Ano B – XVII Domingo do Tempo Comum

1ª Leitura: 2 Re 4, 42-44;
Salmo: Sl 144, 10-11. 15-16. 17-18;
2ª Leitura: Ef 4, 1-6;
Evangelho: Jo 6, 1-15.


Neste XVII Domingo do Tempo Comum, o Apóstolo Paulo recomenda “que vos comporteis segundo a maneira de viver a que fostes chamados”, ou seja, pede-nos que sejamos coerentes com o nosso nome de cristãos. Ser cristão não é um mero nome mas é um estilo de vida concreto. 

A presente carta aos Efésios é uma carta circular às igrejas da Asia Menor que Paulo escreve da prisão e que é uma síntese sólida, madura e bem elaborada da sua teologia. O texto que, neste domingo, é-nos oferecido como segunda leitura é o início da parte exortativa da carta onde o Apóstolo apresenta caminhos concretos que os cristãos devem seguir. 

A exortação que Paulo dirige aos cristãos de Éfeso torna-se mais eloquente pelo facto de ele ser um “prisioneiro pela causa do Senhor”. Na verdade, Paulo testemunha com a sua vida a fidelidade aos valores de Jesus. A sua recomendação não se reduz a meras palavras mas é acompanhada pelo seu exemplo concreto, exemplo de quem é capaz de entregar a sua vida pelos valores que propõe. 

Na leitura de hoje, Paulo exorta os cristãos a viverem na humildade, mansidão, paciência, caridade, unidade e paz. O Apóstolo Paulo exorta os cristãos a viverem valores que os ajudem a ser uma verdadeira comunidade. Na verdade, a humildade é o contrário do orgulho; a mansidão é o antónimo da violência; a paciência é o oposto da incompreensão. Paulo recomenda tudo aquilo que cria unidade e evita a divisão. Paulo propõe a caridade, uma caridade que não fica em meras palavras mas que é capaz de ser suporte, ajuda, para os irmãos. 

Assim sendo, os cristãos devem fazer um esforço, devem empenhar-se por viver na unidade e na paz. Na verdade, a unidade é uma exigência que nasce da nossa própria fé: “Há um só Corpo e um só Espírito, como há uma só esperança na vida a que fostes chamados. Há um só Senhor, uma só fé, um só Baptismo. Há um só Deus e Pai de todos, que está acima de todos, actua em todos e em todos Se encontra.” A unidade que estamos a chamados a viver e a construir tem a sua fonte no Deus Trinitário. A unidade é um dom de Deus que o homem deve acolher e cooperar. Só vivendo assim é que estaremos a viver segundo a maneira que fomos chamados a viver. 

O evangelho de hoje também nos apresenta um caminho concreto de como devemos e podemos viver a unidade. O evangelho de hoje, com a pergunta que Jesus dirige a Filipe, interpela a todos os cristãos de todos os tempos e de todos os lugares: “Onde havemos de comprar pão para lhes dar de comer?” Jesus envolve os seus discípulos na procura de uma solução para a fome que atinge a multidão. Na verdade, para quem vive na unidade as necessidades dos irmãos não são indiferentes e pedem-nos uma resposta.

Começamos hoje a ler o capítulo VI do evangelho de São João que nos acompanhará nos próximos domingos. O evangelista João, partindo de imagens concretas (água, pão, luz, pastor e ressurreição), pretende apresentar a figura e a missão de Jesus. Assim sendo, a partir da imagem do Pão, de que nos fala o evangelho de hoje, João pretende mostrar que Jesus é o verdadeiro Moisés, libertador que dá ao seu povo o verdadeiro maná descido dos céus. João quer mostrar que Jesus é o verdadeiro pão que alimenta e sacia o homem. 

O texto evangélico hoje proclamado é conhecido como a multiplicação dos pães. Certamente que o episódio de Eliseu que ordena a um homem que lhe trazia vinte pães que os desse de comer a cem pessoas, episódio este que escutamos na primeira leitura deste dia, foi para os evangelistas um modelo inspirador do relato da multiplicação dos pães que encontramos em todos os evangelhos. Este episódio da multiplicação dos pães é um sinal proeminente da missão messiânica de Jesus e representa um momento de viragem no caminho de Jesus, porque a partir daqui ele começa a sua caminhada para a cruz.

