Ano B – VII Domingo do Tempo Comum

1ª Leitura: Is 43, 18-19. 21-22. 24b-25;
Salmo: Sl 40, 2-3. 4-5. 13-14;
2ª Leitura: 2 Cor 1, 18-22;
Evangelho: Mc 2, 1-12.


Convida-nos o profeta Isaías, neste Domingo, a olharmos para a nossa realidade concreta e aí descobrirmos o que Deus nos prepara; como Deus, ainda nos dias de hoje, continua a cuidar de nós: “Eu vou realizar uma coisa nova, que já começa a aparecer; não o vedes?” Convida-nos o Senhor a descobrirmos, no meio de todos os problemas, dificuldades e vicissitudes que nos assaltam, a sua presença confortante e salvadora. Na verdade, assim é Deus: um Deus que sempre oferece a salvação ao Homem.

A primeira leitura deste Domingo, retirada da segunda parte do livro de Isaías, comummente designada de Deutero-Isaías, situa-nos numa época bastante complicada na história do Povo de Deus. Estamos na época do exílio da Babilónia. O povo vive no desespero e na frustração. Apesar de sonharem com a libertação está tarda. Parece que Deus se esqueceu do povo exilado e sofredor na Babilónia. No entanto, é a este Povo que Deus envia o seu profeta com uma mensagem de consolo e de esperança: o fim do exilio, a libertação está iminente e o regresso do povo exilado à terra da promessa é apresentado como um novo êxodo.

O texto de Isaías que escutamos neste domingo é composto por alguns versículos de dois oráculos diferentes do Deutero-Isaías. A primeira parte do texto pertence a um oraculo de salvação. Por sua vez, a segunda parte da nossa leitura, pertence a um dos poucos oráculos do Deutero-Isaías em que Deus se apresenta com uma atitude crítica para com o seu povo, na medida em que acusa o povo de indiferença e infidelidade e deixa entrever a necessidade da conversão.

Na primeira parte da leitura de Isaías, o profeta convida o seu povo a não pensar que só no passado é que aconteceram maravilhas. Convida o povo a não ficar preso no passado e a contemplar o presente para aí descobrir como Deus já está a actuar para salvar o seu povo.

Na verdade, todos nós corremos um sério risco de saudosismo. Quantos de nós não deixamos sair de nossos lábios expressões do tipo: “Naquele tempo é que era! Hoje já não há nada disso!”. Tal saudosismo é prejudicial. Na verdade, a recordação do passado, das maravilhas passadas só é importante na medida em que alimenta a nossa esperança e abre-nos a um novo futuro. No entanto, o saudosismo, uma excessiva sobrevalorização do passado pode impedir-nos de reconhecer a acção libertadora e salvadora de Deus no nosso presente concreto.

O profeta anuncia ao povo que o mesmo Deus que libertou o povo do Egipto também os libertará do exílio da Babilonia. Na verdade, o amor e a solicitude de Deus pelo seu povo não mudaram. Deus continua a interessar-se pelo seu povo e a querer dar-lhe a salvação. E tal salvação e actuação de Deus na história outra coisa não deve provocar senão o louvor e a acção de graças.

Por sua vez, a segunda parte desta leitura, como já o referimos, faz parte de um oráculo onde Deus, através de uma atitude crítica para com o seu povo, convida-o a conversão. O profeta sugere ao povo que o exilio não é culpa de Deus mas do povo que apesar de ser fiel às obrigações cultuais multiplicava os seus pecados e iniquidades. Assim sendo, o profeta sugere que é necessário que o povo se converta para acolher a salvação que já começa a despertar.

O profeta Isaías, na sua leitura, convida-nos a tomarmos consciência que Deus não abandona o seu povo e que ainda hoje continua a realizar a sua obra de salvação. No entanto, é necessário que o homem percorra um caminho de conversão e de renovação para acolher a salvação que Deus oferece.

Estas realidades estão bem presentes no evangelho deste domingo. Na verdade, Deus, na pessoa de Jesus, continua no mundo a operar a salvação, a perdoar os pecados. No entanto, não devemos ser insensíveis diante desta acção de Deus. O homem é chamado a acolher esta proposta de salvação e ir ao seu encontro.

