Ano B – Ascensão do Senhor

1ª Leitura: Act 1, 1-11;
Salmo: Sl 46, 2-3. 6-7. 8-9;
2ª Leitura: Ef 1, 17-23;
Evangelho: Mc 16, 15-20.

 

Ascensão: chamada à esperança e à missão!

Quarenta dias após a Páscoa da Ressurreição, a Igreja celebra a Ascensão do Senhor. Em Portugal e noutros países, como a quinta-feira da VI semana de Páscoa, dia em que se cumprem os quarenta dias depois da Ressurreição, não é feriado, a celebração da Ascensão foi transferida para o VII Domingo de Páscoa. No entanto, tal mudança pode ser uma mais-valia catequética que demonstra o carácter pascal da Ascensão de Cristo.

A Ascensão é a subida do Senhor aos céus depois da ressurreição; é o mistério da glorificação de Jesus ao triunfar, pela ressurreição, da sua morte na cruz. “A ascensão é o cumprimento integral da ressurreição e assi¬nala a participação de Cristo, na sua humanidade, no poder e na autoridade do próprio Deus” (Enciclopédia Christos).

Testemunho escrituristico, por excelência, da Ascensão de Jesus é a primeira leitura deste domingo retirada do Livro dos Actos dos Apóstolos. Apesar dos vários Evangelistas nos testemunharem várias aparições do Senhor Ressuscitado, aparições essas que reavivam a fé dos discípulos e os preparam para a sua missão, e evocarem a ascensão de Jesus, só Lucas, nos Actos dos Apóstolos, nos diz que as aparições do Ressuscitado duraram 40 dias e terminaram com a Ascensão de Jesus no Monte das Oliveiras, perto de Betânia. 

A narração que Lucas faz da Ascensão de Jesus é de grande sobriedade se a formos a comparar com as narrações do mesmo episódio feita pelos evangelhos apócrifos. Na sua narração, Lucas utiliza vários símbolos que nos ajudam a perceber melhor a realidade da Ascensão. 

A nuvem tem um grande significado bíblico. Na verdade, ela é o sinal da presença divina. De igual maneira, os homens vestidos de branco também não deixam de ter um simbolismo. As vestes brancas são o símbolo do mundo sobrenatural. 

O facto de Lucas colocar a Ascensão de Jesus nas vizinhanças de Jerusalém também é importante. Na verdade, a expansão do evangelho deve começar onde tudo começou. O evangelho começa em Jerusalém (o evangelho de Lucas começa com a anunciação do anjo a Zacarias no templo de Jerusalém) e propaga-se até aos confins da terra (o livro dos Actos dos Apóstolos termina com Paulo em Roma). 

A própria imagem da subida aos céus não deixa de ter o seu significado. Na verdade, a visão judaica, como para nós hoje muitas vezes, considerava o céu como a morada de Deus e a terra o mundo dos homens. Assim sendo, toda a comunicação entre Deus e os homens exprime-se como “descida” (comunicação de Deus ao Homem) ou “subida” (comunicação do Homem a Deus). Assim sendo, não podemos negar que o verbo ascender, do qual deriva ascensão, é devedor desta cosmo visão judaica. 

A atitude dos discípulos estarem de olhar fixo em Jesus que subia aos seus também tem o seu significado. Na verdade, está atitude dos discípulos descreve o comportamento de alguns membros da comunidade cristã, que esperando a última vinda de Cristo num curto espaço de tempo se descuidavam dos seus afazeres e da sua missão. Ante esta situação, as palavras dos dois homens vestidos de branco são uma forte interpelação. Apesar de saberem que o Senhor virá um dia na sua glória para instaurar os novos céus e a nova terra, os cristãos não devem especular sobre o quando e devem continuar a sua missão no mundo. 

Depois desta breve apresentação da narração de São Lucas da Ascensão de Jesus podemo-nos perguntar sobre a importância que este mistério da vida de Cristo tem para a nossa vida de fé. As orações litúrgicas deste dia e as restantes leituras ajudam-nos a descobrir duas razões da importância da Ascensão de Cristo para a vida dos cristãos. 

