Ano A – Solenidade do Natal do Senhor – Missa do dia

1ª Leitura: Is 52, 7-10;
Salmo: Sl 97, 1. 2-3ab. 3cd-4. 5-6
2ª Leitura: Hebr 1, 1-6;
Evangelho: Jo 1, 1-18 ou Jo 1, 1-5. 9-14.


“O verbo montou a sua tendo no meio de nós!”

Celebramos hoje o Natal do Senhor. Uma festa que o cristianismo soube oferecer ao mundo e que o mundo, com a sua mensagem e com os seu ritos, adoptou e a vai tornando sua. Assim sendo, quando falamos em Natal vem-nos logo a mente a festa das crianças, a festa da família, a festa da fraternidade, a festa da alegria, … Recordamo-nos da ceia de Natal com uma mesa toda apetrechada de iguarias, a troca de prendas, os cantos de Natal e os serões passados em família em torno à lareira.

O Natal é isto mas é muito, extremamente muito mais. Na verdade, se o Natal se reduzisse a isto seria extremamente pobre.

Como na ceia da Páscoa hebraica os meninos perguntavam aos seus pais o porque de todos aqueles rituais também nós nos devemos perguntar o porque desta festa. Qual é a razão de ser desta festa que cativou e se difundiu em todo o mundo?

O nome da festa já nos oferece a resposta. Todos dizemos que celebramos o Natal. Mas dizer isto, dizer que celebramos o nascimento, é insuficiente. Temos de dizer de quem é o nascimento que celebramos. É por isso que a festa que hoje celebramos é o Natal de Jesus. Celebramos o nascimento de Jesus, o filho de Deus. Celebramos o grande mistério de um Deus que por amor se faz homem para que o homem se possa tornar Deus (Santo Agostinho).

Todas as evocações que o Natal nos porta (família, fraternidade, alegria, paz…) só encontram a sua plena realização à luz de Jesus.

Na verdade, a história do Natal do Senhor não nos pode deixar indiferentes. O Natal interpela-nos. Olhemos de novo para bem conhecida e ignorada cena do presépio e colhamos a lição que na sua eloquência silenciosa o Verbo de Deus nos oferece.

Maria, José e o Menino estão no centro. Como os pastores, por um coro de anjos, e os magos, por uma estrela, também nós nos encaminhemos, com todos as nossas alegrias e tristezas, esperanças e desilusões, até o presépio. Contemplemos o presépio e deixemo-nos tocar pela beleza de um Deus que se faz menino no seio de uma família humana.

Deixemos que o prólogo do Evangelho de São João, proclamado na Missa do Dia desta celebração nos ilumine os mistérios que celebramos.

Este texto evangélico recorda-nos em poucas linhas a história do Homem. “No princípio era o Verbo … e o Verbo era Deus…tudo se fez por meio dele”. Tudo começa no princípio. Clara referência à primeira página do livro do Génesis em que se narra a criação do mundo. Fala-se de criação para indicar que no Natal do Senhor há uma nova criação.

Na verdade, a criação rejeitou o seu criador. “A luz brilha nas trevas e as trevas não a receberam”. Mas o Criador não rejeitou a sua criação. Sempre guiou os passos do seu povo, sempre enviou mensageiros que alertassem e consolassem o seu povo. Na verdade, como nos diz o autor da epístola aos hebreus “Muitas vezes e de muitos modos falou Deus antigamente aos nossos pais, pelos Profetas. Nestes dias, que são os últimos, falou-nos por seu Filho”

O homem criado para ser feliz com Deus e em Deus rejeitou Deus e seguiu caminhos que o conduziram à infelicidade. Mas Deus nunca abandona a sua criatura. Deus inicia um movimento em nossa direcção que culmina na encarnação do Verbo, no nascimento de Jesus. “O Verbo era a luz verdadeira, que, vindo ao mundo, ilumina todo o homem”. Jesus nasceu para nos iluminar, para nos dar a salvação, para nos dar a qualidade de Vida, para nos fazer Filhos de Deus.

No entanto, também aqui, como na narrativa do livro do Génesis, nós somos chamados a uma opção. Na verdade, o Deus que vem ao nosso encontro no presépio de Belém é demasiado frágil para se impor pela força e pela violência. Por isso, podemos recebe-lo na nossa vida ou não. “Veio para o que era seu e os seus não O receberam. Mas, àqueles que O receberam e acreditaram no seu nome, deu-lhes o poder de se tornarem filhos de Deus.” Aqueles que recebem Jesus, aqueles que deixam que haja Natal no seu coração e na sua vida encontram a salvação e a felicidade. “Jesus fez-se homem para que o homem se tornasse Deus” (Sto Agostinho).

E neste projecto o homem jamais está sozinho porque “O Verbo montou a sua tendo no meio de nós!” Ao longo da peregrinação do Povo de Deus em direcção à terra prometida a tenda do encontro era o local onde Deus habitava com o seu povo. Com a encarnação, é Jesus o local onde Deus habita no meio do seu povo, dos homens que peregrinam em direcção à pátria definitiva. É Jesus que oferece a vida em plenitude aos homens.

É Jesus, este menino que nasceu, que nos revela quem é o Deus cristão. Jesus é o exegeta de Deus. “A Deus, nunca ninguém O viu. O Filho Unigénito, que está no seio do Pai, é que O deu a conhecer”. O Deus cristão não é um Deus longínquo e impassível. O Deus Cristão é o Deus que se preocupa com o Seu povo e que vem ao seu encontro. Celebrar o Natal do Senhor é celebrar Deus que amando-nos vem ao encontro do Homem para o salvar.

A celebração do nascimento de Jesus não é um simples aniversário. A celebração do Natal do Senhor é um memorial. A celebração do nascimento de Jesus não é uma bela recordação, não é olhar para uma fotografia de um acontecimento passado. “O Natal do Senhor não nos aparece como uma recordação do passado, mas vivemo-lo no presente” (S. Leão Magno). Como a Páscoa da Ressurreição, a celebração do Natal é um memorial. Com a celebração do nascimento de Jesus, somos chamados a reviver no tempo presente, nas nossas situações de vida concreta, o nascimento de Jesus, o Deus connosco que veio para nos salvar.

Celebrar o Natal do Senhor é deixar que haja Natal na minha vida e no mundo. Não nos podemos limitar a uma pia e poética recordação do Nascimento de Jesus há 2000 anos. Devemos construir o Natal. Cristo deve nascer dentro de mim, apresentar-se ao mundo com o meu rosto, com as minhas mãos, com a minha vontade e empenho de transformar o mundo numa comunidade de presépio onde os valores da vida humana, da família, da paz e da solidariedade sejam realidade.

Votos de um Santo Natal!

P. Nuno Ventura Martins

missionário passionista

Share on facebook
Facebook
Share on twitter
Twitter
Share on whatsapp
WhatsApp
Share on print
Print
Share on email
Email

Leave a Comment