Diz-nos o texto que a cena evangélica de hoje se passa numa casa em Cafarnaum. Jesus regressou a Cafarnaum e quando as pessoas souberam que Ele aí estava acorreram à sua presença. Assim, é Jesus: é capaz de nos atrair, de nos congregar à sua volta. No entanto, nesta cena também aparece pela primeira vez uma realidade que será uma constante na vida de Jesus: a incompreensão dos escribas diante da pessoa de Jesus. O Senhor Jesus que anuncia o Reino com as suas palavras e gestos provoca admiração e congrega pessoas à sua volta mas também cria rejeição. O conflito que levará Jesus à morte de cruz começa a desenhar-se. Por um lado, o povo acolhe Jesus e a sua mensagem. Por outro lado, os fariseus e os doutores da lei rejeitam-no.

Enquanto Jesus pregava a Palavra naquela casa de Cafarnaum, um paralítico, transportado por quatro homens, procurava aproximar-se de Jesus. Não conseguindo os seus intentos, devido à multidão, os quatro homens não desistiram mas, destapando o tecto, desceram o catre em que estava o paralítico. Prestemos atenção a alguns dados deste relato que nos oferece uma boa lição de catequese.

O primeiro dado que nos chama à atenção é a casa. Não se diz que casa é esta. Só se diz que aí se congregou um grande número de pessoas para ouvirem Jesus e que também aí estavam alguns escribas, especialistas da lei. Esta casa pode ser uma figura da sinagoga, da comunidade judaica a quem Jesus dirige a pregação do Reino. Diz-nos o texto que são as pessoas que estão nesta casa que, de certa maneira, impedem o paralítico e os quatro homens que o transportam de se aproximarem de Jesus.

Também este paralítico na enxerga e os quatro homens que o transportam são um dado interessante. Eles formam uma unidade e ao serem quatro (numero dos pontos cardeais carregado de simbolismo) representam a humanidade. O paralítico e os quatro homens que o transportam representam a humanidade que por um lado se vê paralisada pelo mal e que por outro, não se conformando com o mal, procura a salvação. Assim sendo, o texto evangélico de hoje mostra-nos que Jesus é o salvador enviado por Deus a toda a humanidade.

O paralítico e os quatro homens que o transportam também nos chamam a atenção para outra realidade. Por um lado, a sua insistência diz-nos que não devemos desistir ante os primeiros obstáculos. Temos de ser insistentes e não podemos desanimar ante as primeiras dificuldades. Jesus louvou a fé destes homens persistentes. Não basta querer, é preciso fazer algo.

Por outro lado, o facto de o paralítico ser transportado por quatro homens também nos chama a atenção para a necessidade que temos de conduzir os nossos irmãos até Jesus. Pode acontecer, que eles estejam de tal maneira paralisados pelo mal que não consigam chegar até Jesus sozinhos e necessitem da nossa ajuda. Devemos estender a mão a todos e ajuda-los a encontrarem-se com Jesus.

Estando o paralítico diante de Jesus e tendo visto a fé daquela gente, Jesus declara: “Filho, os teus pecados estão perdoados”. Tal afirmação mostra que Deus oferece o seu perdão a todos aqueles que se propõe mudar de vida e aderir aos valores do reino. No entanto, tal afirmação não deixa de criar confusão aos escribas, porque, segundo eles, só Deus podia perdoar os pecados. No entanto, Jesus é o Filho de Deus e para dar isto a conhecer aos escribas ordena ao paralítico: “levanta-te, toma a tua enxerga e vai para casa”. E é assim que o paralítico, reconciliado com Deus e libertado da escravidão que o sujeitava, sai por entre a multidão. Tudo isto provocou o louvor da multidão.

Que a celebração deste domingo nos ajude a ver todos os gestos de salvação que Deus nos concede ainda hoje e nos leve a viver um caminho de conversão que nos ajude a acolher a salvação oferecida por Deus.

P. Nuno Ventura Martins

missionário passionista

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