Ano A – VI Domingo do Tempo Comum

1ª Leitura: Sir 15, 16-21 (15-20)
Salmo: Sl 118, 1-2. 4-5. 17-18. 33-34
2ª Leitura: 1 Cor 2, 6-10
Evangelho: Mt 5, 17-37.

De uma moral casuística a uma moral de atitudes!

A liturgia da palavra deste domingo convida-nos a reflectir sobre a moral cristã. Não é um tema que esteja na moda. Quando falamos de moral cristã as primeiras palavras que nos vem à cabeça são: proibição, retrógrada, pesada, desadequada, … A nossa atitude ante a moral cristã pode ser bem descrita pela seguinte frase: “tudo o que é bom ou é pecado ou faz mal à saúde!” No entanto, a liturgia da palavra deste domingo dissipa as nossas dúvidas e mostra que a moral cristã é um caminho de felicidade e mais que um conjunto de proibições é uma atitude de Vida, na Vida e para a Vida!

A primeira leitura, retirada do livro de Ben-Sirá, começa por dizer que o homem é livre nas suas escolhas. Deus nada impõe mas sempre propõe um caminho de vida e de felicidade que o homem pode aceitar ou recusar.

O livro de Ben-Sirá foi escrito no séc II a.c e é um livro sapiencial, ou seja, um livro onde se apresenta alguns conselhos sobre a arte de bem viver e de ser feliz. Na altura em que este livro foi escrito, a cultura helénica fascinava os judeus e muitos deles tinham-se esquecido da sua fé e da lei de Deus e seguiam os caminhos propostos pela cultura helénica para alcançar a felicidade.

É neste contexto, que o autor sagrado, no capítulo XIV e XV, faz uma reflexão sobre a forma de alcançar a felicidade. Ben-Sirá dirige-se aos seus concidadãos e indica-lhes qual é o verdadeiro caminho de felicidade que devem seguir. Tal caminho não é o caminho da cultura grega mas é o caminho que Deus apresenta ao homem na sua lei.

A lei foi dada por Deus para que o homem seja feliz. São felizes aqueles que seguem a lei do Senhor, como nos diz o salmo deste domingo. Mas seguir ou não seguir a lei do senhor depende da nossa liberdade. Deus porque nos ama respeita a nossa liberdade. O amor exige a liberdade. Não somos marionetas nas mãos de Deus. Deus criou-nos e quer-nos felizes e por isso apresenta-nos e oferece-nos um caminho de vida e de felicidade ao qual nós podemos aderir ou rejeitar mediante a nossa liberdade. O autor da primeira leitura deste domingo sabe bem isto mas também sabe que quando o povo não segue os caminhos que Deus lhe propõe e segue outros caminhos acaba na infelicidade. Exemplo paradigmático desta situação foi o exílio da Babilónia. Assim sendo, a livro de Bén-Sira convidava os seus contemporâneos e convida-nos também a nós hoje a seguirmos o caminho proposto por Deus, o caminho da vida e da felicidade, o caminho que Deus nos indica na sua lei.

No entanto, o que é a lei de Deus? Será que os cristãos tem necessidade da lei? Não aboliu Jesus a Lei Antiga? Os ensinamentos de Jesus eram tão novos e radicais que dava a impressão de Jesus prescindir da lei. Basta pensar na sua atitude frente a divisão dos alimentos entre puros e impuros e sobre as abluções. Que pensava Jesus da Lei? Questões como estas pairavam na comunidade de Mateus e é a estas questões que o Evangelho de hoje nos responde.

O evangelho deste domingo divide-se em duas partes. Na primeira parte (Mt 5, 17-19), Jesus começa por dizer: “Não penseis que vim revogar a lei ou os profetas; não vim revogar mas completar”. A afirmação de Jesus é quase como uma resposta àqueles que pensam que os cristãos não têm necessidade da lei que Ele não veio para abolir mas para completar. Assim sendo, a lei é necessária. Mas qual é o justo relacionamento do homem com a lei? Como é que a lei se pode cumprir?

Diante da lei normalmente há duas posturas diferentes e distantes: o aferrar-se à materialidade total de quanto a lei parece estabelecer ou a omissão e quase o desprezo da mesma. Já vimos que Jesus não concorda com a omissão e o desprezo da lei e nos convida a cumprir a lei. “Aquele que praticar e ensinar os preceitos da lei será grande no Reino dos céus”. No entanto, Jesus também não concorda com um fundamentalismo legal, com uma casuística excessiva. Na verdade, é o próprio Jesus que afirma: “Se a vossa justiça não ultrapassar a dos fariseus e a dos escribas não entrareis no reino dos céus!” A justiça dos fariseus e dos escribas era pouca ou nenhuma. Na verdade, muitas vezes eles não cumpriam o que ensinavam e invalidavam a lei com a sua casuística fixando-se na letra sem penetrar no espírito.

