Ano B – XXXIII Domingo do Tempo Comum

1ª Leitura: Dan 12, 1-3;
Salmo: Sl 15, 5 e 8. 9-10. 11;
2ª Leitura: Hebr 10, 11-14. 18;
Evangelho: Mc 13, 24-32.


Quase a finalizar o Ano Litúrgico (o próximo domingo é o último domingo do Ano Litúrgico), a liturgia da Palavra deste Domingo convida-nos a reflectir sobre a Parusia, sobre a última vinda de Cristo que inaugurará “novos céus e uma nova terra, onde habite a justiça” (2 Pe 3, 13). Como professamos no Credo, Jesus “de novo há-de vir em sua glória, para julgar os vivos e os mortos e o seu reino não terá fim” (Símbolo niceno-constantinopolitano). A fé Cristã professa que toda a história está ordenada para Cristo. O Senhor que nos criou, no final dos tempos, na Parusia, na última vinda de Cristo em glória, instaurará todas as coisas em Cristo. Fará surgir uma nova criação onde a morte, a dor e o pecado não têm lugar (cf. 2 Pe 3; Ap 21).

No entanto, sempre que se fala da última vinda de Cristo em glória não poucas pessoas se aterrorizam, porque pensam que se trata do fim do mundo que algumas seitas gostam de agendar. Falar da última vinda de Cristo mais que ao medo deve levar-nos à esperança e à vigilância. Com efeito, a verdade da Parusia, da última vinda de Cristo não é uma verdade aterrorizante mas cheia de esperança e de gozo. Falar da última vinda de Cristo em glória não é falar do fim do mundo, porque “nós, porém, segundo a sua promessa, esperamos uns novos céus e uma nova terra, onde habite a justiça” (2 Pe 3, 13).

Assim sendo, é-nos de grande utilidade aproximarmo-nos do texto evangélico deste Domingo e, tentando decifrar a linguagem apocalíptica, complicada para nós mas perceptível para os primeiros destinatários do evangelho, acolher a sua mensagem esperançosa e gozosa. Na verdade, este texto não é uma reportagem daquilo que vai acontecer mas uma leitura profética da história humana com uma linguagem apocalíptica.

O texto evangélico deste dia pertence ao capítulo 13 do evangelho de Marcos, o comummente designado discurso escatológico. Este discurso é pronunciado por Jesus, em Jerusalém, poucos dias antes da sua paixão e morte na cruz. 

Com o discurso escatológico e através de uma linguagem profético-apocalíptica, Jesus pretende dar aos seus discípulos algumas indicações sobre a atitude que devem adoptar enquanto aguardarem a sua última vinda gloriosa. O discurso escatológico de Jesus é uma mensagem dirigida a todos os discípulos sobre a forma como a comunidade cristã deverá enfrentar as dificuldades que se apresentarão até à sua última vinda. O discurso escatológico de Jesus no evangelho de Marcos é constituído por três partes. Na primeira parte deste discurso, Jesus anuncia uma série de vicissitudes que irão acontecer. Na segunda parte, Jesus anuncia a vinda do Filho do Homem e na terceira parte do seu discurso afirma que não se sabe a data da vinda do Filho do Homem e por isso exorta à vigilância. O evangelho deste domingo pertence à segunda e a terceira parte deste discurso.

O evangelho deste domingo começa por referir-se a uma grande aflição. Na verdade, os discípulos de Jesus, todos os discípulos, pois os quatro discípulos que são referidos no início deste discurso, os quatro primeiros discípulos a serem chamados, representam os discípulos de todos os tempos e todos os lugares, deparar-se-ão com a perseguição e com a oposição dos valores antievangélicos. O próprio Senhor Jesus, no evangelho de João, adverte claramente: “Se me perseguiram a mim, também vos hão-de perseguir a vós” (Jo 15, 20). Ante essa perseguição e ante a aflição que vão enfrentar os discípulos de Jesus devem manter a sua fidelidade a Jesus e aos seus valores. 

