Ano B – XV Domingo do Tempo Comum

1ª Leitura: Amós 7, 12-15;
Salmo: Sl 84, 9ab-10. 11-12. 13-14;
2ª Leitura: Ef 1, 3-14 ou Ef 1, 3-10;
Evangelho: Mc 6, 7-13.

 

A liturgia da Palavra do XV Domingo do Tempo Comum convida-nos a reflectir sobre o projecto que Deus tem para cada um de nós e como nós somos chamados e enviados ao mundo para que esse projecto de Deus não seja uma mera utopia mas uma realidade concreta.

A segunda leitura deste dia, retirada da epístola do Apóstolo Paulo aos cristãos de Éfeso, oferece-nos um hino litúrgico que certamente as comunidades cristãs já utilizavam antes de Paulo o usar na sua carta aos efésios. A carta aos efésios é uma das cartas que melhor sintetiza a teologia do Apóstolo Paulo. Um dos temas, entre outros, que Paulo aborda nesta carta é o mistério. Quando falamos em mistério pensamos logo em algo secreto, algo que tem uma causa oculta, algo que nos parece inexplicável ou algo que a razão humana é incapaz de compreender. No entanto, para o apóstolo Paulo mistério não é isto. O mistério, para o apóstolo Paulo, é o desígnio salvífico de Deus que existindo desde sempre vai realizando-se na história através de eventos e palavras intimamente conexos e que encontra a sua plenitude no mistério de Cristo.

É este projecto salvador de Deus que o hino, que escutávamos na segunda leitura, apresenta. Este hino é uma acção de graças a Deus, em forma de bênção, porque “do alto dos céus nos abençoou com toda a espécie de bênçãos espirituais em Cristo”. Na bênção, o homem bendiz a Deus pelas bênçãos recebidas. Segundo este hino, são seis as bênçãos que Deus nos concede através de Jesus: o chamamento dos eleitos a uma vida santa e irrepreensível; a filiação divina em Cristo, a obra da redenção pela cruz de Cristo, a revelação do mistério da sua vontade; a eleição de Israel e o chamamento dos gentios para que também eles usufruam da salvação oferecida por Deus a Israel. 

Deus, no seu amor gratuito, chama-nos a ser santos e irrepreensíveis. Além disto, Deus predestina-nos a ser seus filhos adoptivos através de Jesus Cristo. Na verdade, é através de Jesus que se manifesta todo o Amor de Deus pela humanidade e que nos é concedida graça sobre graça. O amor de Deus, revelado na cruz de Cristo, torna-nos pessoas novas, torna-nos filhos de Deus no filho Jesus. Não nos podemos esquecer que o baptismo, pelo qual nos tornamos filhos de Deus, é uma participação no mistério pascal de Cristo. Graças ao mistério pascal de Cristo, à acção redentora de Cristo nasce uma humanidade nova. 

Deus dá-nos assim a conhecer o mistério da sua vontade: “deu-nos a conhecer o mistério da sua vontade: segundo o beneplácito que n’Ele de antemão estabelecera, para se realizar na plenitude dos tempos: instaurar todas as coisas em Cristo, tudo o que há nos céus e na terra”. Instaurar todas as coisas em Cristo, regenerar e reunir todo o mundo criado, que o pecado corrompeu e dissociou, em Cristo e conduzi-lo de novo a Deus é esta a vontade de Deus. Em palavras mais simples podemos dizer que a vontade de Deus é que o seu amor e a sua salvação, que se revelam em Cristo, alcancem e transformem toda a criação. 
Mas como colaborar e levar a cabo esta vontade de Deus de “instaurar todas as coisas em Cristo”? O evangelho deste dia, ao oferecer-nos uma catequese sobre a missão dos discípulos de Jesus no meio do mundo, ajuda-nos a compreender o nosso papel e a nossa missão neste projecto de Deus. 

