Ano A – V Domingo de Páscoa

1ª Leitura: Act 6, 1-7;
Salmo: Sl 33, 1-2. 4-5. 18-19;
2ª Leitura: 1 Pe 2, 4-9;
Evangelho: Jo 14, 1-12.

 

A liturgia da Palavra do V Domingo de Páscoa é esclarecedora para a vida e missão da igreja. Na verdade, todas as três leituras deste dia oferecem-nos elementos para reflectirmos sobre a arquitectura da Igreja. Qual o seu fundamento? Qual a sua meta? Que caminho deve percorrer? São estas algumas das questões que as três leituras destes dias nos respondem.

Quando falamos de Igreja, vem logo à nossa mente os templos físicos onde os cristãos se reúnem, ou seja, as igrejas com “i” pequeno. No entanto, quando falamos aqui de Igreja referimo-nos à Igreja com “I” grande, ou seja, ao “povo que Deus convoca e reúne de todos os confins da terra, para constituir a assembleia daqueles que, pela fé e pelo Baptismo, se tornam filhos de Deus, membros de Cristo e templo do Espírito Santo.” (Compêndio do Catecismo da Igreja Católica, 147).

No entanto, o edifício físico da igreja pode-nos ajudar a compreender melhor a realidade da Igreja. Na verdade, o apóstolo Pedro, na segunda leitura deste domingo, usa a imagem da pedra angular e das outras pedras que se utilizam na construção de um edifício para se referir ao fundamento da Igreja e do lugar dos crentes na construção da Igreja.

Para Pedro, a pedra angular da construção é Cristo. É Cristo o fundamento da Igreja. É sobre Cristo que se deve construir a vida dos crentes. No entanto, Pedro ao afirmar que Cristo é a pedra angular está a afirmar que é Ele o messias. Na verdade, em Is 18, 16 encontramos uma profecia em que Deus promete pôr em Sião uma pedra angular e que aquele que puser nele a sua promessa não será abalado. Esta pedra angular será interpretada pelo judaísmo tardio como uma imagem do Messias.

No entanto, esta pedra angular foi “rejeitada pelos homens” e é “pedra de tropeço e de escândalo”. Na verdade, Cristo foi condenado à morte e crucificado e isso não deixa de ser escandaloso para a mentalidade judaica onde é maldito aquele que pende do madeiro (cf. Dt 21, 23).

No entanto, os cristãos são convidados a aproximarem-se de Cristo crucificado e ressuscitado, qual pedra angular, e a entrarem na construção deste templo espiritual. Os cristãos devem ser pedras vivas edificadas sobre a pedra angular que é Cristo e, devido ao seu sacerdócio comum que deriva do baptismo, devem oferecer sacrifícios espirituais.

Os cristãos são uma parte integrante na Igreja. Eles são chamados a ser pedras vivas edificadas sobre o fundamento que é Cristo. A presença de todos é importante na Igreja. São os cristãos que edificam, sobre a pedra angular que é Cristo, com a sua vida uma Igreja mais bela do que qualquer templo artístico. A missão de todo o Povo de Deus, missão que recebe pelo seu baptismo, é a de oferecer sacrifícios espirituais agradáveis a Deus, ou seja, de desempenharem o seu sacerdócio comum “na celebração dos sacramentos, na oração, na acção de Graças, no testemunho de uma vida Santa, pela abnegação e por uma caridade actuante” (Lumen Gentium, 10), ou seja, vivendo naquela santidade que se sabe oferecer a Deus e aos irmãos. Os fiéis devem ser testemunhas de Cristo ressuscitado no meio deste mundo sempre prontas a dar razão da sua fé e da sua esperança.

No entanto, podemos perguntar-nos qual é a meta para onde converge toda esta construção, qual é a abóbada onde desembocam estas paredes que se levantam? Fundada sobre Cristo, a Igreja sobe até Cristo e ao Pai. “A Igreja é sacramento ou sinal e instrumento da íntima união com Deus e da unidade de todo o género humano” (Lumem gentium, 1).

