Ano C – Domingo de Páscoa da Ressurreição do Senhor

1ª Leitura: Act 10, 34a. 37-43;
Salmo: Sl 117, 1-2. 16ab-17. 22-23;
2ª Leitura: Col 3, 1-4 ou 1 Cor 5, 6b-8;
Evangelho: Ev Jo 20, 1-9.

Iniciamos a Liturgia da Palavra deste santíssimo dia da Páscoa da Ressurreição do Senhor com a proclamação do anúncio fundamental do cristianismo pelo apóstolo Pedro ao centurião Cornélio: “nós somos testemunhas de tudo o que Ele [Jesus] fez no país dos judeus e em Jerusalém; e eles mataram-n’O, suspendendo-O na cruz. Deus ressuscitou-O ao terceiro dia ”. É este o anúncio que deve ressoar neste dia por todo o mundo: Deus ressuscitou Jesus, a vida venceu a morte, o amor dissipou o ódio, a esperança emerge no desespero. 

No entanto, no início do anúncio pascal deve estar a experiência do encontro com o ressuscitado. João, no evangelho deste dia, transmite-nos a experiencia pascal de Madalena, de Pedro e do outro discípulo de Jesus, símbolo de todos os cristãos. 

Começa o evangelho deste dia com a expressão “primeiro dia” (Jo 20, 1). Na verdade, no texto grego não encontramos “no primeiro dia” mas sim “no dia um”. Este dia um faz referência aos sete dias da criação do génesis. Com a ressurreição de Jesus há uma nova criação, uma nova acção de Deus. 

Em seguida afirma-se que “Maria Madalena vai ao sepulcro” (Jo 20, 1). Um pormenor interessante desta expressão, e de todo o texto, é que, apesar das traduções apresentarem o verbo no passado, o texto grego coloca todos os verbos no presente. Ao colocar os verbos no presente o hagiógrafo está a colocar a acção no hoje. É como se o acontecimento relatado estivesse a acontecer diante dos nossos olhos. 

Depois de ter visto que a pedra do sepulcro foi removida, Maria vai a correr à casa de Pedro e do discípulo amado, que em lado nenhum se diz que é João, e diz “Retiraram o Senhor do sepulcro e não sabemos onde o colocaram” (Jo 20, 2). A expressão “não sabemos” também não deixa de ser interessante. Na verdade, o mais lógico seria dizer “não sei”. No entanto, o hagiógrafo coloca a expressão “não sabemos” para nos implicar.

Diz-nos o texto que tudo isto acontece quando “ainda estava escuro” (Jo 20,1). A escuridão descrita aqui pelo hagiógrafo evoca-nos outras passagens do seu evangelho: o encontro com Nicodemos e a traição de Judas. Esta escuridão quer traduzir o estado daqueles que ainda não chegaram à fé da ressurreição.

Depois de Madalena ter anunciado aos discípulos o suposto roubo do cadáver de Jesus, o hagiógrafo diz-nos que estes “vinham” (Jo 20, 3) ao sepulcro. Aqui o verbo encontra-se no imperfeito para descrever que neste momento os discípulos ainda estão a caminho.

Só em Jo 20, 5 é que temos alguém a entrar, por primeira vez, no sepulcro de Jesus. É Pedro o primeiro a entrar. O discípulo amado, apesar de ter chegado primeiro, não entra, mas fica à porta. Pedro entra e, diz-nos o relato evangélico que “entrou no túmulo e ficou admirado ao ver os panos de linho espalmados no chão, ao passo que o lenço que tivera em volta da cabeça não estava espalmado no chão juntamente com os panos de linho, mas de outro modo, enrolado noutra posição” (Jo 20,6-7). O termo grego que é utilizado para expressar a visão de Pedro é diferente do utilizado para designar a visão de Maria da pedra removida. O ver que é atribuído a Pedro é um ver que põe a pensar. Na verdade, a constatação de que os panos de linho estavam arrumados levam-nos a pensar. Os ladrões não deixariam tão arrumado o túmulo. Consequentemente, a primeira análise/interpretação de Maria Madalena deixa de ser válida. 

O facto do discípulo amado ter chegado primeiro, mas ter deixado que fosse Pedro o primeiro a entrar (cf. Jo 20, 4-6) também contém um rico simbolismo. Devemos interpretar este dado à luz das negações de Pedro (cf. Jo 18). Como Pedro não esteve com Jesus até ao fim, tem que seguir o outro discípulo que esteve presente até ao final. O outro discípulo é, assim, aquele que abre caminho e indica pistas. 

