Ano B – Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo

 

1ª Leitura: Ex 24, 3-8;
Salmo: Sl 115, 12-13. 15 e 16bc. 17-18;
2ª Leitura: Hebr 9, 11-15;
Evangelho: Mc 14, 12-16. 22-26


Celebramos, nesta quinta-feira depois do Domingo da Santíssima Trindade, a solenidade do Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo. O povo português, ao designar esta solenidade como a festa do Corpo de Deus, soube colher o significado mais profundo do mistério que hoje celebramos. Na verdade, Jesus Cristo, o Verbo de Deus encarnado, na última ceia instituiu, como nos narra o evangelho deste dia, a eucaristia, sacramento onde nós comungamos o seu corpo e o seu sangue. 

A solenidade do Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo nasceu na Bélgica, no séc XIII, e foi estendida a toda a Igreja, pelo papa Urbano IV, em 1264, como resposta à heresia de Berengário de Tours que negava a transubstanciação, isto é, negava a “conversão de toda a substância do pão na substância do Corpo de Cristo e de toda a substância do vinho na substância do seu Sangue” que se realiza “na oração eucarística mediante a eficácia da palavra de Cristo e a acção do Espírito Santo” (Compêndio do catecismo da Igreja católica, 283), ou seja, negava a que Cristo está verdadeiramente presente na eucaristia sob a aparência de pão e vinho. A fé da Igreja professa que: “Cristo está sempre presente … sobretudo sob as espécies eucarísticas.” (Constituição Sacrosanctum Concilium do Vaticano II sobre a Sagrada Liturgia, 7). Acreditamos que Jesus está presente nas espécies do pão e do vinho de uma forma real não porque as outras formas de presença (Palavra de Deus, Igreja, Ministros, Sacramentos, Pobres, …) não sejam reais mas porque a presença eucarística é-a por antonomásia. Assim sendo, estar diante do Sacrário é estar diante de Cristo. Na instituição da eucaristia, Jesus disse, como escutávamos no evangelho de hoje:  “Isto é o meu corpo … este é o cálice do meu sangue” e não isto simboliza o meu corpo e o meu sangue.  Nas espécies eucarísticas Jesus esta verdadeiramente presente e isto deve levar-nos a um grande respeito e a uma maior intimidade com Ele através da nossa comunhão e oração silenciosa e adorante diante do sacrário. 

Neste dia em que somos convidados a contemplar, aprofundar e a professar a nossa fé Eucarística, a liturgia da Palavra apresenta-nos a eucaristia como o memorial da nova e eterna aliança.

A primeira leitura deste dia, retirado do livro do Êxodo, narra-nos a aliança entre Deus e Israel. Moisés comunica ao povo as palavras de Deus e o povo compromete-se a cumprir as ordens do Senhor. Tal aliança entre Deus e o seu povo foi selada com um rito: depois de se ter construído um altar e de se terem erguido 12 pedras, alguns jovens ofereceram animais em sacrifício ao Senhor e Moisés, pegando no sangue dos animais, derramou-o no altar e aspergiu o povo, depois de ter lido o livro da Aliança, dizendo: “Este é o sangue da aliança que o Senhor firmou convosco”.

O ser humano sente a necessidade de validar com um rito os compromissos que assume e o rito acima descrito foi o rito com o qual se celebrou a aliança entre Deus e Israel, na base do monte Sinai. Este rito possui uma forte carga simbólica. Na verdade, o sangue, na mentalidade semita, é a sede da vida. Assim sendo, Moisés ao derramar o sangue sobre o altar, que simbolizada Deus, e ao aspergi-lo sobre o povo está a estabelecer uma forte comunhão entre o Povo e Deus. Deus e o povo, como membros de um único corpo, estão unidos no mesmo destino, na mesma vida. Deus e o povo devem ser fieis um ao outro. 

Deus sempre foi fiel ao seu pacto porque a fidelidade do Senhor é para sempre. No entanto, o povo nem sempre foi fiel ao seu Deus. Neste contexto de infidelidade, o profeta Jeremias anuncia que Deus irá realizar uma nova aliança com o seu povo, aliança essa bem diferente da aliança estabelecida com o povo no monte Sinai. Na verdade, se a aliança do Sinai era uma aliança exterior, uma aliança gravada em tabuas de pedra, a nova aliança será uma aliança interior, uma aliança que estará gravada no coração dos homens. 

