Ano A – XX Domingo do Tempo Comum

1ª Leitura: Is 56, 1. 6-7;
Salmo: Sl 66, 2-3. 5. 6 e 8;
2ª Leitura: Rom 11, 13-15. 29-32;
Evangelho: Mt 15, 21-28.

 

Neste XX Domingo do tempo comum a liturgia da Palavra convida-nos a reflectir sobre o tamanho do coração de Deus. Melhor dizendo, convida-nos a meditar, ao apresentar o tema do universalismo da salvação, sobre o tamanho do abraço de Deus a este mundo. A primeira leitura deste dia é retirada do chamado terceiro Isaías. Este texto foi escrito no contexto do pós-exílio. Depois de regressarem do exílio da Babilónia para a sua pátria são várias as dificuldades que se colocam ao povo. Na verdade, a reconstrução do país é uma tarefa difícil e demorada. Além disto, do ponto de vista religiosos também se apresentam várias dificuldades. Na verdade, os planos de Deus parecem incompreensíveis e o cepticismo mina a fé do povo que se reduz a um culto exterior e a práticas idolátricas.
No entanto, o contacto que o Povo de Israel teve com os outros povos levou o povo de Deus a repensar a sua relação com os outros povos. São vários os testemunhos que temos darelação de Israel com os povos estrangeiros nesta época. Alguns textos demonstram uma postura xenófoba. Exemplo desta postura são as políticas de Esdras e Neemias que proíbem e anulam os casamentos entre os israelitas e os pagãos. No entanto, a primeira leitura deste domingo mostra-nos outra postura dos israelitas face aos estrangeiros. O contacto de Israel com outros povos no exílio deu origem a uma certa tolerância. Este texto de Isaías que surgiu nos primeiros tempos depois do exílio defende uma certa universalidade da salvação.
Na verdade, o profeta anuncia que a salvação que Deus vai oferecer não se reduz unicamente a Israel. Também os estrangeiros são destinatários da salvação de Deus. Tal afirmação é uma revolução na mentalidade religiosa de Israel. Com efeito, segundo a tradição deuteronomista, os estrangeiros deviam ser aniquilados e não deviam ser parceiros em alianças políticas, económicas e matrimoniais para não colocarem em perigo a fé de Israel. No entanto, e face a esta mentalidade, o profeta Isaías afirma que também os estrangeiros são destinatários da salvação de Deus. Contudo, para acederem à salvação de Deus os estrangeiros devem guardar o sábado e ser fieis à aliança.
Segundo o profeta Isaías a casa de Deus é uma casa universal, é uma “casa de oração para todos os povos”. No entanto, nem todos aceitam esta atitude universalista de Deus. São muitos aqueles que querem diminuir o tamanho do abraço de Deus. São muitos aqueles que querem atrofiar o coração grande e misericordiosos de Deus. Exemplo concreto desta atitude foi a política que se manteve no Templo de Jerusalém, o lugar por excelência em que Deus habita. Na verdade, ainda no tempo de Jesus o templo era um condomínio fechado para Israel. Na verdade, os estrangeiros quando iam a Israel e queriam ir ao templo tinham de ficar no “pátio dos gentios”, ou seja, na esplanada exterior do templo, e não podiam entrar no chamado átrio dos israelitas.
O evangelho deste domingo também é uma boa catequese que nos ensina o universalismo da salvação. O texto evangélico deste domingo situa-se na secção das respostas dos interlocutores de Jesus à proposta que lhes foi feita. Depois de ter apresentado as parábolas do Reino e de ter atestado a atitude de rejeição dos nazarenos, de Herodes, dos escribas, dos fariseus e dos saduceus, o evangelista Mateus apresenta-nos o episódio desta mulher cananeia que professa a sua fé em Jesus como Senhor e Salvador.
Na verdade, a resposta negativa da comunidade judaica levou Jesus a dirigir-se para a região de Tiro e Sídon. Como o provou a história da Igreja nascente, a recusa da pessoa e mensagem de Jesus por parte de Israel levou o anúncio do evangelho também aos pagãos.
