Ano C – Ascensão do Senhor

1ª Leitura: Act 1, 1-11;
Salmo: Sl 46, 2-3. 6-7. 8-9;
2ª Leitura: Ef 1, 17-23;
Evangelho: Lc 24, 46-53.

 

Ascensão: chamada à esperança e à missão!

Quarenta dias após a Páscoa da Ressurreição, a Igreja celebra a Ascensão do Senhor. Em Portugal e noutros países, como a quinta-feira da VI semana de Páscoa, dia em que se cumprem os quarenta dias depois da Ressurreição, não é feriado, a celebração da Ascensão foi transferida para o VII Domingo de Páscoa. No entanto, tal mudança pode ser uma mais-valia catequética que demonstra o carácter pascal da Ascensão de Cristo.

A Ascensão é a subida do Senhor aos céus depois da ressurreição; é o mistério da glorificação de Jesus ao triunfar, pela ressurreição, da sua morte na cruz. “A ascensão é o cumprimento integral da ressurreição e assinala a participação de Cristo, na sua humanidade, no poder e na autoridade do próprio Deus” (Enciclopédia Christos).

Testemunho escrituristico, por excelência, da Ascensão de Jesus é a primeira leitura deste domingo retirada do Livro dos Actos dos Apóstolos. Apesar dos vários evangelistas nos testemunharem várias aparições do Senhor Ressuscitado, aparições essas que reavivam a fé dos discípulos e os preparam para a sua missão, e evocarem a ascensão de Jesus, só Lucas, nos Actos dos Apóstolos, nos diz que as aparições do Ressuscitado duraram 40 dias e terminaram com a Ascensão de Jesus no Monte das Oliveiras, perto de Betânia. 

A narração que Lucas faz da Ascensão de Jesus, nos Actos, é de grande sobriedade se a compararmos com as narrações do mesmo episódio feita pelos evangelhos apócrifos. Na sua narração, Lucas utiliza vários símbolos que nos ajudam a perceber melhor a realidade da Ascensão. 
A nuvem tem um grande significado bíblico. Na verdade, ela é o sinal da presença divina. De igual maneira, os homens vestidos de branco também não deixam de ter um simbolismo. As vestes brancas são o símbolo do mundo sobrenatural. 

O facto de Lucas colocar a Ascensão de Jesus nas vizinhanças de Jerusalém também é importante. Na verdade, a expansão do evangelho deve começar onde tudo começou. A própria imagem da subida aos céus não deixa de ter o seu significado. Na verdade, a visão judaica, como para nós hoje muitas vezes, considerava o céu como a morada de Deus e a terra o mundo dos homens. Assim sendo, toda a comunicação entre Deus e os homens exprime-se como “descida” (comunicação de Deus ao Homem) ou “subida” (comunicação do Homem a Deus). Assim sendo, não podemos negar que o verbo ascender, do qual deriva ascensão, é devedor desta cosmovisão judaica. 

A atitude dos discípulos estarem de olhar fixo em Jesus que subia aos seus também tem o seu significado. Na verdade, esta atitude dos discípulos descreve o comportamento de alguns membros da comunidade cristã, que esperando a última vinda de Cristo num curto espaço de tempo se descuidavam dos seus afazeres e da sua missão. Ante esta situação, as palavras dos dois homens vestidos de branco são uma forte interpelação. Apesar de saberem que o Senhor virá um dia na sua glória para instaurar os novos céus e a nova terra, os cristãos não devem especular sobre o quando e devem continuar a sua missão no mundo. 

Depois desta breve apresentação da narração de São Lucas da Ascensão de Jesus podemo-nos perguntar sobre a importância que este mistério da vida de Cristo tem para a nossa vida de fé. As orações litúrgicas deste dia e as restantes leituras ajudam-nos a descobrir duas razões da importância da Ascensão de Cristo para a vida dos cristãos. 

Na oração colecta deste dia, afirmamos: “a ascensão de Cristo, vosso Filho, é a nossa esperança: tendo-nos precedido na glória como nossa cabeça, para aí nos chama como membros do seu Corpo”.

