Ano B – XXXI Domingo do Tempo Comum

1ª Leitura: Deut 6, 2-6;
Salmo: Sl 17, 2-3. 4 e 47. 50-51ab;
2ª Leitura: Hebr 7, 23-28;
Evangelho: Mc 12, 28b-34.


Convida-nos a liturgia da Palavra deste XXXI Domingo do Tempo Comum concentrarmo-nos no essencial, a centrarmo-nos naquilo que é a essência e a marca característica do nosso ser cristão: o amor a Deus e aos irmãos. Certamente que também nós já nos colocamos a pergunta que o escriba colocou a Jesus: “qual é o primeiro de todos os mandamentos?”, ou seja, qual é a coisa mais importante na minha vida de fé?

Apesar de Jesus já ter entrado triunfalmente em Jerusalém e de o cerco a Jesus se estar a fechar cada vez mais, podemos dizer que a pergunta do escriba a Jesus não é uma pergunta mal-intencionada, ou seja, uma armadilha colocada a Jesus para mostrar que Jesus não sabia interpretar a lei e que por isso não era digno de crédito ou para apanhar alguma declaração de Jesus que pudesse ser usada contra ele em tribunal. A pergunta deste escriba a Jesus é a expressão do desejo deste escriba de amar bem a Deus.

Na verdade, a questão da hierarquia dos mandamentos de Deus era uma questão complicada e estava na origem de grandes debates entre os fariseus e os doutores da lei. Se os 10 mandamentos eram o coração da aliança que Deus estabeleceu com o seu povo, a vida quotidiana com os seus problemas concretos levaram a uma proliferação de leis que pretendiam ser a aplicação concreta dos 10 mandamentos às mais variadas situações quotidianas. Assim sendo, os 10 mandamentos multiplicaram-se em 613 mandamentos, dos quais 365 (como os dias do ano) eram proibições e 248 (como os membros do corpo humano) eram indicações de obras a fazer. O próprio Jesus chegou a afirmar que tamanho conjunto de normas, cheias de subtis distinções e com uma casuística interminável, eram um fardo insuportável para o povo (cf. Lc 11,46). Assim sendo, surgia a dúvida se entre tantos mandamentos não haveria uma certa hierarquia; se todos os mandamentos tinham a mesma importância ou se haveriam mandamentos mais importantes que outros. 

Ante a interpelação do escriba, Jesus, partindo de uma citação do livro do Deuteronómio e outra do livro do Levítico, afirma: “‘Amarás o Senhor teu Deus com todo o teu coração, com toda a tua alma, com todo o teu entendimento e com todas as tuas forças’. (Dt 6,5) O segundo é este: ‘Amarás o teu próximo como a ti mesmo’ (Lv 19, 18). Não há nenhum mandamento maior que estes”. 

Com a sua resposta, Jesus mostra que o maior mandamento da lei de Deus não se reduz a um acto isolado que depois de cumprido nos deixa tranquilos mas é uma atitude radical e permanente. Jesus “não quer impor um código, cumprido o qual, o homem possa estar tranquilo e indiferente, seguro da salvação e libre de outros compromissos. Jesus quer assinalar a orientação total da existência sobre a qual reger toda a vida, guiar todo o gesto, todo momento, toda resposta religiosa e humana” (Ravasi). 

O primeiro mandamento que Jesus apresenta, através da citação do Shema Israel, que ouvíamos na primeira leitura deste dia e que os Judeus rezavam diariamente, é o amor a Deus. Jesus afirma que o primeiro mandamento deve ser um amor total e sem divisões a Deus. No entanto, Jesus completa a sua resposta ao citar Lv 19, 18: “O segundo é este: ‘Amarás o teu próximo como a ti mesmo”. Assim sendo, podemos concluir que o maior mandamento para os seguidores de Jesus é o mandamento do Amor, mandamento esse que se concretiza numa dimensão vertical (para com Deus) e numa dimensão horizontal (para com o próximo). 

