Ano B – VI Domingo do Tempo Comum

1ª Leitura: Lev 13, 1-2. 44-46;
Salmo: Sl 31, 1-2. 5. 7 e 11;
2ª Leitura: 1 Cor 10, 31– 11, 1;
Evangelho: Mc 1, 40-45.


Recorda-nos o apóstolo Paulo, na segunda leitura deste domingo, o critério orientativo da vida de todos os cristãos: “Sede meus imitadores, como eu o sou de Cristo.” Ser cristão é agir ao modo de Jesus. Outra fonte inspiradora não deve ter a acção do cristão senão o exemplo de Jesus. É verdade que o apóstolo Paulo dá-nos esta recomendação num contexto muito particular, ou seja, na sua resposta sobre a licitude de comer ou não comer as carnes imoladas aos ídolos.

Na verdade, os cristãos de Corinto devem ter interrogado Paulo sobre a licitude de comer os restos da carne sacrificada aos ídolos que eram comercializadas. Na verdade, surgia a dúvida se ao comer a carne imolada aos ídolos os cristãos não estariam, de certa forma, a comprometer-se com os cultos idolátricos. Paulo diz que, uma vez que os ídolos nada são, os cristãos podem comer dessa carne. No entanto, apesar de terem essa liberdade os cristãos não devem faltar à caridade.

É neste contexto que Paulo apresenta um duplo critério que os cristãos devem ter sempre presentes na hora de tomarem as suas decisões. Tudo o que se faz deve ser para glória de Deus e não deve provocar escândalo. Apesar da sua liberdade, o cristão deve antepor a glória de Deus e o bem dos irmãos. O Amor deve prevalecer ante todo o tipo de liberdade egoísta. O amor a Deus e o amor ao próximo pede-nos que muitas vezes renunciemos aos direitos que a liberdade nos concede tendo em vista a glória de Deus e o bem dos irmãos.

Foi esta lógica que a apóstolo Paulo e o próprio Senhor Jesus, de quem o apóstolo Paulo se fez imitador, viveram. Na verdade, Jesus, na hora da Cruz não procurou cumprir a sua própria vontade mas a vontade de Deus seu Pai. Além disto, como nos recorda também Paulo na sua carta aos filipenses, Cristo que era de condição divina não se valeu da sua igualdade com Deus mas humilhou-se, apareceu como homem e obedeceu até à morte na cruz. A exemplo de Cristo, também Paulo, não procurando os seus próprios interesses mas os dos outros, procurou agradar a todos e trabalhou pela salvação de todos. E é assim, que com a autoridade que lhe vem do exemplo, que Paulo recomenda aos cristãos: “Sede meus imitadores, como eu o sou de Cristo.” Os cristãos devem seguir sempre os exemplos de Cristo. Os cristãos devem encontrar na pessoa de Jesus a sua inspiração e os seus critérios de acção.

É precisamente o exemplo de Cristo, o exemplo de Cristo que a ninguém exclui e despreza mas que de todos se compadece e a todos salva, que o evangelho deste domingo nos oferece. 
Depois do dia inaugural da missão de Jesus em Cafarnaum, o evangelista Marcos apresenta-nos a cena da cura do leproso por Jesus.

No entanto, e para percebermos melhor o evangelho deste domingo, devemos ter em conta a primeira leitura deste domingo para assim percebermos a situação em que viviam os leprosos.

A primeira leitura deste domingo é retirada do livro do Levítico, livro que se apresenta como um conjunto de discursos de Deus no Sinai a Moisés e que trata sobretudo das questões relacionadas com o culto e com as funções dos sacerdotes. O livro do Levítico é um conjunto de leis e ritos que os teólogos da escola sacerdotal recolheram. Mais precisamente, a primeira leitura deste domingo situa-se na terceira parte do livro do Levítico. Esta terceira parte trata da lei da pureza e apresenta as várias espécies de impureza, bem como os ritos purificatórios.

Um dos casos de impureza mais grave, e de que a primeira leitura de hoje fala, era o provocado pela doença da lepra. O nosso texto quando fala de lepra não a entende como nós hoje a entendemos. Neste texto, o termo lepra expressa um vasto leque de doenças de pele que deformam a aparência humana.

