Ano A – XIV Domingo do Tempo Comum

1ª Leitura: Zac 9, 9-10;
Salmo: Sl 144, 1-2. 8-9. 10-11. 13cd-14;
2ª Leitura: Rom 8, 9. 11-13;
Evangelho: Mt 11, 25-30.

 

O Evangelho deste domingo oferece-nos três sentenças de Jesus que nos recordam algumas verdades fundamentais sobre a nossa relação com Deus.

O texto evangélico deste domingo insere-se no contexto das reacções e atitudes que a proposta de Jesus e o anúncio do Reino provocam nas várias pessoas e grupos sociais. Se os versículos que precedem o texto deste domingo são de crítica aos habitantes de Corozaim, Betsaida e Cafarnaum porque, fechados no seu orgulho e nas suas certezas preconceituosas, recusaram a proposta de salvação de que foram testemunhas, o texto deste domingo começa com uma oração de louvor pelo facto dos pequenos e dos humildes acolherem a mensagem do Reino.

Assim sendo, o evangelho deste domingo começa por nos recordar a importância da oração. Na verdade, esta página evangélica revela-nos alguns traços da espiritualidade de Cristo. Jesus, reza ao Pai, louva o Pai pelo facto de os pequenos e humildes se abrirem à proposta do Reino. Diante de um Jesus em oração devemos parar e reflectir sobre a nossa vida de oração. Quando falamos em oração, a primeira coisa que nos vem à mente é o recitar certas fórmulas que aprendemos na nossa infância. Muitas vezes reduzimos a oração a um papaguear fórmulas sem qualquer incidência prática. O exemplo de Jesus deve levar-nos a fazer um exame de consciência sobre a nossa oração.

O primeiro ponto deste exame de consciência é o da necessidade da oração. Ninguém pode dispensar-se da oração. Ninguém pode dizer que não precisa de rezar. Na verdade, uma relação de amizade que não se alimente com o diálogo franco e íntimo com o passar do tempo vai esmorecendo até desaparecer totalmente. Todos nós temos dessas experiências. Quantas grandes amizades que tínhamos e que terminaram porque deixamos de alimentar essa relação com momentos de diálogo e de encontro. O facto de Jesus, o Filho de Deus, rezar várias vezes e por momentos prolongados impressionou tanto os discípulos que os evangelhos dão-nos a informação de que Jesus várias vezes se retirava sozinho em oração e levou os próprios discípulos a pedirem a Jesus que os ensinasse a rezar. O exemplo de Jesus em oração recorda-nos que todos nós temos a necessidade de rezar, que todos nós temos necessidade de alimentar a nossa relação com Deus.

O segundo ponto que o exemplo de Jesus orante nos interpela prende-se com a forma como fazemos a nossa oração. Na verdade, muitas vezes pensamos que a oração não tem nada a ver com a nossa vida. Vivemos uma espécie de esquizofrenia onde separamos a nossa relação com Deus da nossa vida quotidiana com todas as suas alegrias e tristezas. No entanto, o exemplo de Jesus recorda-nos que a oração provêm da nossa vida concreta com todos os seus sucessos e derrotas, alegrias e tristezas, satisfações e anseios. É o nosso eu real e não o nosso eu ideal que deve rezar. Os momentos de oração devem ser momentos de verdade diante de Deus. A nossa oração deve ser uma leitura daquilo que nós realmente somos à luz da palavra de Deus. Os nossos momentos de oração são muitas vezes momentos de agonia, de luta (cf. oração de Jesus no horto das oliveiras) onde nos vamos conformando com a vontade de Deus e não onde queremos conformar Deus com as nossas vontades mesquinhas e egoístas. Jesus reza ao Pai, Jesus leva à oração o momento que está a viver: a rejeição do anúncio do Reino por parte dos sábios e inteligentes (fariseus e doutores da lei) e a aceitação da sua proposta por parte dos pequeninos (discípulos, pobres, marginalizados). Ante tal situação, Jesus limita-se a dar graças a Deus pela sua vontade.