É neste contexto que é introduzida a segunda parte do evangelho deste domingo (Mt 5, 21-37) onde Jesus mostra que a moral crista não é uma moral casuística mas uma moral de atitudes, melhor dizendo, uma moral que nasce da adesão total do homem a Deus. Assim sendo, a lei não é um conjunto de prescrições legais externas, que obrigam o homem de uma forma rígida mas uma expressão concreta da adesão total a Deus que implica o homem e exige-lhe uma forma concreta de estar no mundo e de se relacionar com os outros mas que não se reduz a esta ou aquela acção concreta.

É por isto que Jesus por quatro vezes partindo de leis do Antigo Testamento apresenta uma série de antíteses: “Foi dito aos antigos… Eu porém vos digo…”. Jesus apresenta-se aqui com uma autoridade soberana que está acima da legislação antiga. Ele é maior do que Moisés. Jesus vem dar uma interpretação autêntica da lei.

A primeira antítese relaciona-se com o 5º mandamento: Não matarás. Não matar não se reduz ao facto de terminar fisicamente com a vida de uma pessoa. Não matar é respeitar a vida do outro. Não matar é respeito e cuidado pelo outro. Por isso eu não o posso chamar de imbecil ou de louco, ou seja, não posso negar que o outro tem capacidade de compreender. Não matar implica que eu na minha relação com os outros não actue com desprezo, rancor e inveja. Não matar implica que eu não actue como se o meu irmão estivesse morto para mim. Não matar é acabar com as discussões e divisões. É por isso que Jesus insere nesta antítese a necessidade de estarmos reconciliados uns com os outros para podermos oferecer-lhe um culto agradável.

A segunda antítese prende-se com a proibição do decálogo de cometer adultério. O adultério, a infidelidade, não se reduz ao facto material de uma pessoa trair a outra. Não cometer adultério é um esforço de fidelidade e de respeito pelo outro. Não cometer adultério é eu amar mais o outro que os meus próprios desejos mesquinhos e egoístas. Na cultura semita os olhos são o órgão da entrada dos desejos, as mãos o órgão de acção pela qual se cometem os desejos e o coração o lugar onde nascem os desejos. É por isso, que o nosso texto usa a frase hiperbólica, tão ao gosto dos orientais, mas que não pode ser tomada à letra: “se o teu olho e para ti ocasião de pecado arranca-o e lança-o para longe de ti …. Se a tua mão direita é para ti ocasião de pecado arranca-a e lança-a para longe de ti.” Estas afirmações de Jesus querem dizer que é preciso actuar onde as acções más do homem têm origem. É preciso ir à raiz do problema. A fidelidade não é um acto é uma atitude!

A terceira antítese prende-se com o divórcio. Moisés tinha permitido que os homens passassem um certificado de repudio as suas esposas. No entanto, esta situação foi tão banalizada que muitas vezes bastava o desejo do marido para haver o divórcio. Ante esta situação Jesus diz que o divórcio não faz parte do projecto de Deus manifestado na criação. Deus quando criou o homem e a mulher chamou-os a amarem-se a partilharem a sua vida. É a defesa da família, como comunidade de amor e de vida.

A quarta e última antítese relaciona-se com o costume de jurar. Na verdade a lei de Moisés só exigia que se cumprissem as promessas que se fizessem sob juramento. Jesus afirma que não devemos jurar. Na verdade, o facto de jurar manifesta uma desconfiança. Ao dizer para não jurar e que a nossa resposta seja “Sim, sim; não, não” Jesus diz que aqueles que vivem na dinâmica do reino devem viver em sinceridade e confiança. A mentira e a traição não podem encontrar lugar na nossa vida.

A nossa vida de cristão não se pode limitar a não fazer certas coisas, não se reduz a uma moral casuística. A nossa vida de cristão é uma moral de atitudes, uma atitude de entrega e fidelidade a Deus que se traduz na defesa da vida, da fidelidade, da família e da sinceridade. O pecado não se reduz à prática de uma acção. Pecado é não ter vivido coerentemente com a minha opção fundamental por Deus que se traduz em atitudes de vida, de fidelidade, de família e de sinceridade. Para quem está na dinâmica do Reino não basta uma moral casuística. É preciso uma atitude interior que envolva o homem e lhe transforme o coração.

P. Nuno Ventura Martins

missionário passionista

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