A nova aliança, prometida por Jeremias, realiza-se com o Mistério Pascal de Cristo. Na verdade, Jesus na última ceia afirmou: “Este é o Meu sangue, o Sangue da Nova aliança, derramado pela multidão dos homens”. É Jesus, que pelo seu Mistério Pascal, estabelece uma nova relação do homem com Deus, a comunhão perfeita entre Deus e o homem. É no Mistério Pascal que a nova aliança se realiza. É na Paixão e Morte de Cruz que Jesus, derramando o seu sangue, nos perdoa dos nossos pecados, como nos recorda o autor da Epistola aos Hebreus na segunda leitura deste dia: “Cristo… não derramou o sangue de cabritos e novilhos, mas o seu próprio sangue, e alcançou-nos uma redenção eterna.” 

Outra coisa não é a eucaristia do que o memorial desta nova aliança, memorial da morte e ressurreição de Cristo (cf. Constituição Sacrosanctum Concilium do Vaticano II sobre a Sagrada Liturgia, 47), porque “sempre que no altar é celebrado o sacrifício da Cruz, em que foi imolado Cristo, nossa Páscoa, realiza-se a obra da redenção” (Constituição Lumen Gentium do Vaticano II sobre a Igreja, 3). A eucaristia é memorial da Páscoa de Cristo e não só uma mera recordação dos acontecimentos passados. Sempre que celebramos eucaristia, a Igreja faz memória do mistério pascal de Cristo e este torna-se presente.

O Evangelho de São Marcos deste dia narra-nos os gestos e as palavras com as quais Jesus, durante a última ceia, institui a eucaristia. Na véspera da sua paixão Jesus, que tinha amado os seus até ao extremo, celebrou uma ceia com os seus discípulos. 

No decorrer da última ceia, Jesus dá a dois gestos normais em todas as ceias festivas, ou seja, ao partir o pão e ao encher um copo com vinho, um novo significado. Na verdade, através deles, Jesus revela o sentido autêntico do sacrifício da cruz que dentro de algumas horas irá realizar. A última ceia é a interpretação que Jesus dá à sua morte na cruz: dadiva de si mesmo a Deus e aos homens. 

As palavras com que Jesus acompanha os gestos supracitados indicam o seu significado pleno: “Tomai: isto é o meu corpo … Este é o meu sangue, o sangue da nova e eterna aliança, derramado pela multidão dos homens”.   Ao partir e ao repartir o pão, dizendo “este sou eu” (é este o significado da expressão semítica “Tomai: isto é o meu corpo”), Jesus está a estabelecer com os discípulos uma profunda comunhão que os introduz na sua vida, morte e ressurreição. O cálice que Jesus entrega aos seus discípulos é o cálice do seu sangue, o sangue da nova aliança que é “derramado pela multidão dos pecados”, ou seja, por todos porque multidão, na linguagem semita, quer dizer a totalidade. A morte de Jesus é o sacrifício perfeito, a nova aliança que une Deus e a humanidade numa comunhão de amor. É por isto que a fé da igreja afirma que a Eucaristia é sacramento da comunhão, da comunhão com Deus e da comunhão dos homens entre si: “Participando nós realmente do corpo do Senhor, na fracção do corpo do Senhor, na fracção do Pão eucarístico somos levados à comunhão com Ele e entre nós” (Constituição Lumen Gentium do Vaticano II sobre a Igreja, 7). Assim como quando comemos o pão material ele é assimilado e torna-se parte de nós, assim quando comungamos o corpo e o sangue de Cristo devemos ir-nos identificando com Jesus e com o seu projecto. Todos nós que participamos na eucaristia e comungamos o corpo e o sangue do Senhor devemos fazer da nossa vida pão partido para os nossos irmãos.

No entanto, a eucaristia não é uma realidade que se reduza à nossa relação com Deus. A eucaristia também tem consequências na nossa relação com os irmãos. A participação do mesmo pão e do mesmo cálice exige e reforça a comunhão entre os irmãos. Do único pão partido pelos irmãos nasce a exigência da comunhão entre os que comungam porque “uma vez que há um único pão, nós embora muitos, somos um só corpo” (1 Cor 10,17). 

Que a celebração desta eucaristia, memorial da nova e eterna aliança, nos leve a viver uma vida verdadeiramente eucarística: uma vida de comunhão com Deus e com os irmãos. Comungar o Senhor Jesus, que se fez pão partido para os homens, aumenta a nossa união com Cristo e pede-nos que também nós sejamos pão partido para os nossos irmãos.

 

P. Nuno Ventura Martins

missionário passionista

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