Ano B – XXIX Domingo do Tempo Comum

1ª Leitura: Is 53, 10-11;
Salmo: Sl 32, 4-5. 18-19. 20 e 22;
2ª Leitura: Hebr 4, 14-16;
Evangelho: Mc 10, 35-45 ou Mc 10, 42-45.


A liturgia da Palavra deste XXIX Domingo do Tempo Comum coloca-nos diante de uma tentação que o próprio Jesus teve de ultrapassar (Cf. Mt 4, 8-10) e que os discípulos de todos os tempos também estão chamados, com a ajuda de Deus, a superar. Refiro-me a tentação do poder, uma das mais subtis e devastadoras. Na verdade, nada impede mais de reconhecer o rosto de Cristo servidor na Igreja do que uma busca desmedida de poder, de influências e de protagonismo. Não deixa de ser sintomático que D. António Couto, Bispo de Lamego, que se encontra em Roma a participar no sínodo sobre “A nova evangelização para a transmissão da fé cristã” tenha deixado aos padres sinodais a seguinte questão: “por que será que os Santos se esforçaram tanto, e com tanta alegria, por ser pobres e humildes, e nós nos esforçamos tanto, e com tristeza (Mt 19,22; Mc 10,22; Lc 18,23), por ser ricos e importantes?” 

No entanto, a tentação do poder não é algo que só seduza os discípulos de hoje. Na verdade, nem os próprios Apóstolos, apesar da constante catequese que Jesus lhes ministra, se viram privados desta tentação, como nos demonstra o evangelho deste domingo. Jesus caminha em direcção ao monte calvário onde vai “dar a vida pela redenção de todos”. Enquanto caminha, Jesus por três vezes anuncia aos discípulos a sua Paixão e forma-os nos valores do Reino. Na verdade, o caminho que Jesus percorre com os seus discípulos mais que um mero caminho geográfico é um caminho formativo e espiritual onde os discípulos são confrontados com os valores e as exigências do Reino e convidados a deixarem a sua excessiva maneira humana de pensar. 

No entanto, os discípulos ante estes ensinamentos de Jesus “estavam espantados, e os que seguiam estavam cheios de medo” (Mc 10, 32). Espantados e cheios de medo, porque os ensinamentos de Jesus contrariam as suas expectativas. Eles querem um reino que passe pelo poder, pela glória e pelo triunfo e Jesus afirma que “não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida pela redenção de todos”. Jesus mostra aos seus discípulos que o seu caminho será o caminho do Servo Sofredor de que nos falava a primeira leitura deste domingo. Na verdade, os cristãos, na imagem do Servo Sofredor de Isaías, encontraram uma chave de litura da vida e morte de Jesus. A personagem misteriosa do Servo de Yahwéh que desempenha a sua missão através do seu sofrimento, sofrimento esse que possui um valor redentor e expiatório, ou seja, que é capaz de libertar os homens do pecado e que no fim “terá uma descendência duradoira, viverá longos dias, e a obra do Senhor prosperará em suas mãos” é uma figura de Jesus Cristo no mistério da sua Paixão, Morte e Ressurreição.

No entanto, os discípulos de Jesus têm dificuldades em aceitar este caminho messiânico de Jesus. As suas expectativas são outras como demonstra a exigência que Tiago e João fazem a Jesus: “Concede-nos que, na tua glória, nos sentemos um a tua direita e outro à tua esquerda”. Estes dois irmãos têm uma concepção política do messianismo de Jesus e por isso exigem que Jesus, quando triunfar e ocupar o seu trono, lhes conceda os dois primeiros lugares de honra e de poder tratando-os assim como favoritos. 

Ante tal exigência Jesus responde: “Não sabeis o que pedis. Podeis beber o cálice que Eu vou beber e receber o baptismo com que Eu vou ser baptizado?” Na verdade, no que dizem os irmãos estão dois erros graves. O primeiro relaciona-se com a forma como pedem e o segundo relaciona-se com aquilo que pedem. O primeiro erro no pedido dos discípulos está no facto de se apresentarem diante de Jesus reivindicando direitos. Os discípulos não pedem respeitosamente mas reivindicam algo que pensam ter direito. O que pedem não é uma súplica mas a exigência de uma ambição de que se julgam merecedores por serem seguidores de Cristo. E nada mais longínquo da gratuidade do seguimento está este cálculo interesseiro. Os discípulos devem seguir Jesus com gratuidade e não fazendo contas e exigências do que podem ganhar com isso. Os discípulos devem beber o mesmo cálice que Jesus, ou seja, partilhar o mesmo destino de Jesus de vida entregue e receber o mesmo baptismo que Jesus, ou seja, participar no seu mistério pascal mas não com uma atitude interesseira e mercantilista. Na verdade, a salvação, a vida plena, não é uma conquista humana mas um dom de Deus. Introduzir a lógica comercial na nossa relação com Deus é um forte perigo em que podemos cair. A salvação é um dom e não uma conquista e por isso acolhe-se e não se exige. 

