Ano A – Solenidade do Natal do Senhor – Missa da noite

1ª Leitura: Is 9, 1-6;
Salmo: Sl 95, 1-2ª. 2b-3. 11-12. 13;
2ª Leitura: Tito 2, 11-14;
Evangelho: Lc 2, 1-14.

“Manifestou-se a graça de Deus, fonte de salvação para todos os homens.” Nesta frase que o apóstolo Paulo escreve a Tito pode-se resumir todo o mistério desta santa noite de Natal. Na verdade, nada mais recordamos, experimentamos e celebramos nesta noite do que a revelação de todo o amor e ternura de Deus para com todos os homens. E tal amor é fonte de vida plena para todos os homens.

Deixemos que a primeira leitura desta celebração e a página evangélica do nascimento de Jesus segundo S. Lucas ilumine e explique melhor a densa fórmula teológica transmitida por Paulo.

A revelação e a manifestação do amor de Deus não acontece fora da história. Deus manifesta-se na vida e na história concreta dos homens. Não era mais fácil e simples a situação histórica em que Isaías proclama o oráculo que ouvíamos na primeira leitura do que os nossos tempos. O povo vive nas trevas do desespero, da opressão e da frustração. As alianças políticas e as confianças humanas falharam. Apesar da aliança política com outros países, Judá é devastada e Jerusalém é cercada pela Assíria. Israel está submetido ao domínio assírio.

É neste contexto que o profeta anuncia a este povo que anda nas trevas uma luz, um menino da descendência de David. É ele e só ele que pode devolver a alegria e a esperança a todo o povo. Este texto de Isaías alimentou a esperança messiânica do povo de Deus. Deus há-de intervir na nossa história marcada pelas trevas.

E Deus interveio precisamente na nossa história como demonstra o evangelho de hoje. Lucas preocupa-se por situar cronológica e espacialmente o acontecimento do nascimento de Jesus. Na verdade, Jesus não é um mito, não é uma história inventada.

Assim sendo, Lucas diz-nos que o tempo do nascimento de Jesus é o tempo do recenseamento de toda a terra e que o lugar onde Maria dá a luz o seu filho primogénito é a cidade de Belém.

Ao colocar Jesus a nascer na época de um recenseamento, o evangelista Lucas transmite que Jesus se insere na história do mundo e se torna mais um cidadão desta nossa terra. Ao situar o nascimento de Jesus em Belém e ao indicar que José era da família de David Lucas pretende indicar que Jesus é o Messias, o Salvador prometido por Deus.

Na verdade, em Jesus cumprem-se as profecias do Antigo Testamento. Em Jesus cumpre-se a promessa que escutávamos na primeira leitura desta celebração: “O povo que andava nas trevas viu uma grande luz … porque um menino nasceu para nós, um filho nos foi dado.”

É neste menino que nasceu para nós que podemos contemplar toda a ternura, todo o amor de Deus por todos os homens. O nascimento de Jesus, revela-nos o amor de Deus, o amor de um Deus que não desiste de nós mas que vem ao nosso encontro. Como diz, Santo Agostinho “Jesus fez-se homem para que o homem se tornasse Deus”.

O nascimento de Jesus mostra até que ponto vai o amor de Deus pelos homens: “Cristo Jesus que era de condição divina não se valeu da sua igualdade com Deus, mas aniquilou-se a si próprio. Assumindo a condição de servo tornou-se semelhante aos homens. Aparecendo como homem, humilhou-se ainda mais obedecendo até à morte e morte de Cruz” (Filip 2). O amor de Deus é um amor que se faz humilde, é um amor que vai à procura do homem.

O relato do nascimento de Jesus, segundo o evangelista Lucas, descreve bem esta humildade de Deus. O Filho de Deus não nasce num palácio com todas as honras reais. Jesus nasce na pobreza e na simplicidade de um estábulo. Deus não se impõe pela força e pela violência. Deus manifesta-se na pobreza, na simplicidade, na fragilidade. É assim que em Jesus, o Filho de Deus encarnado, se manifesta a graça de Deus.

