Ano B – V Domingo do Tempo Comum

1ª Leitura: Job 7, 1-4. 6-7;
Salmo: Sl 146, 1-2. 3-4. 5-6;
2ª Leitura: 1 Cor 9, 16-19. 22-23;
Evangelho: Mc 1, 29-39.

A questão do mal e do sofrimento sempre foram das questões mais inquietantes para todo o ser humano. A existência do mal e do sofrimento é inegável e é um dos maiores desafios que se apresentam aos crentes. Na verdade, como é possível conciliar a fé na existência de um Deus amor que tudo criou com a existência do mal? São várias as tentativas de resposta que se vão dando no nosso mundo: o ateísmo trágico, a fé num Deus que tudo regula em vista do bem e as místicas orientais. O ateísmo trágico considera que a presença do sofrimento no nosso mundo é uma prova que Deus não existe e chega mesmo a afirmar que ante o sofrimento a única desculpa que pode existir para Deus é que ele não existe. Por sua vez, a fé cega num Deus que tudo regula em ordem ao bem diante do sofrimento afirma que o sofrimento é um grande mistério que não podemos compreender e que aquilo que podemos fazer é entregarmo-nos cegamente a Deus cujos desígnios são insondáveis mas que tudo regula em ordem ao bem. Em último lugar, as místicas orientais afirmam que o sofrimento é o resultado da sede de justiça e por isso defendem a fuga para um nirvana, oferecem um itinerário para acabar com toda a sede de justiça e com a capacidade de amar e de sofrer. Todas estas posturas são susceptíveis de críticas e são pouco cristãs. Na verdade, o ateísmo trágico faz-nos cair na fatalidade da dor e do sofrimento ao reduzir tudo as leis do mundo; a fé cega num Deus que tudo regula em ordem ao bem advoga uma imagem de Deus que é pouco cristã e produz frutos terríveis; a atitude proposta pelas místicas orientais é uma atitude medíocre porque limita-se a fugir do sofrimento. No entanto, a fé cristã também tem uma palavra a dizer ante a questão do sofrimento, tem uma pessoa a oferecer: Cristo Crucificado. Ajuda-nos a ver a resposta que a fé cristã dá à questão do sofrimento a liturgia da Palavra deste V domingo do Tempo Comum.

A primeira leitura deste domingo é retirada do livro de Job. O livro de Job é um clássico da literatura e é uma reflexão bem elaborada sobre o tema do sofrimento. A fé israelita explicava o sofrimento através da doutrina da retribuição. Segundo tal doutrina, Deus premiava os bons pelas suas boas obras e castigava os maus pelas suas más obras. Assim sendo, o sofrimento era visto como um castigo divino para aqueles que faziam o mal e Deus outra coisa não era que um contabilista que contava as acções boas e más do homem e que, consequentemente, recompensava ou castigava os homens. No entanto, a análise da vida real e quotidiana punha em causa esta doutrina da retribuição. Na verdade, era muito frequente que os maus possuíssem muitas riquezas e vivessem uma vida tranquila e que os justos fossem gente pobre e bastante atribulada. Além disto, o sofrimento dos inocentes também punha em causa esta doutrina da retribuição. O livro de Job pretende ser uma veemente critica a esta doutrina da retribuição, encarnada pelos quatro amigos que dialogam com Job.

Job era um homem rico e feliz. No entanto, num breve espaço de tempo vê-se privado da felicidade e repleto de sofrimento: perde os seus bens e a sua família e é atingido por uma grave doença. Ao viver esta situação, Job, rejeitando a doutrina da retribuição, vai em busca do rosto do verdadeiro Deus e de uma resposta à questão do sofrimento. Está é uma busca apaixonada, emotiva e dramática que passa por momentos de rebeldia mas que termina com um face a face com Deus. Neste percurso, Job descobre que Deus é um Deus desconcertante, incompreensível e que o homem é pequeno e incapaz de compreender os desígnios de Deus. A única coisa que o homem pode fazer é entregar-se totalmente nas mãos de Deus que apesar de ser um Deus incompreensível é um Deus que quer o nosso bem e nos ama. Ilustra-nos estas realidades a passagem do livro de Job que se lê neste domingo. Na verdade, este texto que é retirado do diálogo de Job com os seus amigos, diálogo esse que desfaz os argumentos da doutrina da retribuição. A leitura de hoje, através dos exemplos da vida do soldado, do escravo e do trabalhador assalariado, que segundo Job vivem uma vida melhor que a sua, apresenta-nos o quanto a sua vida é triste e dolorosa e revela-nos a oração que Job dirige a Deus. Job pede que Deus se recorde de todos os sofrimentos por que está a passar. Esta oração de Job não se limita a um grito de revolta e de angústia de alguém que se sente injustiçado e abandonado por Deus. Na verdade, esta oração de Job é o grito do crente que sabe que Deus o escuta e que só em Deus pode encontrar esperança e sentido.