O texto evangélico de hoje começa com alguns dados que nos evocam Moisés e o episódio do Êxodo. Na verdade, Jesus passa para a outra margem do mar, sobe a um monte, segue-o uma grande multidão e o evangelista refere-nos que tudo isto se passa na altura da festa da Páscoa, daquela festa que celebrava a libertação do Povo de Deus da escravidão do Egipto e a sua constituição como Povo. Também aqui, como na caminhada do povo em direcção à terra prometida, deparamo-nos com a fome do povo e com a dádiva, por parte de Deus, de pão que sacia a sua fome. Todos estes paralelismos indicam-nos que é Jesus o novo Moisés, o novo libertador do povo, aquele que vai estabelecer a nova e definitiva aliança. Na verdade, é isto que o próprio povo, com uma concepção algo distorcida de messias, afirma depois do episódio da multiplicação dos pães: “Este é, na verdade, o profeta que estava para vir ao mundo”. 

Mas centremo-nos no episódio da multiplicação dos pães. O episódio começa, por assim dizer, com a constatação de Jesus de que o povo tem fome. É Jesus que se apercebe da fome, da necessidade do povo e é Ele que toma a iniciativa de resolver a situação envolvendo os seus discípulos. Jesus está atento às necessidades do homem, é o Deus compassivo e cheio de bondade que está atento as dificuldades do povo e lhe oferece a salvação. 

No entanto, o Senhor Jesus, para resolver a fome do povo, envolve os seus discípulos e pergunta a Filipe: “Onde havemos de comprar pão para lhes dar de comer?”. Jesus quer envolver os discípulos, quer ver como aqueles que são formados nos valores do evangelho pensam responder ao problema da fome do mundo. Filipe afirma que recorrendo ao sistema económico de compra e venda baseado no lucro não se conseguirá resolver a situação, porque nem duzentos denários, ou seja, o salário de duzentos dias de trabalho seria suficiente para alimentar aquela multidão. André apresenta então um menino com cinco pães e dois peixes. No entanto, André não acredita que isso resolverá a fome daquelas cinco mil pessoas. Mas será exactamente esses cinco pães e dois peixes com a bênção de Deus que alimentarão o povo e ainda encherão doze cestos de sobras. Prestemos atenção aos pormenores. Cinco pães e dois peixes dão o resultado de sete e sete é o número da totalidade. E quem dá a totalidade daquilo que tem não é um rico ou um poderoso mas um menino, uma pessoa humilde, que sabe partilhar o que tem e é. 

Sobre os alimentos apresentados pelo menino, Jesus pronuncia a bênção. Pela bênção, pela acção de graças reconhece-se que os alimentos mais que uma conquista e uma aquisição humana são dons de Deus, dons que Deus dá a todos e não só a alguns. Na verdade, no Pai-nosso, quando se pede o pão de cada dia não se pede só para o individuo que o reza mas pede-se para o nós da comunidade. Pela acção de graças, pela bênção de Jesus reconhece-se que os alimentos não são posse de alguns mas dom de Deus para todos os homens. 

E é assim que a comunidade partilhando tudo aquilo que tem e através da bênção de Deus que nos leva a reconhecer que os alimentos são dom de Deus para todos e não posse exclusiva de alguns que a fome daquela multidão é saciada. E não só é saciada a fome da multidão como as sobras ainda enchem 12 cestos. Doze eram as tribos do povo de Deus, a totalidade do Povo de Deus. Dizer que as sobras encheram 12 cestos quer dizer que quando a comunidade for capaz de partilhar a totalidade do que tem e é o problema da fome do mundo terminará. 

O milagre da multiplicação dos pães pede e supõe a partilha do que temos e somos. São Paulo pedia-nos que nos comportássemos segundo a maneira de viver a que fomos chamados, a que vivêssemos na unidade. Viver na união exige e pede a partilha do que temos e somos. “Se alguém possuir bens deste mundo e, ao ver seu irmão passar necessidade, lhe fecha o coração, como pode estar nele o amor de Deus?” (1 Jo 3, 17). Em tempos de crise, o único caminho possível e eficaz que se apresenta diante de nós é o caminho da solidariedade. Na verdade, o que temos é dom de Deus, um dom para ser partilhado e repartido e não para ser conservado egoisticamente.

P. Nuno Ventura Martins

missionário passionista

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *