Ano B – XIX Domingo do Tempo Comum

1ª Leitura: 1 Reis 19, 4-8;
Salmo: Sl 33, 2-3. 4-5. 6-7. 8-9;
2ª Leitura: Ef 4, 30 – 5, 2;
Evangelho: Jo 6, 41-51.


É-nos familiar o desabafo do profeta Elias que escutamos na primeira leitura deste XIX Domingo do Tempo Comum: “Já basta Senhor”. Na verdade, as dificuldades e as peripécias que vão aparecendo no nosso caminho de crentes, no nosso caminho de discípulos de Jesus muitas vezes levam-nos à tentação do desânimo, de desistirmos daquilo a que consagramos a nossa vida e as nossas forças. 

A situação que levou o profeta Elias a este estado de desânimo foi uma situação de incompreensão total e de perseguição. Na verdade, Elias, num tempo em que a fé em Deus estava ameaçada pelo culto ao ídolo Baal e pelos seus profetas, aparece como o profeta zeloso de Deus que defende a fidelidade a Deus e à lei. Um episódio característico deste zelo do profeta é o episódio do Monte Carmelo onde o profeta Elias, num duelo com os profetas de Baal, mostra a veracidade do Deus de Israel e a falsidade de Baal e dos seus profetas. Este episódio do Monte Carmelo termina com a execução dos 400 profetas de Baal. 

Quem não ficou contente com este episódio Jezabel, esposa de origem fenícia do Rei Acab. Na verdade, Jezabel ao saber o que Elias tinha feito aos profetas de Baal disse-lhe: “Que os deuses me tratem com o maior rigor, se amanhã, a esta mesma hora, não fizer da tua vida o mesmo que tu fizeste da vida dele” (1 Rs 19, 2). Assim sendo, o profeta Elias ante a ameaça de morte foge para salvar a sua vida. 

É este contexto da primeira leitura deste domingo. Elias fugindo da morte chega à zona de Beer-Sheba, entra no deserto e depois de ter caminhado um dia senta-se debaixo de um junípero e diz ao Senhor: “Já basta, Senhor!” Elias está totalmente desanimado, abatido, sozinho e cheio de medo. Elias sente que a sua missão falhou e sofre por isso. 

Muitas vezes também nós nos sentimos assim tristes, abatidos e prontos a desistir de tudo. É aquele problema que surge na vida da família. É aquele sofrimento e perseguição que surge quando defendo a justiça e a verdade e não entro em esquemas de corrupção. É aquela incompreensão e marginalização que aparece quando sem medo e com ousadia professo a fé cristã em ambientes pouco ou muito adversos. É aquela sensação de solidão nos momentos em que mais necessidade tenho de sentir a presença e a ajuda de Deus. É aquela luta interior que travo para vencer tantas tentações e que me deixa sem forças. Tantas e tantas situações que nos levam a dizer ao Senhor aquilo que Elias lhe disse: “Já basta, Senhor!”.

No entanto, nestes momentos, Deus não está ausente de nós. Ele está bem próximo e preocupado connosco. Ele dirige-nos a sua palavra, alimenta-nos e fortalece-nos assim como o fez ao profeta Elias: “Levanta-te e come, porque ainda tens um longo caminho a percorrer”. 

É curioso que Deus não tira o seu profeta da provação, não o isenta das canseiras e não o dispensa da viagem que deve fazer. Deus não anula a missão e os perseguidores do profeta. A única coisa que Deus faz é oferecer ao seu profeta o alimento necessário, é oferecer ao seu profeta pão cozido sobre as pedras quentes e água. E diz-nos o texto que: “Elias levantou-se, comeu e bebeu. Depois, fortalecido com aquele alimento, caminhou durante quarenta dias e quarenta noites até ao monte de Deus, Horeb.” Aquele alimento é a prova de todo o amor, proximidade, carinho e solicitude de Deus para como o Homem. Deus não elemina os obstáculos que aparecem no caminho mas faz mais do que isso: dá-nos a força necessária para ultrapassar e superar esses obstáculos. 

