Ano B – XI Domingo do Tempo Comum

1ª Leitura: Ez 17, 22-24;
Salmo: Sl 91, 2-3. 13-14. 15-16;
2ª Leitura: 2 Cor 5, 6-10;
Evangelho: Mc 4, 26-34.


Neste XI Domingo do Tempo Comum, o Apóstolo Paulo, na sua segunda epístola aos coríntios, recorda a todos os cristãos a sua condição de peregrinos em direcção à pátria definitiva. Na verdade, “enquanto habitamos neste corpo, vivemos como exilados, longe do Senhor”. 

O apóstolo Paulo, depois de ter visto o seu ministério em causa, na comunidade de Corinto, e de os coríntios terem voltado à comunhão consigo, escreve uma nova carta a esta comunidade cristã onde faz a apologia do seu ministério. O texto que escutávamos na segunda leitura de hoje pertence à primeira parte desta carta onde S. Paulo reflecte sobre as dificuldades e alegrias que o ministério apostólico traz consigo e diz que apesar de tudo vale a pena ser fiel ao projecto de Deus porque este conduz-nos ao encontro com o Senhor, à vida plena e definitiva. Assim sendo, Paulo apresenta-nos um contraste entre a vida terrena e a vida futura.

Considerando a vida terrena o tempo do exilio, caracterizado pelo conhecimento parcial e não pleno de Deus, o Apóstolo anseia o encontro com o Senhor. No entanto, tal desejo de se encontrar com o Senhor não é um subterfugio que o dispense do empenho quotidiano neste mundo. Na verdade, os cristãos são peregrinos que caminham em direcção da pátria definitiva, do encontro com o Senhor. Assim sendo, esta caminhada realiza-se com os olhos fixos no além, na meta que desejamos mas também com os pés bem assentes na terra. Os cristãos na sua peregrinação quotidiana não se podem alhear dos problemas deste mundo. Os cristãos tem de se empenhar em ser agradáveis aos Senhor quer habitem no seu corpo quer tenham de sair dele. Caminhando em direcção do encontro com o Senhor, os cristãos tem de viver com fidelidade a sua fé. A esperança do encontro com o Senhor não pode levar os cristãos a negligenciar a vida terrena. Na verdade, quem espera age em função do esperado. A fé não é nem pode ser uma escapatória dos problemas reais do nosso mundo mas é algo que ilumina e fundamenta a nossa actuação concreta neste mundo. A nossa condição de peregrinos pede-nos que antecipemos no aqui e agora da história aquilo que esperamos, ou seja, o reino de Deus. 

No entanto, todos nós sabemos bem as dificuldades que enfrentamos neste esforço quotidiano por ir antecipando, na nossa vida pessoal e social, o reino de Deus. São tantos os fracassos e as dificuldades e são tão poucos os sucessos visíveis e a curto prazo que muitas vezes nos sentimos tristes e desanimados nesta nossa peregrinação cristã em direcção à terra prometida. 
No entanto, as duas parábolas de Jesus que hoje o evangelista Marcos nos transmite devem devolver-nos a confiança e a esperança. 

O evangelho deste domingo, com a parábola do grão que germina e do grão de mostarda, que pertence ao discurso das parábolas, o primeiro dos dois discursos de Jesus que o evangelista Marcos nos transmite. Na verdade, como o evangelista Marcos, anota no final deste dia “Jesus pregava-lhes a Palavra de Deus com muitas parábolas como estas, conforme eram capazes de entender.” Jesus na sua pregação utilizava exemplos retirados da natureza para transmitir a sua mensagem de uma forma clara, viva, interpelante e pedagógica.  Assim sendo, Jesus anunciava a boa-nova do reino através deste género literário habitual no médio oriente que são as parábolas. Através das duas parábolas que escutamos neste domingo Jesus pretende anunciar-nos o reino de Deus e a sua dinâmica.  

