Ano A – XXII Domingo do Tempo Comum

1ª Leitura: Jer 20, 7-9;
Salmo: Sl Sal 62, 2. 3-4. 5-6. 8-9;
2ª Leitura: Rom 12, 1-2;
Evangelho: Mt 16, 21-27.

 

A liturgia da palavra deste XXII Domingo do tempo Comum leva-nos a reflectir sobre o caminho dos discípulos de Jesus. Na verdade, se o caminho de Jesus foi um caminho de cruz outro não poderá ser o caminho do discípulo de Cristo senão um caminho de cruz. No entanto, afirmar que o caminho de Jesus é um caminho de cruz e que os seus discípulos devem seguir o mesmo caminho é algo pouco atractivo e contraria algumas das nossas expectativas. No entanto, só seguindo Jesus e seguindo-o pelo caminho da cruz é que poderemos chegar à ressurreição, à vida plena e feliz. Deixando-nos guiar e iluminar pelas leituras deste domingo vejamos o motivo do caminho de Jesus e dos seus discípulos ser um caminho de cruz e convençamo-nos que só este caminho nos pode guiar à salvação, à Ressurreição e à vida plena.

A segunda leitura desta celebração, retirada da epístola do Apóstolo Paulo aos cristãos de Roma, é uma clara demonstração de que ser discípulo de Jesus não se limita a professar certas verdades teóricas. Ser discípulo de Cristo tem uma dimensão prática. Ser discípulo de Cristo exige que a nossa vida seja uma vida ao estilo de Jesus.

Depois de Paulo nos ter oferecido, na primeira parte da sua carta aos romanos, uma brilhante reflexão teológica sobre o projecto salvífico, o Apóstolo das Nações, na segunda parte, exorta os cristãos a viverem de acordo com o seu baptismo. O texto que a liturgia deste domingo nos oferece da carta aos romanos é a introdução à segunda parte desta carta. Nesta introdução, o apóstolo Paulo diz-nos que o melhor culto que podemos prestar a Deus é a oferta da totalidade da nossa vida e existência a Ele. Na verdade, Paulo pede literalmente que ofereçamos os nossos corpos, ou seja, a totalidade da nossa pessoa enquanto sujeito de relações, a Deus. O melhor culto que podemos prestar a Deus é a nossa entrega total e confiante nas suas mãos.

No entanto, esta oferta de nós mesmos a Deus não se reduz a meras palavras. O apóstolo Paulo indica-nos a as consequências que advêm da nossa entrega total a Deus. A primeira consequência da nossa consagração a Deus é o não podermos compactuar, conformarmo-nos com os valores do mundo. Os discípulos de Jesus apesar de estarem no mundo não são do mundo. Assim sendo, os discípulos de Jesus apesar de estarem no mundo não se podem conformar com a mentalidade pecaminosa que existe no nosso mundo. Além desta inconformidade com os valores do mundo, a nossa consagração a Deus também exige a transformação da nossa maneira de pensar aos critérios de Deus.

Podemos dizer que o melhor culto que podemos prestar a Deus é a entrega de toda a nossa existência a Deus. Tal entrega exige que nos vamos distanciando mais dos valores mundanos e nos vamos aproximando mais dos valores divinos. Ao nos entregarmos a Deus e ao nos deixarmos transformar por Deus e pela sua Palavra estamos no mundo com uma postura profética, uma postura de denúncia da ordem do pecado e de anúncio da Palavra de Deus e da sua salvação. No entanto, todos nós sabemos que se os cristãos assumirem e viverem coerentemente a dimensão profética da sua vida serão alvos de troça, discriminação e muitas vezes de perseguição. Ilustra-nos esta situação a primeira leitura deste dia. O profeta Jeremias, que desde cedo sentiu a sua vocação, desenvolveu o seu ministério profético numa época complicada, num tempo de instabilidades e de injustiças sociais e de infidelidades religiosas. Estamos na época prévia ao exílio. Ao ver os maus caminhos de infidelidade a Deus e de alianças com os povos estrangeiros que o povo estava a trilhar o profeta, movido pela palavra de Deus, denuncia a situação pecaminosa que Judá está a viver e anuncia o exílio como castigo pela infidelidade do povo. No entanto, a pregação de Jeremias não era apreciada pelo povo. Jeremias era considerado um profeta de desgraças e foi rejeitado e escarnecido pelo povo. Na verdade, o profeta Jeremias chegou a ser preso e correu risco de vida. No entanto, e apesar de todas as dificuldades o grande amor que Jeremias tinha à Palavra de Deus levou-o a não desistir da sua missão. Contudo, isto não impediu que o profeta se dirigisse a Deus com palavras de repreensão, devido aos problemas que a missão lhe trazia. Exemplo destas palavras de repreensão é o texto de hoje. Na verdade, Jeremias acusa Deus de o ter seduzido como um jovem seduz uma jovem. Ante tal sedução, Jeremias não resistiu aos encantos do seu Deus e entregou-se à missão que Deus lhe encomendava. No entanto, esta entrega só produziu sofrimento na vida do profeta e escárnio. Ante esta situação, Jeremias diz que não mais desempenhará a missão de profeta. Contudo, o amor de Jeremias a Deus não o deixou demitir-se da sua missão.

