Ano B – X Domingo do Tempo Comum

1ª Leitura: Gen 3, 9-15;
Salmo: Sal 129, 1-2. 3-4ab. 4c-6. 7-8;
Evangelho: Mc 3, 20-35.
2ª Leitura: 2 Cor 4, 13 – 5, 1;

 

A liturgia da Palavra do X Domingo do Tempo Comum convida-nos a meditar sobre o uso que estamos a fazer da nossa liberdade na nossa relação com Deus. Deus que nos criou por amor e que, enviando-nos o seu Filho Jesus, nos chama à conversão e a comunhão consigo respeita a nossa liberdade. Deus sempre propõe mas nada impõe. Na verdade, Deus é amor e o amor de Deus comporta a liberdade e a possibilidade do Homem, de uma forma livre e consciente, recusar o amor de Deus.

Tudo começa no início e no início de tudo está a criação do mundo e do homem. Um Deus que ama e que por isso é capaz de dar vida e de criar. O livro do Génesis não pretende ser uma lição de história ou de ciências da natureza. Os primeiros 11 capítulos do livro do Génesis pertencem a um género literário chamado de mitos de origem. Estes capítulos pretendem ser uma narração que pretende explicar as realidades humanas. Assim sendo, mais do quer dizer como o mundo e o homem surgiram, o livro do Génesis pretende afirmar que na origem da vida e do homem está Deus. No entanto todos sentimos a presença do mal neste mundo. Diante deste facto surge-nos a pergunta: se foi Deus que criou o mundo porque é que existe o mal? Se há um Deus bom e justo porque existe o mal? É a esta pergunta, de ontem e de hoje, que o autor sagrado responde na página de livro do Génesis proclamada neste domingo. Na origem do mal e da infelicidade não está Deus mas está o homem com as suas opções erradas e com o mau uso da sua liberdade.

Deus criou-nos livres, porque a liberdade é uma exigência do amor. Criou-nos por amor e com amor indicou-nos o caminho a seguir e com o mesmo soube retirar-se e dar-nos espaço na liberdade. É nesta liberdade e tentados por tantas serpentes que se sabem camuflar tão bem que muitas vezes rejeitamos a vida e escolhemos a morte.

O nosso pecado, a ruptura da nossa relação com Deus tem consequências. A nossa relação com Deus e com os outros é alterada. Deus deixa de ser visto como alguém que cria e cuida e passa a ser visto como alguém terrível de quem se tem de fugir. O outro não é mais alguém em que eu possa confiar totalmente. O outro passa a ser um meio para alcançar os meus fins e por isso para me desculpar eu o acuso. O mundo, no qual eu devia viver em comunhão com Deus, tornou-se o lugar em que me escondo de Deus.

Deus actua neste contexto não como alguém que castiga mas como alguém que quer revelar a alteração provocada pelo mau uso da liberdade humana. Com a presença de Deus tudo torna-se claro. No entanto, o homem confessa o seu medo e a sua nudez mas não confessa o seu pecado. É aqui que está o problema. As perguntas de Deus não são acusatórias mas querem revelar a verdade. Deus quer ajudar o homem a abrir-se à verdade, a tomar consciência do seu pecado. Sem consciência de pecado não há possibilidade de salvação. A experiência de pecado é uma experiência da nossa própria debilidade. No pecado o homem é responsável, livre e consciente mas só até a um certo ponto. Há sempre algo em que nós também somos vítimas. Mas isto só se descobre na nossa relação com Deus.

Depois temos as sanções de Deus sobre o pecado. Mas isto é só aparente. O que Deus faz é constatar a realidade. A única sanção de Deus é sobre a serpente. É ela que é maldita e não o homem e a mulher. A maldição sobre a serpente também tem uma promessa: a serpente será vencida exactamente por um descendente da mulher que a serpente venceu e com a parte do corpo (calcanhar) que é mais propícia para ser atacado pela serpente. O judaísmo e o cristianismo vêem aqui a promessa messiânica. Deus promete que um descendente da mulher, o Messias, acabará com as consequências do pecado e inserirá o mundo numa dinâmica de graça.

