Ano B – XXII Domingo do Tempo Comum

1ª Leitura: Deut 4, 1-2. 6-8;
Salmo: Sl 14, 2-3a. 3cd-4ab. 4c-5;
2ª Leitura: Tg 1, 17-18. 21b-22. 27;
Evangelho Mc 7, 1-8. 14-15. 21-23.


Na segunda leitura deste XXII Domingo do Tempo Comum, Tiago exorta-nos: “Sede cumpridores da palavra e não apenas ouvintes, pois seria enganar-vos a vós mesmos”. Quando lemos ou escutamos a Palavra de Deus não lemos ou ouvimos uma mera palavra informativa mas uma palavra performativa, uma palavra que nos leva à acção, que pede que actuemos de uma maneira concreta, porque “a religião pura e sem mancha, aos olhos de Deus nosso Pai, consiste em visitar os órfãos e as viúvas nas suas tribulações e conservar-se limpo do contágio do mundo ”. A palavra de Deus deve conduzir-nos à acção. A escuta da Palavra de Deus não nos fecha numa religião desencarnada, ritualista, legalista e externa mas leva-nos à conversão, ao amor a Deus e aos irmãos. 

Assim sendo, seguindo o conselho de S. Tiago, devemos, neste Domingo, prestar muita atenção à Palavra de Deus que foi proclamada para depois de a escutarmos e de a entendermos melhor a pormos em prática. Leitura, meditação e acção: este deve ser o itinerário sempre que lemos a Sagrada Escritura. 

A liturgia da Palavra deste XXII Domingo convida-nos a reflectir sobre a lei de Deus, sobre esta dádiva de Deus ao seu povo que mais do que aprisionar e tirar a liberdade é um caminho de vida e de felicidade. 

A primeira leitura deste dia é retirada do Livro do Deuteronómio. Este livro do Pentateuco é um conjunto de três discursos que Moisés, nas vésperas da sua morte, dirige ao povo como uma espécie de testamento espiritual. Nestes discursos, Moisés relembra o povo da aliança feita com o Senhor Deus e pede que o povo renove a sua aliança com Deus. 

O trecho do livro do Deuteronómio que hoje foi proclamado pertence ao primeiro discurso que Moisés dirigiu ao Povo. Moisés, neste primeiro discurso, faz um pequeno resumo da história do povo, recorda a acção de Deus ao longo da caminhada do Povo em direcção à terra da promessa. Depois de apresentar esta síntese da história do Povo, Moisés, em estilo exortativo, recorda a aliança entre Deus e o povo e as exigências que dai nascem. A leitura que foi proclamada neste domingo pertence a esta segunda parte do primeiro discurso de Moisés. 

Depois de ter recordado todas as acções de Deus em benefício do seu povo, de recordar as intervenções salvadoras de Deus na história do Povo, Moisés apresenta as leis e os preceitos de Deus: “Agora escuta, Israel, as leis e os preceitos que vos dou a conhecer e ponde-os em prática, para que vivais e entreis na posse da terra que vos dá o Senhor, Deus de vossos pais.” 

São dois os motivos que devem levar o povo a acolher e a praticar a lei de Deus: a gratidão por tantos benefícios que Deus concedeu ao seu povo e a certeza que a lei do Senhor é um caminho de felicidade e de liberdade. Além disto, a lei do Senhor dá ao povo a consciência de ser um povo especial para Deus: “Que povo tão sábio e tão prudente é esta grande nação! Qual é, na verdade, a grande nação que tem a divindade tão perto de si como está perto de nós o Senhor, nosso Deus, sempre que O invocamos? E qual é a grande nação que tem mandamentos e decretos tão justos como esta lei que hoje vos apresento?”

