Ano B – XXIV Domingo do Tempo Comum

1ª Leitura: Is 50, 5-9a;
Salmo: Sl 114, 1-2. 3-4. 5-6. 8-9;
2ª Leitura: Tg 2, 14-18;
Evangelho: Mc 8, 27-35.


A menos de um mês de iniciarmos o Ano da Fé, a liturgia da Palavra deste XXIV Domingo do Tempo Comum oferece-nos dois textos belíssimos sobre a fé que muito nos podem ajudar a preparar e a viver melhor esta oportunidade de aprofundarmos e professarmos a nossa fé. Refiro-me à confissão de fé que Pedro faz no evangelho deste Domingo e à reflexão sobre a fé e as obras que S. Tiago nos oferece na segunda leitura. 

No texto evangélico deste domingo, texto central na estrutura do evangelho de Marcos pois marca a passagem da primeira para a segunda parte do evangelho, Jesus começa por fazer uma indagação aos seus discípulos sobre o que pensam os homens sobre Ele. É curioso que para os seus contemporâneos Jesus não representa nenhuma novidade. Na verdade, a resposta que os discípulos dão a Jesus: “Uns dizem João baptista; outros, Elias; e outros um dos profetas”, mostra que os contemporâneos de Jesus vem-no como um homem em continuação com o passado, como um simples homem bom e justo, um profeta. Os contemporâneos de Jesus ainda não descobriram a verdadeira originalidade e novidade de Jesus, ainda não descobriram em Jesus o salvador prometido. Situação semelhante também acontece hoje. Para muitos Jesus é só um homem bom e justo e nada mais do que isso. Muitas das opiniões que ouvimos sobre Jesus reduzem-no a muito pouco, não captam a verdadeira identidade de Jesus.

No entanto, Jesus não se contenta só em saber o que diz a humanidade em geral sobre Ele e por isso pergunta: “E vós, quem dizeis que Eu sou?” Dizer o que os outros pensam de Jesus é fácil pois limitamo-nos a dizer a opinião dos outros e não nos comprometemos com a resposta dada, porque, afinal de contas, a opinião é dos outros e não minha. No entanto, o Senhor quer uma resposta que comprometa cada um dos discípulos pessoalmente. Assim sendo, depois de uma pergunta mais geral, Jesus interroga aqueles que lhe são mais íntimos, aqueles que o seguem e que compartem a vida com Ele sobre o lugar que ocupa nas suas vidas: “E vós, quem dizeis que Eu sou?”.

Esta pergunta que Jesus fez aos seus discípulos há dois mil anos continua a fazê-la a cada um dos homens que hoje se propõe a segui-lo. Hoje como ontem, os discípulos são convidados a revelar as suas expectativas sobre Jesus, o lugar que Ele ocupa nas suas vidas. Esta é uma das perguntas essenciais do itinerário cristão, pois a resposta a esta pergunta revela se Jesus é o fundamento da nossa vida e leva-nos a um compromisso.

Ao fazer a pergunta aos seus discípulos Jesus é simultaneamente aquele que interroga e o objecto da interrogação. É o sujeito e o objecto da interrogação. Este detalhe revela-nos que no nosso relacionamento de discípulos de Cristo, não podemos reduzir Jesus só a um objecto que se possa manipular. 

O discípulo que prontamente responde à pergunta do Mestre é Pedro. Pedro compromete-se ao responder que Jesus é o Messias. Jesus concorda com a resposta de Pedro. Com efeito, Jesus é o Messias, o enviado de Deus para a salvação do seu povo. Contudo, se Pedro e Jesus concordam no termo para a definição da pessoa e missão de Jesus, o mesmo não podemos dizer em relação ao significado que cada um atribui ao conceito de Messias. Pedro pensava num messianismo do tipo apocalíptico e político. No entanto, Jesus não se identifica com este tipo de messianismo. Ele é o Messias, mas a sua missão messiânica será vivida na linha da do servo sofredor de Isaías, daquele servo que ouvíamos falar na primeira leitura deste domingo que não apresenta qualquer resistência à missão confiada por Deus e que a realiza no meio do sofrimento, sofrimento esse que é salvífico. 

