Ano B – IV Domingo do Advento

1ª Leitura: 2 Sam 7, 1-5. 8b-12. 14a. 16;
Salmo: Sl 88, 2-3. 4-5. 27 e 29;
2ª Leitura: Rom 16, 25-27;
Evangelho: Lc 1, 26-38.


O quarto domingo do Advento convida-nos a meditar no projecto de salvação que Deus oferece à humanidade. Na verdade, se a primeira leitura apresenta-nos a promessa deste projecto de salvação por parte de Deus, o evangelho mostra-nos o cumprimento da promessa, do projecto de Deus e a segunda leitura, designando tal projecto salvífico de mistério, convida-nos a louvarmos a Deus pela salvação oferecida.

A primeira leitura é retirada do segundo livro de Samuel. Os dois livros de Samuel narram-nos a constituição de Israel como Povo. Na verdade, são estes livros que nos contam as peripécias do início da monarquia em Israel. O texto de hoje situa-nos no reinado de David. Depois de David ter sido consagrado Rei de Judá (Sul) também foi convidado, pelas tribos de Israel (norte) a reinar sobre elas. Depois da união destes dois reinos, seguiu-se a necessidade da escolha de uma cidade para a capital do reino. A escolha recaiu sobre Jerusalém, que David conquistou aos jebuseus sem a ajuda dos exércitos de Israel e de Judá, para que nem as tribos do norte, nem as tribos do sul reivindicassem a propriedade da nova cidade. Depois de ter conquistado Jerusalém, David trouxe a arca da aliança para Jerusalém. Assim sendo, David converteu a cidade de Jerusalém na cidade santa para todas as tribos. No entanto, a presença da arca em Jerusalém levantava um problema: a necessidade da construção de um templo adequado para albergar a arca. É este o contexto da primeira leitura deste domingo.

David pensou construir um templo, em Jerusalém, para albergar a arca da aliança, símbolo da presença de Deus no meio do povo, e assim reforçar a unidade do reino. Para realizar tal intento, o rei David consulta o profeta Natã. Num primeiro momento, o profeta Natã parece concordar com a ideia do Rei. No entanto, depois de uma revelação de Deus, o profeta Natã opõe-se à construção do templo. Na verdade, alguns profetas consideram o templo como uma ofensa a Deus. Deus é o Deus nómada, é o Deus que acompanha o povo e o guia no seu peregrinar histórico. Construir um templo equivale, para os teólogos deuteronomistas, a aprisionar Deus e a construir a vida à margem de Deus. Assim sendo, o profeta Natã opõe-se a construção do templo.

No entanto, tal oposição é acompanhada de uma promessa. Jogando com o duplo significado da palavra hebraica casa/descendência, o profeta anuncia que não será David a construir uma casa para Deus mas que será Deus que vai dar uma descendência a David: “O Senhor anuncia que te vai fazer uma casa … estabelecerei em teu lugar um descendente que há-de nascer de ti e consolidarei a tua realeza”. Esta aliança davídica foi interpretada como a promessa de um rei ideal, de um messias. Tal promessa de Deus é um dos artigos fundamentais da fé de Israel e o ponto de apoio para ultrapassar as épocas mais complicadas do Povo de Deus. Na verdade, a profecia de Natã demonstra que há uma relação especial entre a descendência de David e Deus, que Deus através dos descendentes de David continuará a cuidar do seu povo, que o povo de Deus viverá na prosperidade, na paz e na justiça e que quer a dinastia davídica quer a nação serão eternas. Numa palavra, podemos dizer que a profecia de Natã põe de relevo a fidelidade e o amor de Deus para com o seu povo.

Da realização, desta profecia de Natã nos fala o evangelho deste domingo. Na narração da anunciação vemos como Deus cumpre a sua promessa: “conceberás e darás à luz um filho a quem porás o nome de Jesus, Ele será grande e chamar-se-á filho do altíssimo. O Senhor lhe dará o trono de seu pai David; e o seu reinado não terá fim”.

O evangelho deste domingo pertence ao chamado evangelho de infância de Lucas. Os evangelhos de infância, através do recurso às tipologias veterotestamentarias (factos e personagens) e às aparições apocalípticas, pretende ser uma catequese sobre Jesus.

O evangelho de hoje situa-nos em Nazaré, uma cidade da Galileia. A Galileia era uma terra estranha, em permanente contacto com os pagãos e com uma religião heterodoxa. Por sua vez, Nazaré, era uma aldeia pobre e ignorada, nunca nomeada na história e por isso à margem dos caminhos de Deus e da salvação.

A Nazaré é enviado o Anjo Gabriel, a uma virgem de nome Maria, desposada com José. Chegando junto de Maria, o anjo saúda-a: “Ave, cheia de graça, o Senhor está contigo”. Tal saudação está repleta de ressonâncias veterotestamentárias, em especial dos episódios de eleição, vocação e missão. No convite à alegria, com que se inicia a saudação (Ave), ecoam os anúncios de salvação à filha de Sião. Por sua vez, a afirmação “o Senhor está contigo” é uma constante nos relatos de vocação e assegura a assistência de Deus ao chamado na missão para a qual é designado.

Ante a saudação do Anjo, Maria fica perturbada. No entanto, o anjo anuncia a Maria a proposta de Deus. Deus escolheu Maria para ser mãe de alguém especial, para ser mãe do messias, para ser mãe daquele descendente que Deus tinha prometido a David, por boca de Natã. Neste contexto, o anjo oferece-nos uma boa lição de cristologia: chamar-se-á Jesus (Deus salva), será Filho do altíssimo, herdará o trono de David seu pai e o seu reinado não terá fim. Estamos assim diante do episódio da vocação de Maria. Deus conta com a colaboração das suas criaturas para cumprir o seu plano de salvação. A graça de Deus, o amor de Deus supõe e exige a liberdade humana.

É desta liberdade que nasce a objecção de Maria. As objecções são uma presença constante nos relatos de vocação. A objecção apesar de ser uma reacção natural também é uma forma de mostrar a grandeza de Deus apesar das limitações e da fragilidade dos chamados. A esta objecção, o anjo responde com a garantia da presença do Espirito Santo e de que a Deus nada é impossível. A certeza de que a Deus nada é impossível deve dar-nos esperança e coragem. Apesar da nossa indignidade e fragilidade não devemos desanimar porque a Deus nada é impossível.

O relato termina com a resposta de Maria: “eis a serva do Senhor: faça-se em mim segundo a vossa palavra”. Ao definir-se como serva, Maria reconhece que Deus a escolheu para uma missão especial e aceita, com disponibilidade e com todas as suas consequências, essa eleição. Ao dizer faça-se e não farei, Maria deixa Deus ser Deus na sua vida. É esta a grandeza e a humildade de Maria.

O episódio da anunciação proclamado neste domingo mostra-nos que Deus é fiel e cumpre as suas promessas, o seu projecto de salvação. No entanto, para levar a cabo tal projecto Deus conta com a colaboração dos homens.

Tal projecto de salvação é designado, na segunda leitura deste domingo de mistério. Na verdade, na teologia do apóstolo Paulo, o mistério não algo de incompreensível ou inacessível. Para Paulo, mistério é o projecto de salvação que Deus tem para cada homem e para o mundo e que se concretiza em Jesus Cristo, em especial no seu mistério pascal. Diante da revelação do mistério, ou seja, de todo o amor de Deus pelos homens, da salvação oferecida a toda a humanidade outra não deve ser a atitude dos cristãos senão o louvor. Este mistério de salvação que durante muito tempo esteve encoberto e agora é proclamado a todos deve suscitar nos cristãos a acção de graças.

A vela que devemos acender neste quarto domingo da nossa caminhada da preparação para o Natal do Senhor é a vela da confiança obediente em Deus. Deus é fiel às suas promessas. Ele cumpre o prometido. No entanto, confiar em Deus não é só acreditar que Deus cumprirá as suas promessas mas também colaborar com Deus no seu projecto de salvação. Que Maria, a Senhora do Sim, nos ensine a viver uma confiança obediente em Deus.

P. Nuno Ventura Martins

missionário passionista

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