Na oração colecta deste dia, afirmamos: “a ascensão de Cristo, vosso Filho, é a nossa esperança: tendo-nos precedido na glória como nossa cabeça, para aí nos chama como membros do seu Corpo”.

A segunda leitura deste dia já nos mostra o convite à esperança que o mistério pascal representa para os cristãos. Na verdade, Paulo pede que Deus conceda aos Efésios a sabedoria necessária “para compreenderdes a esperança a que fostes chamados “, porque “assim o mostra a eficácia da poderosa força que exerceu em Cristo, que Ele ressuscitou dos mortos e colocou à sua direita nos Céus”.

Mas porque motivo a Ascensão de Jesus ao céu é um motivo de esperança? É um motivo de esperança, porque sendo a proclamação gloriosa da ressurreição de Cristo, a Ascensão é a afirmação que Cristo, descido dos céus e encarnado, com a sua ressurreição rompe a prisão da terra à qual está ligada toda a humanidade e, levando consigo as criaturas, regressa à pátria de Deus. Jesus ressuscitado abre o caminho que conduz a humanidade até Deus. Quem acredita que Deus ressuscitou Jesus também acredita que Deus o ressuscitará. O Homem não está destinado à morte. O Homem está destinado ao Absoluto, à vida com Deus e em Deus. Ao subir aos céus, Cristo introduz o Homem, que tinha assumido na encarnação, na glória de Deus Pai, na comunhão definitiva com Deus.

No entanto, a Ascensão de Cristo também tem uma importância especial, uma vez que foi aqui que Jesus confiou, de uma maneira definitiva e solene, aos seus discípulos a missão eclesial que terá a sua confirmação no dia de Pentecostes.

Ajuda-nos a compreender melhor esta missão o evangelho de São Marcos deste dia. Estamos nos últimos versículos do evangelho de Marcos que se dividem em três partes: Cristo Ressuscitado define a missão dos seus discípulos, Jesus sobe aos Céus e os discípulos cumprem, com a cooperação do Senhor Ressuscitado, a sua missão.

É no contexto da sua ascensão que o Senhor Ressuscitado define a missão que os seus discípulos devem realizar no mundo. A primeira nota característica desta missão relaciona-se com a sua extensão, com a sua universalidade. Na verdade, Cristo Ressuscitado envia os seus discípulos a anunciar o evangelho todo mundo. 

A segunda nota característica desta missão relaciona-se com o seu conteúdo. O que os discípulos devem anunciar é o evangelho, é a boa notícia da chegada da salvação, da proximidade do Reino de Deus, da visita de Deus aos homens em Jesus de Nazaré. Este anúncio do evangelho quando é aceite, porque o anúncio do evangelho exige uma opção, terá consequências não só na vida dos homens mas em toda a criação. Na verdade, quem acreditar e for baptizado vê a sua vida transformada. Os baptizados são novas criaturas que vivem uma nova relação com os homens seus irmãos e com as outras criaturas. Não vivem mais uma relação de ódio e de egoísmo mas sim de amor total à imagem de Jesus. Na verdade, quem acreditar em Jesus fará verdadeiros milagres: “expulsarão os demónios em meu nome; falarão novas línguas; se pegarem em serpentes ou beberem veneno, não sofrerão nenhum mal; e quando impuserem as mãos sobre os doentes, eles ficarão curados”. A Salvação que Deus oferece torna-se presente através dos gestos dos discípulos. 

Depois de Jesus ter indicado a missão aos discípulos e de ter subido aos céus e sentar-se à direita de Deus, os discípulos, com as suas palavras e obras, partiram e anunciaram a boa nova da salvação. E nesta missão não estavam sozinhos, pois o Senhor cooperava com eles.  

Celebrar a Ascensão de Jesus é um convite à esperança e à missão. Um convite à esperança porque ao subir aos céus, Cristo introduz o Homem, que tinha assumido na encarnação, na glória de Deus Pai. Um convite à missão porque é aqui que o Ressuscitado confia, de uma maneira definitiva e solene, aos seus discípulos a missão eclesial.

P. Nuno Ventura Martins

missionário passionista

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