O discípulo amado só entra no sepulcro depois de Pedro ter entrado e visto o cenário. Ao entrar no túmulo o relato evangélico diz-nos que ele “viu e começou a crer” (Jo 20, 8). Não tem necessidade de perguntar. O ver que o evangelista atribui aqui ao discípulo amado é o ver de quem vê com identidade. 

O versículo 9 afirma que “não tinham entendido a Escritura”. Quem serão os sujeitos deste predicado? Certamente que são Pedro, Maria Madalena mas também nós. 

E é assim que o evangelista João nos coloca diante do acontecimento da Ressurreição de Jesus. Se a paixão, morte e sepultura de Jesus é relatada o mesmo não podemos dizer da ressurreição de Jesus. A ressurreição de Jesus não é relatada. Na verdade, a momento e o modo da ressurreição ninguém tenta descrever porque esta transcende a experiência sensível. Na narração pascal, o que se relata são os anúncios que se fazem da ressurreição. Anúncio que vem de Deus e que depois de recebido é continuado por anunciadores habilitados. Na verdade, só se poderá anunciar correctamente a ressurreição de Jesus se confessarmos como é que esse acontecimento nos transformou. O anúncio será que Jesus morreu e ressuscitou e que o seu perdão nos reabilitou. “Somos nós, somos nós, Senhor, a prova de que Tu ressuscitaste” (Ravasi). 

Ao ressuscitar, Jesus não regressa à vida mortal de antes da morte. Entra na planície sem fim da vida verdadeira. Disto não pode haver relato. Só pode haver anúncio, que é em primeiro lugar de Deus. Assim sendo, o anúncio da ressurreição de Jesus por Deus é o fim do relato da paixão e de todo o relato que possa haver. O relato da Paixão não termina com a morte. É a vida que põe o termo ao relato da Paixão. Mas o que é primeiro: o relato da paixão ou o anúncio da ressurreição? Em termos cronológicos e narrativos o relato da Paixão precede o anúncio da ressurreição. Mas, em termos de enunciação, é o anúncio da ressurreição que precede o relato da Paixão. 

O anúncio sempre primeiro da Ressurreição arrasta consigo um novo relato, um testemunho de como Cristo atravessou e transformou a vida do anunciador com o seu perdão. O anunciador é então um narrador. Assim sendo, a notícia leva o Evangelho. Mas é o relato que constrói a Igreja. A originalidade da Igreja não está em anunciar o Amor mas em relatá-lo. 

O relato da Paixão, como já afirmamos, não tem continuação. O seu final guarda uma ruptura que se traduz no abandono dos discípulos e pelo facto de, ao relato da paixão, não seguir o relato da ressurreição mas o relato do anúncio da ressurreição. Se o relato da ressurreição se seguisse ao relato da paixão, os discípulos de Jesus apareceriam simplesmente como seus continuadores. Na verdade, se os discípulos e nós, aos olhos da história empírica, somos simples continuadores, na estrutura do relato nós somos outra coisa, somos contemporâneos de Cristo Ressuscitado. Isto faz dos apóstolos e dos discípulos actuais, contemporâneos da Paixão e Ressurreição de Cristo e implicados nela. Não podemos narrar a Paixão de Cristo sem revelar a nossa própria história de pecado. Anunciar a ressurreição do Senhor não faria qualquer sentido se não testemunhássemos que recebemos a vida verdadeira. Todos nós somos contemporâneos da Paixão e Ressurreição de Cristo e não simples continuadores. É este o Hoje da salvação e este hoje vive-se na Igreja. A Igreja é esposa de Cristo e não sua filha ou viúva. Não temos de demonstrar nada, apenas temos de testemunhar, em todos os locais e a todas as pessoas, o Amor Primeiro ressuscitado e ressuscitador que acolhe e dissolve a nossa violência. A experiência do testemunho é sempre mais forte e mais radical que as provas que eventualmente se queiram dar. O testemunho é mais eficaz quando não incita o destinatário a reconhecer-se vencido pelas provas, mas o leva a fazer a experiência do testemunhado. É por isto, e só por isto, que em tantas terras no dia de hoje se faz a visita pascal, é por isto que todos nós somos enviados como testemunhas credíveis da Páscoa do Senhor para a Páscoa de toda a Criação.

P. Nuno Ventura Martins

missionário passionista

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