A segunda leitura deste dia já nos mostra o convite à esperança que o mistério pascal representa para os cristãos. Na verdade, Paulo pede que Deus conceda aos Efésios a sabedoria necessária “para compreenderdes a esperança a que fostes chamados “, porque “assim o mostra a eficácia da poderosa força que exerceu em Cristo, que Ele ressuscitou dos mortos e colocou à sua direita nos Céus”.

Mas porque motivo a Ascensão de Jesus ao céu é um motivo de esperança? É um motivo de esperança, porque sendo a proclamação gloriosa da ressurreição de Cristo, a Ascensão é a afirmação que Cristo, descido dos céus e encarnado, com a sua ressurreição rompe a prisão da terra à qual está ligada toda a humanidade e, levando consigo as criaturas, regressa à pátria de Deus. Jesus ressuscitado abre o caminho que conduz a humanidade até Deus. Quem acredita que Deus ressuscitou Jesus também acredita que Deus o ressuscitará. O Homem não está destinado à morte. O Homem está destinado ao Absoluto, à vida com Deus e em Deus. Ao subir aos céus, Cristo introduz o Homem, que tinha assumido na encarnação, na glória de Deus Pai, na comunhão definitiva com Deus.

No entanto, a Ascensão de Cristo também tem uma importância especial no mandato missionário, uma vez que foi aqui que Jesus confiou, de uma maneira definitiva e solene, aos seus discípulos a missão eclesial que terá a sua confirmação no dia de Pentecostes.

Ajuda-nos a compreender melhor esta missão quer a primeira leitura (“sereis minhas testemunhas em Jerusalém e em toda a Judeia e na Samaria e até aos confins da terra”) quer o evangelho deste dia (“está escrito que o Messias havia de sofrer e de ressuscitar dos mortos ao terceiro dia e que havia de ser pregado em seu nome o arrependimento e o perdão dos pecados a todas as nações, começando por Jerusalém. Vós sois testemunhas disso”). 

O capítulo XXIV do evangelho de Lucas insiste várias vezes na necessidade do Mistério Pascal de Cristo (morte e ressurreição). No entanto, na terceira vez que retoma o tema da necessidade do Messias sofrer e ressuscitar, em Lc XXIV, o evangelista junta também a necessidade da pregação: “havia de ser pregado em seu nome o arrependimento e o perdão dos pecados a todas as nações”. Podemos então concluir que a pregação/a missão é algo vinculado a Jesus e ao seu mistério Pascal. Na verdade, a missão confiada aos discípulos é a pregação no nome de Jesus (“havia de ser pregado em seu nome”) e que deve ter como conteúdos o arrependimento e o perdão dos pecados. “Conversão teológica, isto é, que o Crucificado é Revelação gloriosa de Deus, e não ignomínia e derrota! Perdão: significa que o Amor de Deus é maior que o nosso pecado!” (António Couto).

Outra das características da pregação/missão dos apóstolos é a universalidade (“a todas as nações, começando por Jerusalém”). Cristo Ressuscitado envia os seus discípulos a anunciar o evangelho a todo mundo a partir de Jerusalém. Não nos podemos esquecer que é este o esquema geográfico da obra lucana. O evangelho de Lucas começa em Jerusalém com a anunciação do anjo a Zacarias no templo de Jerusalém e o livro dos Actos dos Apóstolos termina com Paulo em Roma. 

Para o desempenho desta missão, o Senhor Jesus promete aos seus discípulos o dom do Espírito Santo: “Eu vos enviarei Aquele que foi prometido por meu Pai. Por isso, permanecei na cidade, até que sejais revestidos com a força do alto”. A pregação/missão só é possível na força do Espírito. 

Celebrar a Ascensão de Jesus é um convite à esperança e à missão. Um convite à esperança porque ao subir aos céus, Cristo introduz o Homem, que tinha assumido na encarnação, na glória de Deus Pai. Um convite à missão porque é aqui que o Ressuscitado confia, de uma maneira definitiva e solene, aos seus discípulos a missão eclesial.

P. Nuno Ventura Martins

missionário passionista

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