Ano B – XXXII Domingo do Tempo Comum

1ª Leitura: 1 Reis 17, 10-16;
Salmo: Sl 145, 7b-8a. 8bcd. 9. 10;
2ª Leitura: Hebr 9, 24-28;
Evangelho: Mc 12, 38-44 ou Mc 12, 41-44.


A liturgia da Palavra do XXXII Domingo do Tempo Comum, ao apresentar-nos duas formas contrastantes de religiosidade, é uma boa oportunidade para aprendermos qual é o culto agradável que Deus espera de nós. 

O evangelho deste Domingo insere-se no ministério de Jesus em Jerusalém. Jesus já entrou triunfalmente na cidade santa de Jerusalém, já expulsou os vendilhões do templo e já contou a parábola dos vinhateiros homicidas acusando assim os líderes judaicos de terem feito do templo um covil de ladrões e de terem fechado o seu coração às ofertas salvadoras de Deus. Ante as denúncias de Jesus, os líderes judaicos tentam apanhar Jesus em falso numa série de controvérsias como a do imposto ao imperador César e a da ressurreição dos mortos. Na verdade, queriam apanhar alguma afirmação de Jesus que pudesse ser usada contra ele. O Reino de Deus anunciado por Jesus era incompatível e era uma ameaça a religiosidade vivida pelos líderes judaicos. 

É neste ambiente de tensão e de proximidade à crucifixão e morte de Jesus que se tem de interpretar o evangelho deste dia. Jesus continua a sua denúncia dos escribas. Ao ensinar no templo, Jesus, que consegue ver para além das aparências, denuncia o folclore religioso, a exterioridade e as injustiças que os escribas cometem e por isso não se inibe de os julgar: “Acautelai-vos dos escribas, que gostam de exibir longas vestes, de receber cumprimentos nas praças, de ocupar os primeiros assentos nas sinagogas e os primeiros lugares nos banquetes. Devoram as casas das viúvas, com pretexto de fazerem longas rezas.”

São cinco as atitudes que apesar de parecerem religiosas são expressão da ambição e da soberba dos escribas que Jesus condena: o exibicionismo das vestes religiosas (do talled, do manto de oração ou das franjas nos cantos das vestes), o gosto de serem aplaudidos pelos demais, o facto de ocuparem os primeiros lugares quer nas sinagogas (ostentando assim a sua presumida santidade) quer nos banquetes por se considerarem importantes e o facto de se aproveitarem da sua posição e função de interpretes da lei para explorarem os mais pobres. Jesus denuncia e condena a vaidade, a hipocrisia religiosa e a cobiça dos escribas. 

São graves e não podem deixar de nos interrogar as denúncias que Jesus faz da religiosidade dos escribas. Na verdade, na minha prática religiosa, no culto que presto a Deus o que é que eu procuro? Amar e honrar a Deus ou ser aplaudido e alcançar os meus desejos tantas vezes egoístas e mesquinhos? Na minha prática religiosa eu sirvo a Deus ou sirvo-me de Deus para alcançar os meus desejos?

Se, na primeira parte do evangelho deste Domingo, Jesus denuncia uma religiosidade equivocada baseada na hipocrisia, na mentira, na soberba e na fraude, na segunda parte do evangelho deste domingo, ao fazer o elogio à oferta da viúva, apresenta como correcta forma de nos relacionarmos com Deus, como verdadeira religiosidade a humildade, a sinceridade e a generosidade. Jesus não se limita a condenar a falsa religiosidade. Ele apresenta-nos um exemplo concreto do verdadeiro crente ao fazer o elogio da generosidade da pobre viúva que dando o pouco que tinha deu mais do que todos os outros. 

Enquanto está no templo Jesus, que vê para além das aparências, não se limita só a reparar na teatralidade dos escribas. Jesus também repara numa pobre viúva. Sentando diante da arca do tesouro, Jesus via como os ricos deitavam quantidades avultadas de dinheiro e como uma pobre viúva se limitou a deitar duas pequenas moedas. Ante tal facto, Jesus louva a viúva, porque “esta pobre viúva deitou na caixa mais do que todos os outros. Eles deitaram do que lhes sobrava, mas ela, na sua pobreza, ofereceu tudo o que tinha, tudo o que possuía para viver”. Mais importante que a quantidade é a qualidade, a veracidade dos gestos. “A avaliação de Deus, a de Jesus, para gestos assim não se mede pelo critério em uso: a quantidade, mas pelo seu significado intencional, isto é, a qualidade que lhes dá a mais-valia pessoal acrescentada. Por Deus se desprendeu a boa mulher de tudo o que tinha; e embora desse somente duas moeditas, deitou na caixa das esmolas mais que ninguém, comenta Jesus. Assim são as matemáticas de Deus” (B. Caballero).