O texto evangélico deste dia pertence à primeira parte do evangelho de S. Marcos. Nesta parte, o evangelista apresenta-nos um Jesus que é o Messias e que proclama o reino de Deus. É nesta parte que Jesus chama os discípulos e os vai formando nos valores do Reino. A certa altura, como nos narra o evangelho de hoje, Jesus envia os seus apóstolos, dois a dois, a anunciar e a tornar realidade, no aqui e no agora da história, o reino de Deus. Os apóstolos, chamados e convocados, foram instruídos por Jesus e depois disto foram, por Ele, enviados em missão de salvação. Assim sendo, fica bem claro que a iniciativa do chamamento e da missão não pertence ao homem mas a Deus. Não somos nós que decidimos ir anunciar o Reino de Deus, é Cristo que nos chama e envia. O reino de Deus não é uma obra humana mas é obra de Deus.

Marcos refere, no seu evangelho, que só 12 é que foram enviados. O número 12 é um número simbólico. Na verdade, eram 12 as tribos que formavam o povo de Deus. Assim sendo, ao dizer que foram doze os enviados, Marcos está a dizer que a totalidade do povo de Deus é enviada em Missão. A missão não é uma responsabilidade só de alguns mas da totalidade da Igreja, novo Povo de Deus nascido da Páscoa do Senhor. 

Em seguida, Marcos diz-nos que Jesus os enviou dois a dois. Também isto tem um significado. Na verdade, para além do costume judaico de viajar acompanhado, não nos podemos esquecer que, segundo a mentalidade de então, eram necessárias duas testemunhas para se dar credibilidade a um anúncio. Além disto, o facto de os apóstolos irem dois a dois também nos revela a dimensão comunitária que a missão possui. A missão que realizamos é a missão da Igreja. Assim sendo, aquilo que somos chamados e enviados a anunciar é a fé da Igreja, da comunidade e não as nossas ideias pessoais. Assim, a missão nunca deve ser realizada à margem da comunidade. 

Depois destas indicações, Marcos apresenta-nos as instruções que Jesus dá para a missão. Quando nos referimos, em vários contextos, a estas instruções referimos e sublinhamos logo o desprendimento, ou seja, lembramo-nos logo daquilo que temos de deixar para ir anunciar o evangelho. No entanto, no evangelho de Marcos, a primeira instrução de Jesus é que levem para a sua missão um cajado, um bastão. Só depois disto é que diz o que não devem levar. Que significará este bastão? Será que se refere unicamente aquele pau que ajuda os peregrinos a caminhar ou quer indicar algo mais?

Se deixarmos a nossa memória actuar lembramo-nos de uma personagem bíblica cuja vida é inseparável de um cajado: Moisés. Foi com o cajado de Aarão que Moisés se apresentou diante do Faraó, foi com um cajado que Moisés Abriu o mar para o povo passar, foi com um cajado que Moisés bateu na rocha para que dela brotasse água (cf. Êxodo). Penso que este cajado quer simbolizar  Deus que acompanha o seu povo na sua caminhada e missão e que é a sua força e vida.

O nosso cajado é a Cruz de Cristo: ela é o nosso apoio no caminhar e é nela que descobrimos o amor de Deus. Tendo Deus a caminhar connosco podemos deixar tudo. Como diz o hino de completas: “nada temo porque vós estais comigo”. Se Deus está connosco podemos deixar de confiar nas seguranças humanas. Confiar nas seguranças humanas é não confiar em Deus que nos acompanha. Os enviados em missão devem ser pessoas totalmente livres. A preocupação pelos bens materiais pode interferir e terminar com a liberdade e a disponibilidade para a missão. Além disto, a ausência de seguranças humanas mostra que a eficácia da missão não depende dos recursos humanos mas de Deus.

Mas em que consiste a missão a que são enviados? Jesus dá aos seus discípulos o poder sobre os espíritos impuros. Os discípulos devem libertar o homem de tudo aquilo que o escraviza e o impede de viver uma vida em abundância. Assim sendo, os discípulos, na sua missão, pregam o arrependimento e curam. Anúncio da Palavra e promoção humana foi esta a missão de Jesus e é esta a tarefa a que estamos chamados! 

Que a celebração deste domingo desperte em nós o louvor e o empenho missionário. O louvor por todas as bênçãos que Deus nos concede. O empenho missionário porque somos nós hoje os continuadores da missão de Jesus. Somos nós hoje, os pés e as mãos, com que Cristo continua a ir ao encontro dos homens e a oferecer-lhes a salvação.

P. Nuno Ventura Martins

missionário passionista

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