Muitas vezes esquecemo-nos desta verdade na nossa vida de crentes. Pensamos que ser cristão é algo que se resume à nossa relação com Deus. Pensamos que ser bom cristão limita-se a rezar muito, a vir à missa ao domingo e a amar muito a Deus Nosso Senhor. No entanto, se é assim que estamos a viver a nossa vida de fé, estamos mancos. Falta-nos a outra dimensão essencial da nossa existência de cristão: o amor ao próximo. Amor a Deus e amor ao próximo são as duas pernas da nossa existência cristã. Se nos falta uma destas pernas estamos a mancar. Deixemos que seja o Apóstolo João a explicar-nos a relação que existe entre o amor a Deus e ao próximo: “Nós amamos, porque Deus nos amou primeiro.  Se alguém disser: «Eu amo a Deus», mas tiver ódio ao seu irmão, esse é um mentiroso; pois aquele que não ama o seu irmão, a quem vê, não pode amar a Deus, a quem não vê. E nós recebemos dele este mandamento: quem ama a Deus, ame também o seu irmão.” (1 Jo 4, 19-21). 

No entanto, o amor de que estamos a falar não é algo que se reduza a uma pura emoção ou a um sentimento. O amor que Jesus nos pede a Deus e aos irmãos deve traduzir-se em acções concretas. O amor que Jesus nos pede é um amor de obras e não só de palavras. 

Em primeiro lugar o amor que devemos ter para com Deus deve ser um amor “com todo o teu coração, com toda a tua alma, com todo o teu entendimento e com todas as tuas forças”. Toda a existência do homem está implicada no amor a Deus. Devemos amar a Deus com todo o coração, devemos amar a Deus com um coração indiviso. Quantas vezes dizemos que amamos a Deus mas são outras coisas aquelas que enchem o nosso coração. Quantas vezes dizemos que somos cristãos mas aquilo que enche o nosso coração é o ter, o poder e o prazer. Amar a Deus é amá-lo com todo o coração. Na verdade, só Deus é que é capaz de encher o nosso coração. 

Devemos amar a Deus com toda a nossa alma, com toda a nossa vida e com toda a nossa força. Amar a Deus com toda a vida é estar disposto a enfrentar as dificuldades, as incompreensões e as discriminações que surgem da nossa fidelidade a Deus. Sabemos que os valores que regem o nosso mundo são diferentes dos valores de Deus e sabemos que se quisermos ser fieis a Deus vamos entrar em choque com a sociedade e que isto vai causar sofrimento. Amar a Deus com toda a alma, com toda a vida, com todas as forças é estar disposto a dar, a gastar a sua vida pelos valores de Deus. 

Devemos amar a Deus com todo o nosso entendimento. O aspecto racional também faz parte do nosso amor de Deus. Devemos mostrar que a nossa fé em Deus é credível. Amar a Deus não se reduz a uma simples emoção. 

No entanto, o cristão também é aquele que ama o próximo como a si mesmo. Assim como gostamos de ser tratados assim devemos tratara o próximo. Assim como gostamos de ser perdoados, ajudados, consulados, estimulados assim devemos perdoar, ajudar, consolar e estimular o nosso próximo. E não nos esquecemos que o nosso próximo são todos aqueles que estão ao nosso redor independentemente do seu estrato social, da sua ideologia política e da sua cor da pele. Próximo é também aquele de quem não gostas tanto. Assim sendo, como gostamos de ser tratados assim devemos tratar os outros. Não te limites a não fazeres aos outros aquilo que não queres que não te façam a ti, mas faz ao teu próximo aquilo que queres que te façam a ti; trata o teu irmão como gostarias de ser tratado. Uma religião que não ama o seu irmão é uma hipocrisia e uma mentira. O amor a Deus nosso Pai leva-nos e exige de nós o amor aos irmãos. Como podemos dizer que amamos a Deus se não amamos os outros seus filhos que são nossos irmãos? 

Que as nossas motivações não sejam outras que o amor a Deus e ao próximo. Que diante de todas as situações eu me interrogue “que me pede neste momento o amor a Deus e aos irmãos?” O amor a Deus e ao próximo são as duas pernas com as quais seguimos o Senhor Jesus, são as duas componentes essências da nossa existência cristã.

P. Nuno Ventura Martins

missionário passionista

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