “ embora sejamos muitos, formamos um só corpo, porque participamos do mesmo pão”. A participação do mesmo pão e do mesmo cálice exige e reforça a comunhão entre os irmãos. Do único pão partido pelos irmãos nasce a exigência da unidade da comunidade mesmo na diversidade de opiniões. Na verdade, segundo a mentalidade judaica, a partilha dos alimentos numa refeição em torno à mesma mesa exige a comunhão e a familiaridade. Assim sendo, aqueles que participam na eucaristia devem esforçar-se por viver na comunhão e devem eliminar tudo o que são discórdias, conflitos e indiferenças entre os irmãos. É nesta linha que a fé da Igreja afirma que “ao participar realmente do corpo do Senhor, na fracção do pão eucarístico, somos elevados à comunhão com Ele e entre nós. «Porque há um só pão, nós, que somos muitos, formamos um só corpo, visto participarmos todos do único pão» … E assim como todos os membros do corpo humano, apesar de serem muitos, formam no entanto um só corpo, assim também os fiéis em Cristo” (Constituição Lumen Gentium do Vaticano II sobre a Igreja, 7).

Que a celebração deste dia nos ajude a viver e a compreender melhor o grande mistério da eucaristia: memorial da Páscoa de Cristo, comunhão com Cristo e comunhão com os irmãos.

P. Nuno Ventura Martins

missionário passionista

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