Na verdade, a questão da dor e do sofrimento não é uma questão indiferente para Deus. Deus não quer a dor e o sofrimento. Ajuda-nos a descobrir esta realidade o evangelho deste domingo. O evangelho deste domingo insere-se na primeira parte do evangelho de Marcos que pretende apresentarmos Jesus como o Messias que anuncia o Reino de Deus que vai surgindo, através das suas palavras e acções. No episódio evangélico deste domingo, continuamos no dia inaugural de Jesus em Cafarnaum e encontramos duas realidades importantes: a cura da sogra de Simão e de muitas pessoas da cidade e a oração de Jesus.

A cura da sogra de Simão bem como a de muitas pessoas atormentadas por doenças e demónios mostra-nos como Jesus é aquele que tem poder de libertar o homem das suas misérias mais profundas e é capaz de nos oferecer uma vida nova e feliz. Jesus mostra-nos o projecto de Deus. No projecto de Deus o sofrimento não tem lugar. Deus envia-nos Jesus para nos libertar do sofrimento. Exemplo concreto disto são os milagres da cura da sogra de Pedro e das outras pessoas atormentadas de que nos fala o evangelho deste domingo. Na verdade, os milagres mais que gestos espectaculares são sinais do Reino, sinais que mostram o surgimento, na nossa terra, do mundo novo sem dor nem sofrimento.

Além destes milagres descritos no evangelho, o versículo proposto pela liturgia para a aclamação do evangelho também nos ajuda a descobrir a resposta, a pessoa que a fé cristã apresenta diante do sofrimento humano: “Cristo suportou as nossas enfermidades e tomou sobre si as nossas dores”. Jesus tomou sobre si as enfermidades e as dores de todos os homens. O Senhor Crucificado é a resposta, a pessoa que a fé cristã apresenta diante do sofrimento. No sofrimento humano, a fé cristã anuncia o Deus crucificado. Um Deus que escolhe um sofrimento activo vivido como solidariedade com todos aqueles que sofrem. O Deus de Jesus Cristo é o Deus compassivo e solidário com o homem que sofre. Esta verdade gera uma nova esperança para todos aqueles que sofrem. O homem não está sozinho na dor. O Senhor crucificado, o homem das dores está connosco, caminha connosco e dá sentido ao nosso sofrimento. O sentido é o amor. Deus dá sentido ao sofrimento do mundo porque o assumiu como seu.

Quer o milagre da cura da sogra de Simão quer a cura das outras pessoas da cidade, relatados no evangelho deste Domingo, possuem alguns pormenores relevantes. O episódio da cura da sogra de Simão mostra-nos que é Jesus que toma a iniciativa de se aproximar daqueles que estão doentes e sofrem e de os curar. Também não deixa de ser relevante o facto de Marcos dizer que Jesus a tomou pela mão e a levantou. Este verbo levantar aprece várias vezes, no evangelho de Marcos, em contextos de ressurreição. Assim sendo, podemos afirmar que a cura de Jesus é uma espécie de ressurreição. O último dado curioso da cura da sogra de Simão é que a sogra de Simão depois de curada começou a servi-los. Quem entra em contacto com Jesus entra na dinâmica do serviço.

Relativamente ao episódio da cura das outras pessoas não deixa de ser relevante que essas pessoas vão encontrar Jesus na casa de simão. A casa de Pedro neste texto evangélico pode ser um símbolo da igreja. É na e pela Igreja que Jesus continua a dar ainda hoje a vida em abundancia e ainda são muitos aqueles que batem à porta da Igreja à procura de Jesus e da sua salvação.

A terminar o evangelho de hoje, Marcos apresenta-nos um Jesus que reza. Na verdade, Jesus não se limita a pregar e a curar. Ele reza, ele entra em diálogo com Deus. As actividades de Jesus começam e terminam com a oração. A oração deve partir da nossa vida e deve levar-nos a acção. Também nós a exemplo de Jesus devemos rezar. Não podemos considerar a oração como uma perda de tempo. É na oração que nos encontramos com Deus e com a sua Palavra e que encontramos forças para pormos em prática os seus projectos. Assim foi com Jesus e assim também deve ser com cada um dos seus discípulos.

P. Nuno Ventura Martins

missionário passionista

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