Prova de que Jesus entende o seu messianismo na linha do servo sofredor de Isaías é o primeiro anúncio da paixão que Jesus faz depois da confissão messiânica de Pedro em Cesareia de Filipe: “Começou, depois, a ensinar-lhes que o Filho do Homem tinha de sofrer muito e ser rejeitado pelos anciãos, pelos sumos-sacerdotes e pelos doutores da Lei, e ser morto e ressuscitar depois de três dias”. Ao ouvir isto, Pedro escandaliza-se e tenta demover Jesus deste caminho. Na verdade, ele como discípulo de Jesus queria seguir um caminho de triunfo político e bélico e não o caminho do sofrimento e da cruz. É por isso que tenta demover Jesus. 

Ainda hoje acontece a mesma situação. Muitos dos discípulos do Senhor crucificado têm uma imagem do messianismo de Jesus desfigurada e, consequentemente, um seguimento desfigurado. Muitos desejavam que o messianismo de Cristo fosse um messianismo de uma revolução única e exclusivamente social e política. Outros desejavam que o messianismo de Jesus fosse única e exclusivamente espiritual. Outros, por sua vez, desejavam que Cristo fosse um messias que restaurasse de novo a antiga ordem, o ‘status quo’. No entanto, Jesus não se deixa aprisionar pelos nossos esquemas. Jesus, com a sua paixão, morte e ressurreição contínua a contrariar e a destruir as expectativas de triunfo e de poder de cada um dos seus discípulos. 

Todos e cada um dos discípulos de Jesus de Nazaré devem confrontar a sua imagem de Jesus com o Senhor Crucificado. Cristo Crucificado tem de ser o critério hermenêutico e fundacional do pensar e do actuar dos seus discípulos. Os discípulos de Cristo são os seguidores do Senhor Crucificado e por isso, e a exemplo de Jesus, devem seguir o caminho da entrega da sua vida por amor. Do messianismo que o mestre assume resulta um estilo de vida próprio dos discípulos: “Se alguém quiser vir após mim, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me”. Os discípulos do Senhor Jesus, devem seguir o mesmo caminho do mestre. 

Assim sendo, o discípulo tem de fazer silêncio diante da cruz de Cristo e, nesse silêncio, descobrir a revelação do Deus trinitário. Silêncio que deve conduzir à adoração do Deus trinitário e ao empenho quotidiano de vida libertada e libertadora. A ideia que cada um tem de Cristo implica uma forma de seguimento concreta. Contudo, na cruz desmascaram-se todas as falsas imagens de Deus. Cada um dos discípulos de Jesus é discípulo do Crucificado e deve viver num estilo de vida como Ele viveu. A nossa resposta à pergunta de Cristo sobre a sua identidade é um princípio operativo para a vida do discípulo. 

Podemos agora entender melhor a mensagem que S. Tiago nos transmitia na segunda leitura de hoje sobre a relação entre fé e obras. Tiago, na sua carta, mais que fazer polémica entre a relação da fé com as obras, recorda a necessidade de viver uma vida, de seguir um caminho coerente com a fé que se professa. Não há nenhuma contradição entre fé e obras. Há sim uma relação entre a fé e as obras, quem acredita, quem tem fé obrigatoriamente tem de agir de uma determinada maneira. Quem reduz a sua fé a meras teorias, crenças, fórmulas e palavras que não se traduzem em acções concretas de compromisso com Deus e com o próximo está a viver uma farsa. A sua fé não está vida mas está morta. A fé, não se limita às obras, mas manifesta-se nas obras que fazemos. Quem acredita, tem de actuar em função daquilo que acredita. As obras que fazemos não podem desmentir a fé que professamos com os nossos lábios.

Que a celebração deste domingo que nos recordou a necessidade de confessarmos pessoalmente e de uma forma comprometida a nossa fé no Senhor Jesus e de confrontarmos a nossa imagem de Jesus e as nossas expectativas de discípulos com a imagem do Senhor Crucificado nos ajude a vivermos a nossa fé com as obras próprias daqueles que seguem o crucificado: “Se alguém quiser seguir-me renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me”.

P. Nuno Ventura Martins

missionário passionista

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