Ano C – Comemoração de Todos os Fiéis Defuntos

1ª Leitura: Job 19, 1.23-27a;
Salmo: 26, 1.4.7-8B.9A.13-14;
2ª Leitura: 2 Cor 4, 13-5,1;
Evangelho: Mt 11, 25-30

Celebramos hoje o dia dos fiéis defuntos. Esta celebração convida-nos a reflectir sobre a morte, melhor dizendo, sobre a nossa vida, o seu sentido último, numa palavra sobre a vocação a que somos chamados. É um dado do senso comum que a morte faz parte da experiência enquanto humanos. No entanto, esta constatação leva alguns a uma angústia existencial, pois consideram o Homem como um ser para a morte; para eles, o último destino do Homem é a morte. Mas, para quem acredita na ressurreição de Cristo a morte não é o último destino do homem. A fé na ressurreição de Cristo e, consequentemente, na nossa ressurreição conduz-nos a certeza de que com a morte a vida não se acaba, apenas se transforma (cf. Prefácio dos Defuntos I). Por isso, gostaria que esta reflexão não fosse marcada pela angústia da finitude humana, mas pela gozosa esperança da ressurreição. Na verdade, S. Paulo na sua carta aos cristãos de Corinto diz claramente: “se Cristo não ressuscitou, é vã a nossa pregação, e vã é também a vossa fé” (1 Cor 15, 14) e ainda “Cristo ressuscitou dos mortos, como primícias dos que morreram.” (1 Cor 15, 20).

Os cristãos, apesar de “Agora, vermos como num espelho, de maneira confusa; ainda não vermos com claridade aquilo que nos espera” (1 Cor 13, 12), sabemos que a nossa vida depois da morte deve ser vista à luz da Ressurreição. A fé cristã é incompatível com a visão da morte como o fim de tudo e com a teoria da reencarnação. O Deus que nos criou por Amor assegura a nossa existência, quer-nos para sempre como seus interlocutores.

Neste dia talvez nos seja útil recordar a Doutrina cristã sobre as realidades últimas. Para isso, talvez seja de grande utilidade pegar no credo, na síntese da nossa fé, meditar sobre em quem acreditamos e tirar conclusões para a nossa caminhada de fé.

No Credo de Niceia-constantinopla afirmo no singular, dialogando com a comunidade, porque a fé apesar de ser comunitária deve ser uma decisão pessoal, que Cristo “há-de vir em sua glória para julgar os vivos e os mortos” e que “espero a ressurreição dos mortos e a vida do mundo que há-de vir”.

A fé Cristã professa que toda a história está ordenada para Cristo. O Senhor que nos criou, no final dos tempos, na Parusia, na última vinda de Cristo em glória, instaurará todas as coisas em Cristo. Fará surgir uma nova criação onde a morte, a dor e o pecado não têm lugar. (cf. 2 Pe 3; Ap 21). Nesse dia, os mortos ressuscitarão (1 Cor 15; 1 Ts 5). Ressuscitaremos na nossa totalidade, ou seja, não é só uma parte do Homem que será chamada à vida, mas será o homem na sua totalidade que ressuscitará. Não será só a nossa alma a ressuscitar mas também o nosso corpo, isto é, não a nossa carne mas a nossa corporeidade que nos permite relacionarmo-nos uns com os outros. Na verdade, é impossível a existência de uma vida que se diz plena sem relação. Contudo esta ressurreição será no final dos tempos e depois do Juízo final.

Agora surge-nos uma questão: se esta ressurreição só ocorre no final dos tempos o que é que se passa com aqueles que morrem?

Segundo a doutrina cristã, cada homem, ao morrer, recebe a sua retribuição eterna num juízo particular feito por Cristo (cf. Catecismo da Igreja Católica, 1021). A doutrina cristã diz-nos que depois da morte a pessoa é sujeita a um julgamento (julga-se a si mesma face a Deus, julgando a sua mesma história pessoal) diante de Deus. Contudo, temos de tirar desta imagem todos os fantasmas e falsas imagens que a rodeiam. Devemos abandonar a concepção jurídica de juízo e recuperar a concepção salvífica de juízo. Julgar em sentido bíblico quer dizer salvar. O juízo de Deus não visa a condenação do Homem mas a sua salvação. No juízo Deus não nos condena, mas nós, iluminados pelo seu amor salvífico, é que vamos avaliar a nossa vida. Iluminados pelo amor salvífico de Deus é que teremos de reconhecer se na nossa vida correspondemos ou Amor salvífico de Deus ou se de forma livre e consciente recusamos esse amor.

Se na nossa vida terrena correspondemos plenamente ao Amor de Deus somos chamados à vida plena da comunhão com Deus e com os Santos, expressa pela imagem do paraíso, do céu. Mas, se na nossa vida de uma forma plenamente livre e consciente recusamos o Amor de Deus somos conduzidos ao Inferno, ou seja, aquele estado de total afastamento de Deus escolhido livre e conscientemente. Infelizmente a ideia de inferno foi e ainda é parasitado por muitas imagens terroríficas que foram tomadas do imaginário popular. Estas imagens não são uma descrição exacta daquilo que é o inferno, que é um mistério: como é possível recusar o amor? Contudo, a imagem de sofrimento, que transmitem, mostra a tristeza de uma vida que de uma forma totalmente livre e consciente recusa o amor salvífico de Deus.