Na verdade, as duas moedas que a viúva ofereceu, no pátio das mulheres do templo de Jerusalém numa das treze caixas existentes para recolher as ofertas, eram, segundo o texto grego, dois leptá, ou seja, a moeda de cobre mais pequena em circulação. No entanto, apesar de ser uma quantia tão insignificante era tudo o que a viúva possuía. Na verdade, “a situação das viúvas nas estruturas sociopolíticas do Antigo Oriente eram muito dramáticas: com a perda do marido já não tinham quem lhes garantisse a personalidade jurídica e tutela e a miúdo reduziam-se à mendicidade” (Ravasi). No entanto, a Bíblia sempre apresentou Deus como o defensor das viúvas, como cantamos hoje no salmo: “O Senhor protege os peregrinos, ampara o órfão e a viúva”. 

Apesar da sua pobreza e indigência, a viúva dá tudo o que possui. Não se limita a dar uma das moedas mas dá as duas moedas que possuía. A viúva torna-se assim um modelo de total generosidade e desinteresse porque podendo guardar uma moeda para si não o fez. 

Esta pobre oferta da viúva que certamente não foi louvada e agradecida pelo sacerdote que estava encarregue de receber as ofertas e pelas pessoas como certamente eram louvadas e agradecidas as grandes ofertas dos mais ricos foi louvada por Jesus. Louvando a atitude da pobre mulher Jesus indica-nos qual é o caminho da verdadeira religiosidade. A verdadeira religiosidade não é aquela que se vive pelas aparências, pela vaidade, pela hipocrisia e pela cobiça mas sim a que se vive na humildade, na sinceridade e na generosidade.  

Temos que apreender com os pobres a verdadeira generosidade e a confiança absoluta em Deus. “Felizmente há pobres para os pobres; só eles sabem dar” (S. Vicente de Paulo). O desejo ávido de ter não conhece a compaixão e só se preocupa em aumentar os seus bens. Só os pobres é que sabem verdadeiramente abandonar-se nas mãos de Deus pois só em Deus podem pôr a sua confiança. Além disso, só os pobres sabem verdadeiramente compadecer-se daqueles que passam por necessidades e ajuda-los. É está a bela lição que nos quer transmitir, neste Domingo, o episódio da viúva de Sarepta que escutávamos na primeira leitura do primeiro Livro dos Reis.

Elias, obedecendo aos desígnios de Deus, dirige-se a Sarepta e pede a uma pobre viúva que lhe traga uma bilha de água e um pão. Ante tal pedido, a viúva dá ao profeta uma resposta dramática: “eu não tenho pão cozido, mas somente um punhado de farinha na panela e um pouco de azeite na almotolia. Vim apanhar dois cavacos de lenha, a fim de preparar esse resto para mim e meu filho. Depois comeremos e esperaremos a morte”. Ante esta situação de miséria, o profeta Elias convida a mulher a não temer e a confiar no Senhor. A viúva de Sarepta obedecendo e confiando em Deus fez o que o profeta lhe tinha pedido e viu a sua panela de farinha sempre com farinha e a sua almotolia sempre com azeite. Magnifica lição que nos mostra que a confiança em Deus e a solidariedade e a generosidade não geram pobreza e morte mas vida para todos. Não é a arrecadação zelosa e egoísta que assegura a subsistência mas a partilha e a generosidade. O verdadeiro milagre capaz de acabar com a indigência em todo o mundo é a partilha.  

Que a celebração deste domingo nos ajude a passar de uma religiosidade de fachada somente preocupada em engradecer o “eu” a uma religiosidade autêntica e verdadeira baseada na humildade, sinceridade, generosidade e partilha.

P. Nuno Ventura Martins

missionário passionista

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