No entanto, Israel ante o dom da lei deve ter cuidado para não cair na tentação de adulterar a lei que o Senhor lhe deu: “Não acrescentareis nada ao que vos ordeno, nem suprimireis coisa alguma, mas guardareis os mandamentos do Senhor vosso Deus.” Na verdade, há sempre a tentação de suprimir o que não gostamos, de acrescentar o que desejaríamos ouvir ou de suavizar a Palavra e a lei de Deus segundo os nossos interesses e desejos pessoais. Há que saber aceitar e respeitar a lei de Deus na sua totalidade. A Palavra de Deus é uma dádiva sagrada de Deus que deve ser acolhida e cumprida na sua totalidade.

O evangelho deste dia também se refere à lei, melhor dizendo, às tradições humanas e alerta-nos para uma atitude incorrecta no cumprimento da lei: a hipocrisia. O evangelho deste dia conta-nos a reacção dos fariseus e dos escribas ante o facto dos discípulos de Jesus comerem sem lavar as mãos. Conforme nos esclarece o evangelista Marcos, o facto de lavar as mãos antes de comer mais que uma questão de higiene era uma questão religiosa, uma tradição dos antigos que se prende com a questão da pureza. Na verdade, na época de Jesus tinham sido absurdamente ampliadas e criaram uma certa obsessão com os rituais de purificação que deviam ser realizados no dia-a-dia.   

Estes rituais de purificação a que se refere o evangelho de hoje fazem parte da tradição dos antigos. Esta tradição dos antigos era composta por 613 leis, 248 de formulação positiva e 365 de formulação negativa, que eram consideradas pelos fariseus o meio de tornar o povo de Deus santo e assim apressar a vinda do messias. No entanto, o povo tinha grande dificuldade em conhecer e cumprir na sua totalidade a tradição dos antigos, estas leis orais que regulavam os mais variados aspectos da vida quotidiana. 
Os escribas e os fariseus ao verem que os discípulos de Jesus não cumpriam as regras da pureza ritual perguntaram a Jesus: “Porque não seguem os teus discípulos a tradição dos antigos e comem sem lavar as mãos?” Com tal pergunta os fariseus queriam testar Jesus na sua ortodoxia e respeito pela tradição dos antigos. 

Ante esta interpelação, Jesus denuncia, citando a escritura, uma atitude errada dos fariseus: a sua hipocrisia e a sua obsessão em cumprir só as regras exteriores caindo assim num formalismo religioso que não se preocupa com a vontade de Deus. Jesus, citando Isaías, denunciou a esterilidade e a hipocrisia de um culto, de um formalismo legal que só se preocupa com práticas externas e não com a vontade de Deus. É inútil um culto que se reduz ao exterior e às aparências e não se preocupa com a vontade de Deus. De nada vale um cumprimento escrupuloso de certas regras exteriores se a vontade de Deus não for a referência fundamental da nossa vida. 

Depois desta advertência aos fariseus e escribas, Jesus dirige-se à multidão e oferece-lhe a verdadeira regra da pureza: “não há nada fora do homem que ao entrar nele o possa tornar impuro. O que sai do homem é o que o torna impuro”. Assim sendo, não é preciso estar obcecado com os ritos de purificação antes de comer para que não se toque com as mãos impuras os alimentos e assim se ingira a impureza. A preocupação com as regras externas de pureza ritual é estéril. O que é necessário é estar atento ao interior.

Na verdade, é daí que sai aquilo que torna impuro o homem: “maus pensamentos, imoralidades, roubos, assassínios, adultérios, cobiças, injustiças, fraudes, devassidão, inveja, difamação, orgulho, insensatez”. É isto que torna o homem impuro e é em evitar estes vícios que o homem se deve esforçar. 

Que a celebração deste XXII Domingo, que nos ofereceu a Palavra de Deus, nos ajude a não sermos apenas ouvintes da Palavra de Deus mas seus cumpridores. Nos ajude a evitar uma religião hipócrita que apenas se preocupa com práticas exteriores e que não se esforça por cumprir a vontade de Deus.

P. Nuno Ventura Martins

missionário passionista

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