Ano B – Pentecostes

1ª Leitura: Act 2, 1-11;
Salmo: Sl 103, 1ab e 24ac. 29bc-30. 31 e 34;
2ª Leitura: 1 Cor 12, 3b-7. 12-13;
Evangelho: Jo 20, 19-23.

 

Pentecostes: um programa para a Igreja!

Cinquenta dias depois da Páscoa do Senhor celebramos a solenidade do Pentecostes. Esta festa recorda a descida do Espírito Santo sobre os Apóstolos e é a plenitude e a conclusão da celebração do Mistério Pascal.

A liturgia da Palavra deste dia apresenta-nos as duas versões da descida do Espírito Santo que estão presentes no Novo Testamento: a de Lucas, que se lê na primeira leitura do livro dos Actos dos Apóstolos, e a de João, que é proclamada no evangelho deste domingo.

O evangelista João apresenta-nos a descida do Espírito Santo no dia de Páscoa quando os discípulos estavam fechados, em casa, com medo dos Judeus. Na verdade, discípulos, reunidos no cenáculo, naquela tarde de Páscoa estavam atemorizados e paralisados. Nessa manhã, Maria Madalena já os tinha desassossegado com o estranho anúncio da ressurreição. No entanto, tal anúncio não foi suficiente para vencer medos e eliminar barreiras. Os discípulos estavam em casa e com as portas fechadas. O medo, inimigo sempre novo e sempre antigo, os paralisava fisicamente mas acima tirava-lhes a esperança. Aí estavam os discípulos pensando que a morte é mais forte que a vida, que o ódio é mais forte que o amor, que a violência é mais forte que a ternura.

E é nesta situação de desespero, de paralisia, de medo que se apresenta Jesus ressuscitado no seu meio. O Ressuscitado consegue ser mais forte que o medo, porque estando os discípulos com as portas trancadas com medo dos judeus, mesmo assim consegue entrar e colocar-se no meio deles. Não é num sítio qualquer que se coloca, é exactamente no meio deles, no centro. Jesus ressuscitado está no centro, é Ele que deve ser o centro da nossa vida e da nossa existência. É Ele o centro de toda a comunidade cristã, centro do qual tudo parte e centro ao qual tudo converge.

A mensagem e os sinais com que se apresenta não são palavras e gestos ao acaso. A sua saudação é uma saudação de Paz, aquela paz messiânica prometida, aquela paz que não é conquista dos homens mas dom de Deus. Aquela paz que não é só ausência de guerra mas harmonia, tranquilidade, serenidade e vida plena.

Dada e repetida a saudação de paz mostrou-lhes as suas chagas. O Ressuscitado é o Crucificado. As suas chagas, dolorosas mas também gloriosas, são os sinais do seu amor e da sua doação total. A permanência de tais chagas é a manifestação que o seu amor é eterno e permanece para sempre.

Em seguida, o Ressuscitado torna os seus discípulos participantes da sua missão. Assim como o Pai o enviou para anunciar a boa nova e instaurar o reino de Deus, assim os discípulos deverão ir pelo mundo anunciando a ressurreição do Senhor e antecipando no aqui e no agora da história o reino de Deus.

Para desempenharem esta missão, o Ressuscitado sopra sobre os seus discípulos e dá-lhe o Espírito Santo. O verbo utilizado é o mesmo que em Gn 2, 7 se usa. Trata-se de uma nova criação. Deus insufla aos homens o seu alento divino. Deus dá aos homens o dom do Seu Espírito. O gesto de soprar recorda a criação do homem (Gn 2, 7) e a ressurreição dos mortos (Ez 37). É como a criação do homem novo, dotado do alento do Espírito, em virtude da ressurreição de Jesus. Nesta nova criação o perdão e a reconciliação devem ocupar o lugar central. A comunidade cristã, com o dom do Espírito, está chamada a ser mediadora da oferta de salvação de Deus ao mundo.

Diferente da narração de João da descida do Espírito Santo é a que encontramos no livro dos Actos dos Apóstolos.

O livro dos Actos dos Apóstolos, mais que uma reportagem histórica dos acontecimentos, pretende ser uma catequese aos cristãos da Igreja primitiva que começavam a desfalecer na fé porque a última vinda do Senhor tardava. Lucas pretende animar os cristãos a serem fiéis ao seu baptismo. Assim sendo, quando lemos a narração do Pentecostes do livro dos Actos mais do que fazer uma interpretação literal do que aconteceu temos de descobrir a mensagem teológica que Lucas nos transmite através das imagens e dos símbolos que utiliza.

Lucas situa a descida do Espírito Santo na festa de Pentecostes. A festa do Pentecostes antes de ser uma festa cristã era uma festa judaica. Na verdade, o judaísmo celebrava, 50 dias depois da Páscoa judaica, a festa do Pentecostes ou das semanas. Numa primeira fase, esta festa era uma festa agrícola (Ex 23,14). Nela se agradecia a Deus a colheita da cevada e do trigo. No entanto, o judaísmo transformou esta festa na comemoração do dom da lei ao Povo no monte Sinai (2Cr 15,10-13). Assim sendo, ao colocar a descida do Espírito Santo no dia em que se comemora a dádiva da lei e a constituição do povo de Deus, Lucas sugere, na linha do profeta Jeremias (Jr 31), que o Espírito é a lei da nova aliança e que é graças a Ele que se forma a comunidade messiânica, a comunidade do novo Povo de Deus.

Também não deixam de ter o seu simbolismo a forma como Lucas descreve a descida do Espírito. Na verdade, o vento e o fogo são elementos típicos da manifestação de Deus no monte Sinai e representam a força de Deus.

O Espírito desce sobre a forma de línguas de fogo. A língua mais do que um elemento de divisão é um elemento de relação. Na verdade, é a linguagem que permite relacionarmo-nos uns com os outros, criarmos comunhão.

Detrás desta narração de São Lucas está o episódio da construção da torre de Babel (Gn 11, 1-9) e consequente dispersão. Lucas apresenta o Pentecostes como o inverso do acontecido na torre de Babel. Se a pretensão do Homem de chegar até Deus originou a confusão e a dispersão, o dom do Espírito Santo gera a união e o entendimento. Uma união e entendimento que respeita e promove as características culturais próprias de cada povo.

Na verdade, diz-nos o texto que depois “todos ficaram cheios do Espírito Santo e começaram a falar outras línguas [e] … cada qual os ouvia falar na sua própria língua”. É o dom do Espírito que nos dá uma nova capacidade de comunicação, é o Espírito que forma a nova comunidade do Povo de Deus. Na força do Espírito, os homens são capazes de ultrapassar as suas diferenças e de entrarem em comunhão. Com o dom do Espírito Santo a Igreja é chamada a anunciar a todos os povos a mensagem da salvação. Pela acção do Espírito a mensagem cristã é capaz de se expandir e de se verbalizar em diferentes línguas. É o Espírito que permite que a Igreja, apesar de ser formada por pessoas de diferentes raças e culturas, seja uma comunidade de amor.

Quando nos abrimos à força do Espírito as nossas relações humanas modificam-se. Na verdade, na força do Espírito a confusão termina e dá lugar à comunhão. Na força do Espírito é possível criar uma nova comunidade onde todos se entendam e vivam em comunhão.

O Pentecostes é um programa para a Igreja. Na verdade, o mistério do Pentecostes é considerado o início da Igreja. A Igreja, na força do Espírito, está chamada a vencer os seus medos e paralisias e anunciar a boa nova da salvação. Tal anúncio deve ser feito com a linguagem universal do amor e deve levar à edificação da nova comunidade do povo de Deus que se caracteriza pela comunhão e não pela divisão. Tendo o Senhor Ressuscitado como centro da sua vida, com a força do Espírito Santo, os cristãos são chamados a viver na comunhão e na reconciliação.

P. Nuno Ventura Martins

missionário passionista

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