Ano B – II Domingo da Quaresma

1ª Leitura: Gen 22, 1-2. 9ª. 10-13. 15-18;
Salmo: Sl 115, 10 e 15. 16-17. 18-19;
2ª Leitura: Rom 8, 31b-34;
Evangelho: Mc 9, 2-10.


Recorda-nos o apóstolo Paulo, na segunda leitura deste domingo, uma verdade fundamental que anima o nosso caminho de conversão quaresmal e de seguimento de Jesus: “Deus, que não poupou o seu próprio Filho, mas o entregou à morte por todos nós, como não havia de nos dar, com Ele, todas as coisas? ”. Este maravilhoso hino ao amor de Deus, que a liturgia nos oferece neste segundo domingo da quaresma, deve reacender em nós a certeza do amor de Deus e a esperança. O amor de Deus é o que nos leva a ultrapassar as várias dificuldades que surgem no nosso caminho de discípulos de Jesus. Apesar de todos os obstáculos e contratempos que vão aparecendo no nosso caminho de discípulos devemos ter confiança no êxito final, porque Deus ama-nos e justifica-nos. Se Deus, o único que nos podia condenar pelos nossos pecados, nos amou e nos perdoou, ninguém nos poderá fazer mal ou acusar.

Quem experimentou em si mesmo este amor de Deus sabe que acreditar neste amor não é só algo intelectual mas que também tem consequências práticas. Na verdade, o amor de Deus é uma experiência fundamental na nossa vida que não nos deixa indiferentes. Acreditar no amor de alguém não é só uma atitude intelectual. Acreditar no amor de alguém é confiar nessa pessoa, é entregar-se a ela, é deixar-se guiar por ela. A resposta adequada ao amor é a fé. Não a fé no seu restritivo sentido intelectual mas a fé no seu amplo sentido existencial. Desta fé, quase em termos dramáticos, nos fala a primeira leitura deste domingo ao recordar-nos o episódio do sacrifício de Isaac.

A primeira leitura deste domingo, retirada da secção das tradições patriarcais do livro do Génesis, é uma lenda cultual que pretende ser uma catequese sobre a obediência e a confiança que o homem deve ter para com Deus e não sobre quem é e como é Deus.

Num mundo, onde os sacrifícios humanos eram comuns, o texto começa por referir o pedido de Deus a Abraão de sacrificar Isaac, o seu filho único que tanto ama. É a uma prova dramática que Deus submete Abraão. Na verdade, Isaac além de ser o filho único e amado de Abraão é também o herdeiro e a garantia das promessas de Deus a Abraão. Ao pedir a Abraão quer sacrifique o seu filho, Deus parece querer de volta o que concedeu a Abraão e parece desmentir todas as promessas quer fez a Abrão.

Nesta situação de completo absurdo onde Deus se parece contrariar, Abraão continua a ter para com Deus uma obediência incondicional e uma confiança total. Depois da sua resposta (“aqui estou”), que demonstra a sua disponibilidade total, Abrão num silêncio total apenas age. O silêncio e a prontidão de Abraão em pôr em prática o pedido do Senhor mostram que Abraão verdadeiramente teme e confia no Senhor. Abraão passou na prova a que o Senhor o submeteu. E escusado será dizer que Deus não permitiu que o filho de Abraão fosse sacrificado. A confiança total de Abraão, a sua obediência a Deus não é um caminho de morte mas de bênção e de recompensa. Na verdade, Deus promete a bênção a Abraão e à sua descendência, promete a Abraão que a sua descendência será numerosa como as areias da praia do mar. Assim sendo, a primeira leitura deste dia mostra-nos que seguir, com fé e confiança, os planos de Deus não é um caminho de morte mas de vida. A narração do sacrifício de Isaac declara-nos que devemos confiar sempre, mesmo que nos apareça absurdo, em Deus que nos ama. Deus deve ser a nossa opção fundamental, o valor mias importante na nossa vida.