O sabermos que depois da morte o Homem pode ser conduzido a um estado de plena comunhão com Deus no seio da trindade (paraíso) ou a um estado de total afastamento de Deus e do seu amor (inferno) poderia fazer-nos pensar que estas duas possibilidades de destino estão em pé de igualdade. Contudo, não é assim. Deus criou-nos para a vida, para a plena felicidade, para a plena comunhão com ele. Por isso, podemos dizer que o nosso destino é o céu. Contudo, porque Deus é amor e o amor supõe liberdade e a possibilidade de uma livre e consciente recusa do amor de Deus, a possibilidade da existência do inferno deve existir. Em último caso, podemos mesmo afirmar que se não admitimos a possibilidade da existência do inferno estamos a negar que deus é amor. Na verdade a ideia de um Deus amor exige a liberdade e, consequentemente, a possibilidade de o poder negar de uma forma livre e consciente. Assim, urge purificar a nossa concepção de inferno de certas imagens do imaginário popular que o parasitam e impedem uma perfeita compreensão do que, na verdade, o inferno pode ser. Além disto, também temos de ter bem claro que o inferno não é possibilidade que se coloca no mesmo pé de igualdade do céu. Deus chama-nos e quer-nos inseridos no seio da trindade (céu). O inferno é uma fatídica possibilidade.

Depois de termos falados de uma total correspondência e de uma total recusa do amor de Deus, pode ser que muitos de nós e muitos daqueles que nos precederam nesta peregrinação sobre a terra não se identifiquem totalmente com estas duas situações. A vida de muitos de nós é um misto de sim e não ao amor de Deus. Frente a esta possibilidade, um sim e não simultâneo ao amor de Deus, a Doutrina católica apresenta-nos a doutrina do purgatório.

O purgatório, como o inferno, infelizmente foi muitas vezes invadido por imagens do imaginário popular que dificultam e até impedem a sua correcta compreensão.

O purgatório, o fogo purificador do amor, mais que um hall de entrada do inferno tem de ser visto como um hall de entrada do paraíso. O purgatório está mais perto do céu do que do inferno.

O Deus Amor, que quer que todos os Homens se salvem e que tem todo o tempo do mundo para o Homem, concede ao Homem, que na sua vida foi um misto de sim e não ao amor de Deus, uma oportunidade para ele se purgar e assim preparar para entrar no seio da trindade. Deus dá aos Homens a possibilidade de se purificarem, de queimarem todos os seus pecados e suas consequências.

No entanto, esta doutrina do purgatório pode levantar-nos uma séria questão sobre a eficácia do perdão de Deus. Se o Deus Amor nos perdoa quando nos arrependemos e lhe pedimos perdão porque razão é necessário o purgatório para nos limpar e preparar para viver no seio da trindade?

Que Deus nos perdoa é um dado assente e indiscutível. Deus porque nos ama é capaz de nos perdoar e reconciliar consigo. Entretanto, o Homem também tem de corresponder ao amor de Deus e colaborar, aceitar e deixar-se transformar pelo perdão de Deus. E é isto que nem sempre acontece. Pedimos perdão a Deus por não amarmos os nossos irmãos e Deus perdoa-nos. Mas nós não aceitamos totalmente esse perdão divino, não nos deixamos transformar por ele e não passamos a amar os nossos irmãos. O dom do perdão de Deus exige a verdadeira conversão. E é por muitas vezes não haver essa conversão consequente do perdão divino que se torna necessária uma ulterior purificação para vivermos no seio da trindade. Não bastam boas intenções. As obras de conversão são necessárias.

Neste dia, nós, Igreja peregrina, que ontem (1 de Novembro) celebramos a Igreja Triunfante, aquela que já vive na plenitude do Amor no seio da trindade, somos hoje convidados a olhar e a rezar pelos nossos irmãos da Igreja purgante.

Tanto a Igreja Triunfante como a Igreja purgante e a Igreja militante fazem parte da única igreja que é o Corpo Místico de Cristo que tem Cristo como cabeça. Deve haver uma verdadeira solidariedade entre todos os membros deste corpo. Assim como nós, Igreja peregrina, somos ajudados pelas intercessões da Igreja Triunfante diante de Deus, assim nós também devemos ajudar com as nossas orações e boas obras os nossos irmãos da Igreja militante e purgante.

Além disto, a celebração dos fiéis defuntos deve-nos conduzir a uma esperança activa. Não basta dizer que acreditamos na ressurreição. Temos de agir e actuar segundo essa esperança. A nossa opção fundamental de aceitar ou recusar o Amor de Deus constrói-se a partir das pequenas acções do nosso quotidiano.

Que o Senhor, Deus dos vivos e não dos mortos, dê o eterno descanso a todos os nossos irmãos defuntos e a nós, que ainda peregrinamos nesta terra, nos dê a graça de já irmos antecipando a vida eterna.

P. Nuno Ventura Martins,

Missionário Passionista

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