É por isso que Elias depois de comer do alimento dado por Deus caminha por 40 dias, número simbólico de uma geração, em direcção ao monte Horeb, àquele monte onde Deus deu a Moisés a Lei. Elias, fortalecido por Deus, volta às origens para aí revitalizar a sua fé e a sua missão profética. Muitas vezes nos momentos de crise e de provação temos de fazer memória, de voltar a fazer a experiência daquele Amor primeiro. 

A história de Elias é a nossa história: história de desânimos mas também história da presença confortante e revigorante de Deus. Na verdade, Deus não se esquece de nós, não está alheio aos nossos problemas e dificuldades. O seu amor por nós é grande de mais para nos abandonar mas também é grande de mais para nos substituir. Deus está ao nosso lado indicando-nos o caminho que devemos seguir e oferecendo-nos o pão necessário para nos fortalecer na nossa caminhada. 

Mas que pão é este que Deus nos oferece e que nos alimenta e fortalece no nosso caminho? O Evangelho de S. João que escutamos neste domingo oferece-nos a resposta: é Jesus o Pão da vida. Estamos no capítulo VI do evangelho de S. João, o discurso no Pão da Vida. Neste capítulo, Jesus, na sinagoga de cafarnaum, depois da multiplicação, profere um discurso onde se apresenta como o Pão da vida. 

Jesus é o pão que desceu dos céus e que nos alimenta. Quando falamos de Jesus como o pão vivo descido do céu lembramo-nos logo e bem do pão eucarístico. Na verdade, Jesus no final do Evangelho de hoje afirma: “O pão que hei-de dar é a minha carne, que eu darei pela vida do mundo”. Em cada eucaristia somos convidados a alimentarmo-nos do corpo de Jesus. É comungando que somos fortalecidos. 

No entanto, Jesus como o pão vivo que desceu do céu não se refere só a espécies eucarísticas mas também à Palavra de Deus. “Nem só de pão vive o homem mas de toda a Palavra que sai da boca de Deus.” Jesus, a Palavra de Deus feita carne, também nos alimenta ao dar-nos o pão da Palavra de Deus. É a Palavra de Deus que nos indica o caminho, dá ânimo e consolo para o caminho. Alimentar-se de Jesus, o Pão da vida, é ouvir as suas palavras e seguir o seu estilo de vida concreto. 

No entanto, nem sempre é fácil para nós reconhecer em Jesus, na sua mensagem e na sua pessoa, um verdadeiro caminho de vida e vida plena. As vezes, ao confiarmos mais nas nossas forças e nos valores do mundo, pensamos que nem Jesus nem a sua Palavra nos podem conduzir à felicidade, àquela vida e vida em abundância que todos nós desejamos. Esta situação não é nova e já nos é narrada no evangelho de hoje. Na verdade, os judeus murmuravam contra Jesus e recusavam ver nele o Pão descido do Céu. Afirmando que conhecem a sua ascendência humana recusam-se a aceitar Jesus como o Pão descido do céu para dar vida e vida em abundancia ao homem. Os judeus fechados nas suas certezas e no seu estilo de vida rejeitam Jesus, o pão vivo descido do céu que traz aos homens a vida de Deus. 

Pode acontecer que muitos de nós tenhamos chegado a esta eucaristia cansados e desanimados e a dizer “Já basta Senhor.” Preocupado connosco, o Senhor oferece-nos Jesus, o pão da vida descido do céu na Palavra proclamada e no Sacramento do Altar para nos fortalecer e ajudar a ultrapassar as nossas dificuldades. Será que temos a coragem de receber este alimento que Deus nos oferece e deixar que ele nos alimente e fortaleça ou será, que no meio das nossas certezas e arrogância, dizemos como aqueles Judeus em Cafarnaum que Jesus não é nem pode ser o pão da vida. 

Aproveitemos esta Eucaristia e alimentemo-nos, saciemo-nos deste Pão da Vida que nos é distribuído, a Palavra e o Corpo do Senhor, e assim recuperemos as nossas forças para prosseguirmos o nosso caminho.

P. Nuno Ventura Martins

missionário passionista

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