Ano A – XXI Domingo do Tempo Comum

1ª Leitura: Is 22, 19-23;
Salmo: Sl 137, 1-2ª. 2bc-3. 6 e 8bc;
2ª Leitura: Rom 11, 33-36;
Evangelho: Mt 16, 13-20.

 

No XXI Domingo do Tempo Comum a liturgia da Palavra convida-nos a reflectir sobre duas realidades fundamentais da nossa fé: Cristo e a Igreja. Na verdade, também a nós Jesus nos pergunta “e vós quem dizeis que eu sou?” e é da resposta a esta pergunta que pode surgir a Igreja, a comunidade daqueles que acolhem e aderem à pessoa e mensagem de Jesus.

O texto do evangelho que nos é proposto neste dia ocupa um lugar importante no Evangelho de São Mateus. Na verdade, ele está a anteceder o primeiro anúncio de Jesus sobre a sua paixão e morte na cruz. A rejeição da mensagem e da pessoa de Jesus, depois do êxito inicial, começam a sentir-se e Jesus deseja preparar os seus discípulos para o caminho de cruz que se aproxima. Na verdade, não se pode seguir Jesus senão pelo caminho da cruz. Quem quer seguir Jesus tem de o seguir com convicção e no caminho da cruz. Na verdade, como diz o próprio Jesus: “Se alguém quiser vir comigo, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me”.

Assim sendo, Cristo, para esclarecer e fortalecer a opção dos apóstolos por Ele e pelo seu Reino, faz uma espécie de sondagem aos seus discípulos. Desta sondagem de Jesus aos seus discípulos fala-nos a primeira parte do evangelho deste domingo (Mt 16, 13-16). Esta primeira parte do evangelho é uma densa lição de cristologia que aborda o tema da identidade de Jesus.

Num primeiro momento Jesus pergunta aos seus discípulos “quem dizem os homens que é o filho do Homem?”. Esta é uma pergunta que não compromete directamente os seus discípulos. Na verdade, para responderem a esta pergunta basta que os discípulos digam aquilo que ouvem os seus contemporâneos dizer acerca de Jesus: “uns dizem que é João Baptista, outros que é Elias, outros que é Jeremias ou algum dos profetas”.

Os homens não vêem em Jesus nenhuma novidade. Para eles, Jesus é a continuação do passado. Para eles, Jesus mais não é que um profeta. Jesus mais não é, para a opinião corrente, que um homem de Deus, bom e justo que escutando os apelos de Deus se tornou sinal de Deus.

No entanto, Jesus não se contenta com a opinião dos outros. Ele quer saber quem é Ele para os seus discípulos, qual é o lugar que Ele ocupa nas suas vidas: “E vós, quem dizeis que Eu sou?”. Diferentemente da pergunta anterior esta pergunta de Jesus aos seus discípulos sobre a sua identidade não é uma pergunta sem consequências. Na verdade, a resposta a esta pergunta compromete directamente os interrogados. Mais ainda, esta é uma pergunta fundamental e fundante na nossa vida de fé. Quem é Jesus para mim? Qual é o lugar que ele ocupa na minha vida? Estas são perguntas que nós como crentes não nos podemos esquivar. Estas são perguntas decisivas e de urgente resposta na nossa vida.

Na verdade, nunca se falou tanto sobre Jesus como nós dias de hoje. Basta-nos um passeio rápido pelas livrarias para vermos a quantidade de títulos que se referem à pessoa de Jesus. O tema da religião e a pessoa de Jesus vendem e por isso são muitos os que falam sobre Jesus. Infelizmente, a grande maioria de tais publicações são romances que a alguns dados históricos juntam muitíssima mentira e que criam algumas confusões na cabeça dos mais incautos que não sabem distinguir a diferença entre um livro com credibilidade histórica e um romance. Assim sendo, fala-se muito de Jesus mas muitas vezes não do Jesus dos evangelhos.

Para alguns Jesus limita-se a um homem bom, misericordioso, compassivo e solidário. Outros vêem Jesus como um mestre moral. Outros vêem Jesus como um revolucionário que sonhava um mundo melhor mas que foi morto pelos poderes do seu tempo. São curiosas as definições que vamos ouvindo por aqui e por acolá de Jesus e que as vezes nos dizem mais das pessoas que fazem tais afirmações do que propriamente sobre Jesus.