Quando alguém se desse conta de possuir na sua pele qualquer tumor, impingem ou mancha esbranquiçada deveria apresentar-se diante do sacerdote para que ele defendesse os doentes de diagnósticos errados ou mal-intencionados e velasse pelo cumprimento das normas e impedisse o contágio. Assim, a função do sacerdote era, sobretudo, a de declarar uma pessoa pura ou impura, ou seja, decidir a capacidade ou incapacidade de alguém pertencer ou não à comunidade e assim ser admitido à presença de Deus. Não deixa de nos criar alguma perplexidade como é que em nome de Deus e da santidade do povo se gere exclusão e marginalização.

Além disto, segundo a mentalidade de então que via nas doenças um castigo divino, o leproso era visto como um grande pecador. Assim, o leproso era alguém excluído que vivia isolado e que era obrigado a anunciar a sua presença para que ninguém se aproximasse. O leproso é um bom símbolo de todos quantos são excluídos por motivos éticos, sanitários, culturais e religiosos.

No entanto, é exactamente um leproso, protótipo do homem marginalizado e excluído, que, no evangelho desde Domingo, se aproxima de Jesus, prostra-se e suplica-lhe: “Se quiseres, podes purificar-me”. Este leproso é uma pessoa humilde mas insistente, é uma pessoa que está desesperada mas que deseja mudar de vida. Na verdade, ao pedir a Jesus que o purifique e não que o cure, como diz a tradução litúrgica, o leproso pede que Jesus o ajude a ultrapassar a triste situação de exclusão em que vive, pede que Jesus o torne puro para que assim volte a fazer parte da comunidade religiosa.

Ante esta atitude de fé e de humildade do leproso, Jesus não compactua com a atitude discriminadora da teologia de Israel. Na verdade, diz-nos o texto que Jesus, em vez de ter repelido o leproso, o olhou com compaixão, estendeu-lhe a mão e tocou-o e disse-lhe: “quero, fica limpo”. Jesus mostra-nos o verdadeiro rosto de Deus, mostra-nos toda a ternura de Deus, mostra-nos que ante a miséria e os sofrimentos do homem, Deus se compadece. Tal amor de Deus, que se revela na pessoa de Jesus, não se limita a meros sentimentos. Jesus estende-lhe a mão e fala com Ele. Jesus toca no leproso infringindo a lei que criava exclusão e marginalização para mostrar que tal exclusão não é vontade de Deus. Jesus toca no leproso e com este gesto humano, com este gesto libertador mostra o amor de Deus. Deus não descrimina, não exclui ninguém da sua salvação. O leproso longe de ser um excluído e um marginalizado é, para Deus, um filho a quem Deus quer salvar. A palavra de Jesus não acrescenta mais nada à acção realizada por Ele. Apenas é uma confirmação do seu gesto.

Ao purificar o leproso, Jesus revela que o Reino de Deus já está presente no meio dos homens e mostra como o Reino não compactua com a descriminação.

Ao leproso purificado Jesus pede silêncio. Na verdade, sendo a cura dos leprosos uma das obra do Messias, dizer que Cristo curou um leproso equivale a dizer que Jesus é o Messias. No entanto, fazer este anúncio na Palestina não estava isento de riscos. A Palestina esperava um messias triunfante que acabasse com o domínio dos invasores. No entanto, Cristo é o Messias cujo trono será a cruz.

Depois de ter pedido silêncio ao leproso purificado, Jesus ordena-lhe que se vá mostrar ao sacerdote. Na verdade, o leproso só poderia voltar a fazer parte da comunidade depois da sua cura ter sido confirmada pelo sacerdote. Contudo, esta acção do leproso, diz-nos Jesus, é para lhes servir de testemunho. Na verdade, uma vez que só Deus podia curar os leprosos, os sacerdotes ao verem o leproso curado deviam aperceber-se que o Messias já tinha chegado e que o Reino de Deus já era uma realidade. No entanto, o leproso curado foi incapaz de guardar silêncio. Quem experimenta a salvação oferecida por Deus não pode guardar só para si a alegria da salvação tem que anuncia-la.

Que a celebração deste domingo nos ensine e nos ajude a ser imitadores de Cristo, imitadores deste Jesus que não compactua com a exclusão e a segregação de ninguém e que a todos oferece a sua salvação.

P. Nuno Ventura Martins

missionário passionista

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