É provável que Mateus escreva o seu evangelho numa época em que na sua comunidade existam dificuldades na integração dos pagãos na Igreja de Jesus. É provável que o texto evangélico de hoje seja uma catequese de Mateus para a sua comunidade sobre a universalidade da salvação. Na verdade, a proposta de salvação de Jesus é para todos e o que é decisivo para a salvação não é a pertença ou não pertença a um povo mas a adesão à pessoa e mensagem de Jesus.
No entanto, o episódio evangélico deste domingo pode deixar-nos algo perplexos. Na verdade, nós não esperaríamos que Jesus tivesse uma atitude de desprezo para com a mulher fenícia. Contudo, segundo alguns estudiosos, esta atitude de Jesus é uma estratégia pedagógica que visa evidenciar a incoerência dos preconceitos judaicos. Através da sua postura, Jesus mostra a mesquinhez de toda e qualquer descriminação e dá a oportunidade à mulher cananeia de demonstrar a sua fé, uma fé que ultrapassa a fé de tantos judeus, uma fé que é verdadeiramente digna de se sentar a mesa com Deus.
Esta mulher cananeia era uma mulher pagã, provavelmente uma mulher fenícia. Os fenícios eram desprezados pelos judeus que os apelidavam pejorativamente de cães. Na verdade, da fenícia provieram para Israel consequências religiosas muito negativas. Basta lembrar-nos de Jezabel que introduziu o culto de Baal entre o Povo de Deus.
No entanto, esta mulher cananeia também quer beneficiar da salvação que Jesus oferece e oferece-nos um belo exemplo de uma correcta profissão de fé e de uma fé humilde e persistente. Na verdade as três intervenções da mulher mostram claramente a sua ânsia de salvação e a sua confiança em Jesus a quem chama de Filho de David e Senhor. É esta fé humilde, persistente e convicta na pessoa e mensagem de Jesus que dá acesso à salvação. É esta fé da mulher que Jesus louva e que abre o caminho à salvação. Na verdade, o decisivo para a salvação não é o país em que nascemos. O decisivo para a salvação é a aceitação da pessoa e mensagem de Jesus que é um dom de Deus feito a toda a humanidade.
Resume e sintetiza muito bem a mensagem deste domingo a segunda leitura da carta aos romanos. Paulo continua a reflectir no facto de que Israel recusou a pessoa e mensagem de Jesus e que isso o levou a anunciar o evangelho da salvação aos pagãos. No entanto, esta situação não deixa Paulo indiferente. Paulo sente-se triste porque Israel, o povo da promessa, recusou a salvação oferecida por Cristo. No entanto, Paulo continua a sua tarefa missionária com a esperança de que também os Israelitas aceitem a pessoa e a mensagem de Jesus. Paulo deseja continuar a desenvolver e a desenvolver bem o seu ministério entre os gentios para ver se provoca ciúmes nos israelitas e os leva a converterem-se a Deus. Na verdade, Paulo está convicto que Deus, respeitando a nossa liberdade e as nossas decisões pessoais, quer usar de misericórdia para com todos. A todos, independentemente da sua raça, nação, estatuto social Deus oferece a sua misericórdia e salvação. No entanto cabe-nos a nós aceitar ou recusar o dom deste amor misericordioso que a todos quer salvar.
Ao terminarmos a nossa reflexão neste domingo podemo-nos e devemo-nos perguntar: de que tamanho é o meu coração, o meu abraço? Na verdade, a liturgia deste dia ensina-nos duas verdades fundamentais. A primeira é que Deus ama todos os homens e a todos quer salvar. Para isso basta que a humanidade acolha com fé a pessoa e a mensagem de Jesus. Não interessa de onde vimos, onde moramos, o que fazemos. O coração e o abraço de Deus são grandes demais para se deixarem atrofiar por coisas sem importância.
A segunda verdade relaciona-se com a forma como nós acolhemos os outros. Numa igreja que é a comunidade de Jesus atitudes de preconceitos, racismos e xenofobias não podem ter lugar. Todas as comunidades cristãs tem de aprender a ter um coração e um abraço como os de Deus, ou seja, um coração e um abraço do tamanho do mundo.

P. Nuno Ventura Martins

missionário passionista

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