O facto da oração de Jesus ser uma oração de acção de graças também interpela a forma como rezamos. A minha oração é mais de petição ou de agradecimento? A oração de petição é importante. Na verdade, a oração de petição é um forte e sério momento de verdade. Um momento em que reconhecemos a nossa verdade de seres limitados que necessitamos da ajuda de Deus. No entanto, na nossa oração de petição o nosso primeiro e fundamental pedido deve ser o de cumprir a vontade de Deus. Quantas vezes na nossa oração pedimos a Deus coisas que estão em pleno desacordo com a vontade de Deus e mais do que nos deixarmos conformar com a vontade de Deus queremos conformar Deus às nossas vontades mesquinhas e egoístas. Contudo, a nossa oração também tem de ser uma oração de louvor, uma oração em que, com coração agradecido, eu louvo a Deus pelos inumeráveis benefícios que me concede e pelas maravilhas que opera na minha vida. Se são mais as coisas boas do que as necessidades que eu tenho na minha vida porque razão é que dos meus lábios sai mais depressa um pedido de ajuda do que um obrigado?

As outras duas afirmações de Jesus que escutamos no evangelho deste domingo também se relacionam com o tema da oração. O segunda sentença de Jesus revela-nos que nós só podemos conhecer Deus através de Jesus, só podemos ter uma experiência íntima e profunda de Deus através de Jesus. É por isso que um dos elementos importantes na nossa oração deve ser a escuta da palavra de Deus. Jesus é a Palavra de Deus feita carne, é Ele o verdadeiro revelador, o exegeta de Deus. Se queremos saber quem é Deus, se queremos conhecer a vontade de Deus temos necessidade de escutar, de meditar, de assimilar a Palavra de Deus que se fez carne em Jesus.

A terceira sentença de Jesus revela-nos uma necessidade que é tão urgente como consoladora: “vinde a mim todos vós que andais cansados e oprimidos e eu vos aliviarei. Tomai sobre vós o meu jugo.” Na época de Jesus não só os animais mas também os homens carregavam o jugo como sinal e exercício da escravidão. Era um jugo curvo que era colocado sobre os ombros e que servia para transportar cargas de uma forma equilibrada. No Antigo Testamento, a imagem do jugo é frequente e serve para referir-se a tirania estrangeira mas também à sabedoria e à lei de Deus. Os fariseus no tempo de Jesus consideravam a lei como um jugo glorioso que devia ser levado com alegria. No entanto, da forma como os fariseus apresentavam a lei com os seus 613 mandamentos, transformavam-na num jugo pesadíssimo que criava consciências pesadas e atormentadas porque não conseguindo cumprir os 613 preceitos muitos sentiam-se condenados, afastados de Deus e indignos da salvação. Assim sendo, a lei em vez de aproximar os homens de Deus afastava-os da comunhão com Deus. Jesus veio libertar o homem do jugo da lei. Jesus garante que Deus não exclui ninguém e convida a todos a aceitarem o Reino De Deus.

Num mundo solitário e egoísta que valoriza as conquistas pessoais o convite de Jesus parece estranho. É estranho para nós, educados numa sociedade competitiva que exista alguém que nos ama primeiro, antes de qualquer mérito ou qualidade, e que nos acolhe como somos, com todas as nossas fadigas, cansaços e insucessos. É obvio que este acolhimento não dispensa mas exige e estimula a nossa conversão à mensagem de Jesus. Quem é amado e acolhido por Jesus toma o seu jugo e esforça-se por ser fiel no seu caminho de seguimento de Jesus. O amor de Deus que nos conforta nos nossos cansaços e nos consola quando somos oprimidos não é ópio que mantêm a mesma situação, mas força que nos leva a rejeitar todos os jugos, todas as forças de pecado, de ódio, de egoísmo, de mentira, de violência que nos oprimem e nos leva a tomar o jugo de Jesus. Quando na oração nos encontramos com Jesus somos acolhidos e confortados com Deus mas esse acolhimento e conforto levam-nos a tomar o jugo de Jesus e a segui-lo.

Que ao tomarmos contacto, neste Domingo, com este Jesus que reza e que é manso humilde de coração, revalorizemos os nossos momentos de oração e tomemos o jugo de Jesus, não um jugo de servidão mas de liberdade.

P. Nuno Ventura Martins

missionário passionista

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