O segundo erro do pedido dos dois irmãos relaciona-se com o conteúdo do pedido. Jesus ensina-nos que devemos pedir que se cumpra a vontade de Deus (cf. Mc 14, 36) e aquilo que os discípulos pedem/exigem é que se cumpra a sua vontade pessoal, os seus sonhos de poder e de grandeza. Não pedem segundo a vontade de Deus, pedem segundo a lógica do mundo e por isso não pedem bem. 

Diz-nos o evangelho que este pedido provocou indignação no grupo dos discípulos: “Os outros dez, ouvindo isto, começaram a indignar-se contra Tiago e João”. Os outros dez indignaram-se com Tiago e João não porque estejam convencidos que eles pediram um a coisa má mas porque ficaram com ciúmes, porque também eles desejavam os primeiros lugares, também eles desejavam o poder. Sempre que se procura o poder, aquilo que aparece é a divisão e a inveja. Nada de mais terrível e destruidor pode haver na Igreja do que a busca de poder: “cada vez que o discípulo se coloca do lado da opressão e do poder é como se traísse o seu mestre, vendendo-o a quem mata e humilha. Cada vez que o discípulo, que desempenha um cargo ou uma responsabilidade, se transforma num príncipe orgulhoso e egoísta, destrói a Igreja de Deus reduzindo-a a uma organização sociopolítica. Cada vez que a comunidade cristã se deixa tentar pela força, pela fascinação do poder, pelo triunfo da estrutura é como se se convertesse em pagã” (Cardeal Gianfranco Ravasi). 

É por isto que Jesus se apressa a chamar os doze até si e a corrigir-lhes. Jesus é mais forte que a divisão da tentação do poder e consegue reunir novamente os doze e começa a ensinar-lhes que o modelo que os discípulos devem seguir não são os chefes do mundo que não servem os outros mas que se servem dos outros dominando-os e subjugando-os para verem satisfeitos os seus desejos mesquinhas e egoístas de poder e de glória. O modelo que os discípulos devem seguir é o do próprio Cristo que “não veio para ser servido, mas para servir e dar a vida pela redenção de todos”. Assim como Cristo, por amor e fidelidade a Deus e aos irmãos, viveu amando e servindo, assim os discípulos de Cristo devem traduzir o seu amor a Deus e ao próximo em atitudes concretas de serviço humilde e desinteressado.

No entanto, que ninguém desespere. Todos sabemos como é frequente e humana a tentação do poder que tantas vezes nos invade o coração. Apesar das nossas falhas e limitações, como nos recordava a segunda leitura deste dia da epístola aos hebreus, “vamos cheios de confiança ao trono da graça, a fim de alcançarmos misericórdia e obtermos a graça de um auxílio oportuno”, porque “nós não temos um sumo-sacerdote incapaz de se compadecer das nossas fraquezas. Pelo contrário, Ele mesmo foi provado em tudo, à nossa semelhança”. O próprio Senhor Jesus enfrentou a tentação do poder quando foi tentado no deserto (Cf. Mt 4, 8-10) mas superou-a e viveu servindo. E agora, Ele está connosco, Ele caminha connosco, com o seu perdão transformador e com o seu auxílio revigorante, para nos ajudar a vencer a tentação do poder e a viver uma vida baseada no serviço. 

Que a celebração deste domingo a todos nos ajude a seguir mais de perto a Cristo que “não veio para ser servido, mas para servir e dar a vida pela redenção de todos”.

P. Nuno Ventura Martins

missionário passionista

Share on facebook
Facebook
Share on twitter
Twitter
Share on whatsapp
WhatsApp
Share on print
Print
Share on email
Email

Leave a Comment