Esta promessa messiânica cumpre-se em Jesus de Nazaré, filho de Maria. Jesus é o enviado do Pai que nos vem anunciar a boa-nova do Reino e chamar à conversão. No entanto, nem todos aceitam o convite de Jesus e vão encontrando vários motivos para não aceitarem a sua pessoa e mensagem. O Evangelho de São Marcos deste dia testemunha-nos como os familiares e escribas recusavam ver em Jesus o enviado de Deus e na sua acção a acção de Deus.

Jesus continua a anunciar a boa-nova do reino pela Galileia mas a contestação à sua pessoa e ao seu ensinamento crescem. O evangelho de hoje fala-nos destas controvérsias entre Jesus e os seus familiares e os escribas numa casa onde tinha acorrido muita gente.

Os escribas rejeitam Jesus e acusam-no de ser um endemoninhado que expulsa os demónios pelo chefe dos demónios. A esta acusação e rejeição gravíssima que tem como finalidade desacreditar a sua actividade, Jesus responde através das parábolas do reino dividido e a do homem forte amarrado que mostram a contradição da acusação e a acção de Jesus contra Satanás. Jesus mostra a contradição da acusação que os escribas lhe fazem porque não faz sentido que uma parte de um reino lute contra outra parte do mesmo reino. Na verdade, um reino dividido não se pode aguentar. Se Jesus fosse um endemoninhado que expulsa-se demónios, estaríamos diante de uma autodestruição de Satanás. Assim sendo, o ataque ao domínio de Satanás não provem de Satanás mas de outro que é mais forte que ele e que o atará. É esta a mensagem da parábola do homem forte amarrado. Satanás é o homem forte que é vencido por Jesus. Jesus é o salvador que liberta os homens da escravidão do pecado.

Depois de contar estas duas parábolas, Jesus faz uma afirmação solene: “Tudo será perdoado … mas quem blasfemar contra o Espírito Santo não terá perdão”. Jesus ao afirmar que tudo será perdoado mostra que a derrota do mal será uma derrota plena, universal e definitiva. No entanto, quem recusar ver que a obra que Jesus realiza é a obra de Deus, quem rejeitar os sinais que Jesus lhe oferece está a fechar-se à acção e ao perdão de Deus e quem recusa o perdão não o aceita. Exemplo concreto de rejeição da salvação oferecida por Jesus é a acusação de Jesus estar possuído por um espírito impuro. Na verdade, atribuir a Satanás aquilo que é obra de Deus é blasfemar contra o Espírito Santo. O pecado dos escribas é a recusa em reconhecer a acção de Deus na acção de Jesus. Ao fazer esta afirmação, mais que ameaçar a um castigo eterno, Jesus está a chamar-nos à atenção da possibilidade real de nós na nossa liberdade nos fecharmos à sua oferta de salvação e de perdão.

A resistência em reconhecer a acção de Deus nas acções de Jesus também atinge os próprios familiares de Jesus. Na verdade, estes consideram que Jesus está fora de si e decidem ir busca-lo, ou seja, procuram domina-lo e impedir a sua actividade. Quando os familiares de Jesus chegam ao local onde se encontra Jesus não entram na casa, mas, ficando do lado de fora pedem que seja Jesus a sair da casa para vir ao seu encontro. Os parentes que ficam fora representam o antigo Israel que ao verem como Jesus põe em causa as suas convicções e os chama à conversão, tentam reinserir Jesus nos esquemas tradicionais. No entanto, Jesus não sai ao encontro dos seus parentes e aproveita a presença dos seus familiares para precisar a sua relação com os discípulos. Não é Jesus que tem de sair mas são os outros que tem de entrar porque só aqueles que estão à sua volta e que cumprem a vontade de Deus é que podem ser membro da família de Jesus

Fazer parte da família de Jesus, aceitar a salvação não é algo que nos seja imposto mas é um convite que se nos faz. Jesus não nos obriga mas convida-nos a, na nossa liberdade, aceitarmos a sua salvação, a ouvirmos a sua palavra e a cumprirmos a vontade de Deus. Não utilizemos mal a nossa liberdade com pretextos absurdos e aceitemos o convite à comunhão com Deus, fonte de felicidade, que nos é oferecido em Jesus.

 

P. Nuno Ventura Martins

missionário passionista

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