Assim acontece tantas vezes connosco. Esforçamo-nos por ser fiéis à nossa vocação cristã mas a nossa fidelidade a Deus traz consigo muitas incompreensões e alguns sofrimentos. Ao sofrermos e ao sermos motivo de troça pela nossa fidelidade aos valores do evangelho também nós como Jeremias queríamos abandonar a nossa identidade de cristãos. No entanto, há algo em nós que nos impede de abandonarmos Deus. A relação de amor que há entre Deus e cada um de nós impede-nos de abandonarmos Deus porque sabemos, apesar de muitas vezes o negarmos, que só em Deus e com Deus é que somos felizes.

Das exigências que o discipulado de Jesus comporta também nos fala o evangelho deste domingo. O evangelho do domingo passado narrava-nos a confissão de fé de Pedro: “Tu és o Messias, o Filho de Deus Vivo.” Depois de tão correcta profissão de fé, Jesus vê-se na necessidade de explicar em que consiste o seu messianismo e a sua filiação de Deus. Na verdade, Jesus mostra aos seus discípulos que o seu messianismo e a sua filiação divina não são sinónimos de riquezas, honras e glórias mas de cruz, ou seja, de amor total e fiel que se faz dom. É esta a mensagem que Jesus quer transmitir aos seus discípulos com o seu primeiro anúncio da paixão. À ressurreição só se chegará pelo caminho da cruz.

Pedro e os outros discípulos opõem-se ao ensinamento de Jesus. Na verdade, a cruz não está nos seus planos. É assim que aquele que fora chamado de pedra sobre a qual Cristo edificaria a sua Igreja é agora chamado de pedra de tropeço, de escândalo. Pedro ao querer demover Cristo do caminho da cruz repete as tentações que Jesus teve no deserto. Pedro apesar de alguns momentos antes ter feito uma confissão de fé perfeita não entendia o que significava ser filho de Deus e messias. O messianismo de Jesus é diferente do dos homens e é por isso que Jesus se vê na necessidade de corrigir as perspectivas dos discípulos.

Na verdade, a segunda parte do evangelho deste domingo é uma catequese de Jesus sobre o verdadeiro discípulo. O discípulo de Jesus é aquele que a exemplo de Jesus é capaz de renunciar a si mesmo, às suas vontades mesquinhas, à sua vontade de poder, de tomar a sua cruz e de seguir a Cristo pelo caminho da cruz. Ser discípulo do Senhor Crucificado é seguir o caminho que Ele seguiu: uma vida que por amor se faz dom à Deus e aos irmãos, uma vida que vive até às ultimas consequências a sua fidelidade a deus e aos irmãos.

No entanto, ainda paira no ar a pergunta: porque a cruz na vida de Jesus e dos seus discípulos? Será que vale a pena os sofrimentos à que estamos sujeitos? Também a estas perguntas Jesus responde no evangelho de hoje. Devemos seguir o caminho da cruz porque quando se dá a vida por amor a vida não se perde mas ganha-se. A nossa vida terrena não é o definitivo. Devemos ir antecipando no já e agora da história a vida eterna. Além disto, Deus não deixa sem recompensa aqueles que fazem da sua vida um dom e sabem gastar a sua vida para que os outros tenham vida.

Se alguém quiser seguir-Me, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e siga-Me”.

P. Nuno Ventura Martins

missionário passionista

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