No entanto, esta fé, esta confiança e obediência total, é difícil e muitas vezes nos encontramos desanimados e tristes porque os projectos que Deus nos propõem contrariam as nossas expectativas. Assim se encontravam, os discípulos de Jesus no início do evangelho de hoje. No capítulo anterior ao texto evangélico deste domingo, Jesus faz o primeiro anúncio da sua paixão e morte: “começou, depois, a ensinar-lhes que o Filho do Homem tinha de sofrer muito e ser rejeitado pelos anciãos, pelos sumos sacerdotes e pelos doutores da Lei, e ser morto e ressuscitar depois de três dia” (Mc 8, 31). Além disto, Jesus também dizia abertamente à multidão: “se alguém quiser vir após mim, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me” (Mc 8, 34). Podemos imaginar como estavam consternados aqueles discípulos que deixaram tudo para seguir Jesus depois de ouvirem da boca de Jesus aquele primeiro anúncio da paixão e as condições para o discipulado. Certamente, que o desânimo e a frustração invadiram o coração dos discípulos.

É neste contexto de desânimo, que o evangelista Marcos coloca o episódio da transfiguração que escutávamos no evangelho de hoje e que pretende ser uma chamada à esperança.

Mais que uma reportagem fotográfica dos factos, o texto evangélico da transfiguração é uma catequese que está repleta de elementos simbólicos que aparecem no Antigo Testamento.

Começa o texto por dizer que Jesus foi com 3 dos seus discípulos para um lugar retirado. Assim sendo, a primeira lição que este texto nos dá é que quando nos sentimos desanimados e frustrados devemos parar um pouco, devamos retirar-nos a sós com Jesus. Diz-nos o texto que este lugar retirado era um alto monte. O monte é um elemento simbólico. Na verdade, é sempre no monte que Deus se revela. A transfiguração outra coisa não é do que uma teofania, ou seja, uma manifestação de Deus.

As vestes brancas e resplandecentes, Moisés e Elias, o temor e a perturbação e a nuvem também são elementos simbólicos. As vestes brancas e resplandecentes evocam-nos o resplendor de Moisés depois de se ter encontrado com Deus no Monte Sinai e evocam-nos o jovem vestido de branco que as mulheres virão no dia da ressurreição. Moisés e Elias, protótipos da lei e dos profetas, eram duas figuras que, segundo a mentalidade de então, deveriam aparecer no dia do Senhor. Além disto, a aparição destas duas personagens, no momento da transfiguração, também sugere-nos que em Jesus se cumpre a lei e os profetas. Por sua vez, o medo e a perturbação são a reacção habitual ante a manifestação de Deus. A nuvem, símbolo da presença de Deus, evoca-nos aquela nuvem que guiava o povo pelo deserto em direcção à terra prometida. A voz vinda da nuvem testemunha a filiação divina de Jesus e é um convite a seguirmos as palavras de Jesus, por mais incompreensíveis e duras que sejam.

Assim sendo e pela referência, no final do episódio, à ressurreição podemos considerar que o episódio da transfiguração pretende devolver a esperança e a confiança aos discípulos, dizer-lhes que a paixão e morte de Jesus na cruz não é o fim. Na verdade, no final do caminho de Jesus e dos seus discípulos não está a morte mas a ressurreição e a vida.

Ante esta manifestação de Deus, Pedro, ao contemplar a glória de Jesus, deseja deter-se no tempo: “Mestre, como é bom estarmos aqui! Façamos três tendas: uma para Ti, outra para Moisés e noutra para Elias”. Os discípulos queriam deter-se naquele momento de glória e não queriam palmilhar o caminho de Cruz que Jesus tinha anunciado para si e para os seus discípulos. Ante esta proposta, Jesus nada diz. Na verdade, Jesus sabe que tem de descer desse monte e caminhar em direcção a Jerusalém onde dará a vida pela salvação do mundo. Algo parecido a isto, pode-nos acontecer algumas vezes no nosso caminho de fé. Ao sentirmo-nos tristes e desanimados procuramos o Senhor na oração e acontece que o Senhor, com o seu amor, nos conforta e dá ânimo. No entanto, a oração não nos pode adormecer e paralisar. Os momentos de oração e de contemplação são momentos para “recarregarmos baterias” e não para estacionarmos. A oração não nos deve impedir de actuar mas deve levar-nos a actuar com mais esperança.

Que a celebração deste II Domingo da Quaresma nos ajude, através da oração, momento de encontro com o Deus amor, a caminharmos sempre com fé, aquela fé que é obediência incondicional e obediência total, em direcção à Páscoa do Senhor.

P. Nuno Ventura Martins

missionário passionista

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