Não é fácil manter a fidelidade em situações adversas. É mais simples seguir Jesus quando tudo correr bem e quando isso não nos traz muito incómodos. No entanto, mesmo na dificuldade e ante todas as adversidades devemos ser fieis a Deus e não desistirmos de o seguirmos. 

Na verdade, segundo a promessa de Jesus a tribulação não é a última palavra. “Depois de uma grande aflição, o sol escurecerá e a lua não dará a sua claridade; as estrelas cairão do céu e as forças que há nos céus serão abaladas. Então, hão-de ver o Filho do homem vir sobre as nuvens, com grande poder e glória.” A última palavra não pertence aos senhores deste mundo, aos valores antievangélicos que parecem guiar a nossa sociedade. A última palavra pertence a Deus. 

Na verdade, os deuses deste mundo, os ídolos não se aguentarão. O sol e a lua, no mundo grego, eram adorados como divindades e o imperador romano considerava-se como o sol. Assim sendo, ao dizer que “o sol escurecerá e a lua não dará a sua claridade”, Jesus está a dizer-nos que os senhores e os deuses deste mundo não são os verdadeiros senhores e não são eternos. Ao dizer-nos que “as estrelas cairão do céu”, Jesus está a dizer-nos que não devemos pôr a nossa confiança e a nossa esperança nas superstars sociais, politicas, desportivas deste mundo, pois elas não são eternas e desaparecerão.  

Ao dizer-nos que o “sol escurecerá e a lua não dará a sua claridade; as estrelas cairão do céu e as forças que há nos céus serão abaladas” e que “hão-de ver o Filho do homem vir sobre as nuvens, com grande poder e glória”, Jesus está a anunciar que na história humana vai acontecer uma viragem decisiva. A vinda gloriosa do Filho do Homem não é o fim do mundo, mas o fim dum mundo dominado por todos os valores antievangélicos e o início dos “novos céus e uma nova terra, onde habite a justiça” (2 Pe 3, 13). Tal mensagem deve encher de coragem e de ânimo os crentes que no seu esforço quotidiano de seguirem o Senhor Jesus encontram tantas dificuldades e contratempos. Às dificuldades e contratempos que encontram, os discípulos de Jesus devem responder com a esperança que lhes vem da promessa de Jesus, porque “passará o céu e a terra mas às minhas palavras [as de Jesus] não passarão”. Assim sendo, aqueles que esperam a vinda do Senhor Jesus para instaurar os “novos céus e a nova terra” devem viver na alegre esperança, numa esperança activa que actua em função daquilo que espera. 

No entanto, a certeza da última vinda do Senhor Jesus não nos deve levar a tentativas de agendar esse acontecimento. A parusia é um acontecimento certo mas a sua hora é incerta, é desconhecida: “ Quanto a esse dia e a essa hora, ninguém os conhece: nem os Anjos do Céu, nem o Filho; só o Pai”. Não podemos concordar e dar crédito a certas seitas que insistem, repetidamente e mesmo depois de previsões falhadas, em determinar o ano, o mês, o dia e a hora em que tudo isso acontecerá. 

Não devemos viver aterrorizados com o fim do mundo mas devemos viver confiantes na certeza do fim do mundo velho com os seus valores antievangélicos e na chegada dos “novos céus e uma nova terra, onde habite a justiça” (2 Pe 3, 13). Na verdade, assim como o aparecimento dos rebentos na figueira anuncia ao agricultor a proximidade do verão, assim os homens devem estar atentos aos sinais dos tempos que anunciam o fim do mundo velho do pecado e o surgimento de um mundo novo. Devemos viver numa atitude de vigilância, vigilância essa que é uma forma de preparação para acolhermos a última vinda de Jesus em glória. O cristão é aquele que desperto caminha no presente com os olhos no futuro! 

Que a celebração deste Domingo nos ajude a ser fieis mesmo no meio das aflições que essa fidelidade pode produzir, a termos esperança no futuro que Deus nos vai oferecer e a agir em função daquilo que esperamos numa atitude de vigilância, pois a última vinda de Jesus em glória é certa mas a sua hora é incerta.

P. Nuno Ventura Martins

missionário passionista

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