Ajuda-nos a perceber esta realidade o evangelho deste domingo. O texto que escutamos de São João insere-se no discurso de despedida de Jesus na última ceia. Estamos na ceia de despedida e Jesus oferece aos seus discípulos o seu testamento, dá-lhes as suas últimas recomendações.

Jesus diz aos seus discípulos que vai para a casa do Pai para nos preparar um lugar. Na verdade, João apresenta o mundo celeste como um grande palácio ou um grande templo com muitos aposentos (cf. 1 Re 22, 25; Jr 35-36). Assim como Jesus se dirige para a casa do Pai, sinal da comunhão com Deus, também todo o discípulo de Jesus deve encaminhar-se até lá.

No entanto, também nós, como Tomé, podemos interrogar Jesus: “Senhor, não sabemos para onde vais: como podemos conhecer o caminho?” E também a nós responde Jesus como respondeu a Tomé: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida. Ninguém vai ao Pai senão por Mim”.

Jesus é o caminho que nos leva até ao Pai através da verdade da sua revelação, do seu evangelho. Só Jesus é que nos permite chegar à vida plena, à vida divina que Jesus comparte com Deus.

Jesus é o caminho. Todos nós, discípulos de Jesus, devemos seguir o seu caminho e o seu caminho foi um caminho de doação total de si a Deus e aos irmãos. Os discípulos de Jesus para chegarem à comunhão com Deus devem seguir o mesmo caminho de Jesus: o caminho do mistério pascal.

Exemplo concreto de como a Igreja vive este caminho de Jesus é a primeira leitura deste domingo retirada do livro dos Actos dos Apóstolos. A leitura deste texto oferece-nos algumas das características da Igreja.

Em primeiro lugar, podemos afirmar que a Igreja é uma comunidade onde existem tensões e problemas. Na verdade, a queixa dos helenistas de que as suas viúvas eram descriminadas mostra a existência de algumas tensões entre o grupo dos hebreus (cristãos de origem judaica, originários da palestina) e o grupo dos helenistas (cristãos de origem judaica, originários da diáspora). Esta situação demonstra que a Igreja não é uma comunidade de homens perfeitos mas uma comunidade de homens que está a caminho da perfeição.

A segunda característica da Igreja que este texto nos dá é que ela é possui uma estrutura hierárquica. Na verdade, é ao grupo dos doze que se recorre para se resolver o problema. No entanto, está estrutura não exerce o seu poder de uma forma totalitária. O grupo dos 12 envolve a comunidade na procura de soluções para os problemas.

A terceira característica da Igreja que este texto põe em realce é o facto de ela ser uma comunidade de serviço. Estes sete homens que foram escolhidos para o serviço das mesas também aparecem no livro do Actos ao serviço da Palavra. A comunidade cristã deve ser uma comunidade de serviço, deve estar ao serviço da palavra de Deus e ao serviço daqueles que mais necessitam. A fé não se separa da caridade mas exige-a.

A quarta característica da Igreja que este texto mete em realce é o facto da Igreja ser uma comunidade onde o Espírito está presente. Na verdade, é o Espírito que cria, anima e dinamiza a Igreja. O Espírito aparece em relação à vocação é à missão.

E é vivendo desta maneira que, como podemos testemunhar pelo sumário final desta leitura, que a Igreja vai crescendo e que a Palavra de Deus se vai divulgando.

A liturgia da Palavra deste domingo deve-nos levar a um sério exame de consciência sobre a forma como estamos a viver a nossa vida de Igreja. Será verdadeiramente Cristo o fundamento sobre o qual construo a minha vida? Tenho consciência de ser uma pedra viva na Igreja e actuo como tal? Cristo é para mim o Caminho, a Verdade e a Vida? A minha vida na Igreja é marcada pelo serviço à palavra de Deus e à caridade?

Que Nossa Senhora, Mãe da Igreja, nos ensine a viver em Igreja e como Igreja.

P. Nuno Ventura Martins

missionário passionista

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