A primeira parábola que escutamos neste domingo é a parábola do grão que germina. Ao contar esta parábola, Jesus centra-se mais no dinamismo vital da semente do que no que o agricultor faz. Na verdade, nesta parábola Jesus acentua o facto de a semente crescer por si sem que o agricultor consiga acelerar ou retardar o seu desenvolvimento. Assim sendo, a colheita final não é o resultado dos esforços do agricultor mas do dinamismo da semente. O agricultor semeia a semente e no final procede à colheita. Entretanto deita-se e levanta-se e a semente cresce por si. É a semente que cresce automaticamente por si mesma de uma forma silenciosa mas eficaz. A semente do Reino de Deus que foi lançada à terra, apesar das dificuldades do terreno, germina e cresce. 

Com esta parábola, Jesus mostra-nos que o reino de Deus mais do que um esforço e uma conquista humana é puro dom e graça. O Reino de Deus não é um produto do Homem. Apesar da colaboração necessária do Homem, é obra da graça. Assim sendo, todos nós que peregrinando neste mundo vamos tentando antecipar o reino de Deus no aqui e agora da história não devemos ser pessimistas diante dos nossos fracassos e das dificuldades que vão surgindo mas devemos ser pessoas que tem esperança e confiam na força na força do evangelho. Assim como a semente, de uma forma silenciosa e lenta, germina e cresce vencendo os obstáculos que encontra, assim o reino de Deus contem em si um dinamismo que o leva a desenvolver-se automaticamente. 

É provável que está parábola de Jesus seja dirigida de uma forma especial aos zelotas, aos fariseus e aos apocalípticos que através da violência, da observância da lei e de cálculos precisos, respectivamente, pretendiam antecipar a irrupção do reino de Deus. Ao contar a parábola do grão que germina Jesus diz-nos que a irrupção do reino é obra de Deus e que não adianta forçar a vinda do reino de Deus. Além disto, também nos assegura que esse reino desenvolve-se não através da violência e do espectáculo mas de uma forma silenciosa mas eficaz. Assim sendo, não devemos perder a nossa confiança e esperança em Deus. 

A segunda parábola que Jesus conta no evangelho deste dia é a do grão de Mostarda que nos mostra o contraste entre a pequenez do início e a magnificência do final. Jesus recorre a imagem da mostarda. Na verdade, segundo a opinião dos rabinos, o grão de mostrada é a mais pequena de todas as sementes. No entanto, esta pequena semente dá origem a uma árvore que nas margens do lago de Tiberíades pode chegar aos três metros de altura e que acolhe nos seus ramos as aves do céu que aí se queiram abrigar.

Ao contar esta parábola Jesus diz-nos que, apesar dos seus começos muito humildes, o reino de Deus transforma-se numa árvore gigantesca que a todos pode abrigar, oferecendo protecção e paz. Deus serve-se de algo pequeno e insignificante mas que está destinado a abranger todo o mundo e a todos dar a salvação. 

É esta também a mensagem que o profeta Ezequiel nos transmite na primeira leitura deste domingo. Dirigindo-se ao povo exilado na Babilónia o profeta convida o povo à esperança porque Deus não se esquece do seu povo e irá restabelecer a dinastia de David em Jerusalém. No entanto, este projecto de salvação, apresentado com a imagem do ramo novo arrancado do cedro frondoso e plantado na montanha de Israel, concretiza-se através da estranha lógica de Deus que servindo-se daquilo que é fraco, pobre e humilde consegue vencer o orgulho e a prepotência dos poderosos. 

Assim sendo, quer a primeira leitura quer o evangelho deste domingo animam-nos nesta peregrinação que estamos a fazer em direcção à pátria definitiva de que nos falava a segunda leitura deste domingo. As parábolas de Jesus e o oraculo de Ezequiel são um convite à esperança, à confiança e à paciência. Devemos continuar o nosso caminho em direcção ao encontro com o Senhor sempre com uma esperança activa porque quem espera age em função do esperado. Mas não nos esqueçamos que o reino de Deus mais do que uma conquista do Homem é dom de Deus que já está a actuar na nossa história. Ante as dificuldades e as aparentes derrotas não percamos a esperança mas confiemos sempre na força dos pequenos gestos.

P. Nuno Ventura Martins

missionário passionista

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