No entanto, neste debate sobre a pessoa de Jesus nós também estamos chamados a dar o nosso contributo. E este contributo não se pode ficar no que ouvimos os outros dizerem de Jesus. Temos de dizer quem é Jesus para nós, qual o lugar e a importância quer Ele tem na nossa vida.

A esta pergunta fundamental na vida de cada crente sobre a identidade de Jesus, Pedro responde: “Tu és o Messias, o Filho de Deus vivo”. Esta afirmação de Pedro resume a fé da Igreja na pessoa de Jesus. Ele não é um simples homem. Ele é o Messias e o filho de Deus. Ao confessar que Jesus é o Messias estamos a confessar que é Jesus o libertador prometido por Deus ao seu povo. Confessar que Jesus é o Messias é confessar que só em Jesus é que podemos encontrar a salvação oferecida por Ddeus. Por sua vez, afirmar que Jesus é o Filho de Deus é afirmar que este Jesus tem uma relação especial com Deus, é reconhecer a profunda intimidade que existe entre Jesus e Deus Pai. Foi de Deus Pai que Jesus recebeu a sua vida e é em comunhão com Deus que Jesus desempenha a sua missão.

É desta profissão de fé e adesão à pessoa de Jesus que nasce a Igreja. Da realidade da Igreja nos fala a segunda parte do evangelho deste domingo (Mt 16, 17-20).

Depois da confissão de fé de Pedro, Jesus declara feliz Pedro pela clareza da sua fé. Na verdade, a fé em Jesus como Messias e filho de Deus outra coisa não visa senão a felicidade do homem. Da nossa adesão a Deus surge a verdadeira felicidade. No entanto, Jesus também reconhece que a fé não se limita a uma acção humana. A fé é um dom de Deus. É como um dom, todos nós se o queremos usufruir temos de o aceitar.

Depois da profissão de fé de Pedro Jesus diz a Pedro: “Tu és Pedro; sobre esta pedra edificarei a minha Igreja e as portas do inferno não prevalecerão contra ela. Dar-te-ei as chaves do reino dos Céus: tudo o que ligares na terra será ligado nos Céus, e tudo o que desligares na terra será desligado nos Céus”.

Não é fácil decifrar o sentido destas palavras. Na verdade, estas palavras que são utilizadas pela teologia católica para explicar o lugar de Pedro e do Papa na Igreja estiveram na origem de várias discussões e interpretações diversas. Algumas interpretações dizem que este texto afirma que Pedro é a rocha sobre a qual é alicerçada a Igreja. Na verdade, o nome Pedro dado por Jesus a Simão é a tradução grega do termo hebraico rocha. No entanto, esta não é a única interpretação possível. Na verdade, são vários os textos do Novo Testamento que afirmam que a pedra angular é Cristo (cf. 1Pd 2, 4-6; Ef 2,20; 1 Cor 3, 11). Assim sendo, segundo alguns exegetas a afirmação de Jesus: “sobre esta pedra edificarei a minha Igreja” deve ser entendida no contexto da profissão de fé de Pedro. A fé de Pedro que é a fé da Igreja em Jesus Cristo é o fundamento sólido da Igreja. É a fé em Cristo que permite que a Igreja vença as forças adversas. Todos aqueles que, a exemplo de Pedro, confessam a Cristo como Messias e Filho de Deus fazem parte da Igreja e são capazes de vencer as forças adversas do mal.

Devido a sua profissão de fé, Pedro recebe de Jesus as chaves e o poder de ligar e desligar. O poder de atar e desliga designava entre os judeus o poder de interpretar com autoridade a lei dizendo o que é permitido e o que não é permitido. Por sua vez, como podemos depreender da primeira leitura deste domingo, a entrega das chaves é um gesto de nomeação do administrador do palácio real. Assim sendo, Jesus ao dar a Pedro as chaves e o poder de ligar e desligar está a nomear Pedro como aquele que tem a autoridade de transmitir os ensinamentos de Jesus e de ver o que está de acordo ou não com o evangelho. No entanto, também temos de referir que no evangelho o poder de ligar e desligar não está reservado só a Pedro. Jesus também confere este poder à comunidade (Mt 18, 18: Jo 20, 23).

Que a celebração deste domingo nos ajude a professar de forma convicta e esclarecida a nossa fé em Cristo e na Igreja.

P. Nuno Ventura Martins

missionário passionista

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