E esta graça, este amor de Deus que se manifesta não é só para alguns mas para todos os homens. Não há nenhuma classe de homens que esteja excluída do amor e da salvação de Deus. O amor de Deus que se manifesta no mistério da encarnação do Filho de Deus é fonte de salvação para todos, repito, para TODOS os homens. Ninguém se sinta excluído deste amor. Na verdade, como nos relata o evangelho de hoje, nem os pastores os foram. No nosso imaginário popular, os pastores a quem os anjos anunciam o nascimento de Jesus, são pessoas simples e pacíficas. No entanto, tal imagem está nas antípodas da realidade. Os pastores eram considerados, pela teologia judaica, os homens mais impuros. Os pastores eram rudes, violentos, marginais que invadiam propriedades alheias e que utilizavam em benefício próprio a lã, o leite e as crias do rebanho.

É precisamente a estes pecadores públicos que o anjo anuncia a boa-nova do nascimento de Jesus. É exactamente para estes homens mais afastados de Deus que Jesus nasce. Ninguém se sinta excluído do amor de Deus. Na verdade, será sempre ao lado dos excluídos da salvação que Jesus, na sua vida pública, se colocará. Deus faz-se homem, percorre os nossos caminhos para nos levar de volta para Deus, para que nós nos tornemos “deuses”.

Todos nós que nos reunimos hoje diante desta cena tão humana e tão divina do nascimento de Jesus somos uns afortunados. Na verdade, é aqui que nos descobrimos amados, queridos, acolhidos…. Ninguém é indiferente ao amor de uma pessoa! Certamente que cada um de nós, se pensar e reflectir com seriedade na verdade do Natal (um Deus que se faz homem para que o homem se torne Deus) não fica indiferente a tanto amor e ternura. Quem se descobre amado e querido, apesar da sua fragilidade, vê uma nova luz surgir nas trevas e faz festa.

O tempo de Natal é por excelência o tempo das festas. No entanto, desconfio que muitas vezes a celebração de Natal é mais teatro do que festa alegre e feliz. O nosso natal muitas vezes limita-se a simples teatro porque simplesmente nos esquecemos do motivo pelo qual estamos a fazer festa. E quando não sabemos o motivo pelo qual fazemos festa é fácil sermos manipulados por tantos interesses que estão tão longe da verdade do natal.

Parece-me que, cada vez mais, quem celebra o natal não se esquecendo do essencial, a manifestação do amor de Deus por todos os homens no recém-nascido do presépio, está chamado a ser um anjo. Não um anjo qualquer mas um daqueles anjos de que nos fala o evangelho deste dia. Estamos chamados a anunciar no meio do consumismo natalício aquilo que está antes dele: o nascimento de Jesus. Será que ainda nos lembramos da verdadeira história de natal? Será que temos coragem de a contar ainda hoje? São muitos os pastores que andam a pastar rebanhos nesta nossa sociedade e que necessitam de ouvir a boa-noticia do Natal de Jesus.

No entanto, a nossa vocação de “anjos” neste natal, onde há tantos e tantas que vivem nas trevas da crise, seja ela de valores materiais ou humanos e divinos, tem de ser vivida com gestos de amor, ternura, partilha e de defesa da vida e da família. Se ainda nos recordamos da história do natal, do nascimento de Jesus que sendo rico se fez pobre para nos enriquecer, narremo-la ao mundo. Contemos aos mais novos e aos mais esquecidos que se hoje fazemos festa é porque Deus, por amor, se fez um de nós. Manifestemos aos mais pobres e abandonados toda a ternura do Deus menino com a nossa solidariedade, compaixão e ajuda afectiva e efectiva.

O anjo é o enviado de Deus. Também nós, no final de cada eucaristia, onde o milagre do natal se renova, somo enviados. Anunciemos, manifestemos a todos a bondade, a graça de Deus que se revela no natal. Santo Natal!

P. Nuno Ventura Martins

missionário passionista

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