Ano C – Domingo de Ramos na Paixão do Senhor

1ª Leitura: Is 50, 4-7;
Salmo: Sl 21, 8-9. 17-18a. 19-20. 23-24;
2ª Leitura: Filip 2, 6-11;
Evangelho: Lc 22, 14 – 23, 56 ou Lc 23, 1-49.

Celebramos hoje o Domingo de Ramos na Paixão do Senhor. Com a celebração deste Domingo damos início à Semana Santa ou Semana Maior, como a chama a Igreja do oriente. No entanto, porque razão chamamos a esta semana de Semana Santa ou Semana Maior? Não é certamente por esta semana ser cronologicamente maior ou por estes dias serem mais santos que os outros. Esta semana chama-se Semana Santa ou Semana Maior porque nela celebramos os acontecimentos mais santos e maiores da nossa fé, ou seja, a celebramos a Paixão, Morte e Ressurreição do Senhor. Esta é uma semana em que celebramos o essencial da vida dos cristãos e a identidade dos cristãos. 

O título que se atribui à celebração deste VI Domingo da Quaresma (Domingo de Ramos na Paixão do Senhor) indica os dois mistérios que celebramos nesta celebração: a entrada triunfal de Jesus de Nazaré e a Paixão e Morte de Jesus na cruz. 

A celebração deste Domingo começa com uma procissão, mais ou menos solene, que faz memória da entrada de Jesus em Nazaré. Com esta procissão, que já no século IV se fazia em Jerusalém, comemoramos a entrada messiânica de Jesus, como Messias e Servo, em Jerusalém para aí realizar a sua entrega pascal para a salvação da humanidade. É a entrada triunfal mas modesta e humilde do Rei e Messias que os profetas anunciaram e que não vem para dominar mas para servir e dar a vida em resgate pela humanidade. 

A outra grande característica deste Domingo é a proclamação solene do Evangelho da Paixão. O relato da Paixão que é proclamado neste Domingo é o do evangelho de Lucas, do evangelista da misericórdia que nos acompanha neste ano litúrgico. O relato da Paixão segundo S. Lucas situa-se entre as narrativas da Paixão de Marcos/Mateus e a de João. Não podemos e nunca esgotaremos toda a profundidade do relato da Paixão e Morte de Jesus na cruz. No entanto, deixamos aqui algumas pistas de reflexão sobre as diversas cenas do evangelho deste Domingo. 

Depois da narração da última ceia (22, 14-38), o intenso relato da Paixão de Lucas pode-se dividir em mais quatro grandes partes: a oração e a prisão no monte das oliveiras (22, 39-53); a negação de Pedro e o interrogatório do sinédrio (22, 54-71); o processo ante Pilatos e Herodes (23, 1-25) e a crucifixão, morte e sepultura (23, 26-56). 

No monte das oliveiras, Lucas apresenta Jesus a rezar. A oração de Jesus é uma presença constante no evangelho de Lucas. Jesus, que ao longo de todo o seu ministério dedicou tempo a oração, também se dirige, de joelhos, ao Pai neste momento. Jesus reza pedindo que acima de tudo se cumpra a vontade de Deus. Segundo Lucas, esta oração não ficou sem resposta. Deus enviou-lhe um anjo para o confortar. Confortado por este auxílio divino, Jesus levanta-se para enfrentar a prova. Com o seu exemplo mas também com as suas palavras, Jesus convida os seus discípulos a rezarem para não caírem em tentação. Depois disto, Jesus é preso. No entanto, Jesus mostra que conhece a estratégia planeada deixando passar a ideia que é Ele o verdadeiro Senhor dos acontecimentos. Além disto, também se destaca o facto de Jesus chamar o traidor pelo seu nome próprio, como que despertando-o do seu pecado, e o facto de Jesus, ao curar a orelha do servo, exercer a sua misericórdia mesmo com os seus adversários.

Depois da prisão, Jesus é conduzido à casa do sumo-sacerdote e é aqui que tem lugar a negação de Pedro. Depois de ter negado por três vezes o seu Senhor, Pedro, depois de Jesus ter fitado nele o seu olhar e ao cantar do galo, dá-se conta da sua negação e começa a chorar. Quando pecamos, quando negamos Jesus, Ele dirige o seu olhar de misericórdia a cada um de nós. É a luz deste olhar misericordioso de Jesus que nos damos conta da nossa traição e nos podemos arrepender. Depois de ser negado por Pedro, Jesus é ultrajado como profeta e ao amanhecer é conduzido ao sinédrio. No sinédrio, é interrogado sobre a sua identidade de Messias e Filho de Deus. Jesus responde às preguntas que lhe fazem de maneira ambígua. Responde, porque não pode negar a sua identidade mas responde de uma maneira ambígua, porque Ele é o Messias e o Filho de Deus mas não da forma que o sinédrio entende. 

Depois de ser apresentado ao sinédrio, Jesus é conduzido a Pilatos. Um dos traços específicos do processo romano, no evangelho de Lucas, é o facto de Pilatos ter enviado Jesus a Herodes e de Pilatos e Herodes, depois desse dia, terem feito as pazes. Este pormenor deixa bem claro os efeitos da Paixão, Morte e Ressurreição de Cristo. A cruz de Cristo é causa de reconciliação. Algo importante nesta cena é o facto de a autoridade (Pilatos e Herodes) considerarem Jesus inocente. Jesus é condenado mas é inocente. 

Depois de ser condenado à morte, Jesus foi conduzido ao monte Calvário para ser crucificado. O evangelista Lucas recorda-nos que Jesus, no seu caminho para o calvário, encontrou-se com um grupo de mulheres que choravam por Ele e que com as suas lagrimas exprimiam o seu amor, a sua compaixão e a sua ternura por Jesus. No entanto, não basta chorar. Não podemos ficar num sentimentalismo estéril. É necessário actuar, é necessário fazer alguma coisa. Temos de nos converter de verdade e não ficar só pelas boas intenções.

Chegados ao calvário, Jesus é despojado das suas vestes, é crucificado e morre. No entanto, neste momento, Jesus, segundo Lucas, pronuncia três palavras. A primeira dessas palavras é “Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem”. Espanta-nos esta palavra de Jesus. Na verdade, nós não estamos habituados a saber desculpar os demais. Pelo contrário, somos muito hábeis e muito prontos a encontrar motivos e razões para acusarmos e condenarmos os outros. Jesus ensina-nos que só o perdão é o caminho para vencer toda e qualquer violência. Comtemplar Jesus na cruz é um forte desafio a perdoar os demais. A exemplo de Jesus, devemos estar sempre prontos a oferecer o perdão. O perdão não faz bem só a quem o recebe mas também a quem o dá. “Perdoar não é esquecer mas é aprender a recordar de outra maneira. Perdoar é afirmar que alguém é mais do que os seus actos.”

A seguinte palavra de Jesus na cruz é: “Em verdade te digo: Hoje estarás comigo no Paraíso”. Jesus dirige esta palavra a um dos malfeitores que foi crucificado consigo. Este malfeitor, que a tradição chamou de bom ladrão, é o primeiro de muitos frutos de conversão que a Paixão de Cristo operou e opera. No momento final da sua vida, este malfeitor dirige-se a Jesus e pede-lhe que Ele se lembre dele, ou seja, que tome conta dele, o guarde e não o abandone. A este pedido Jesus responde: “Em verdade te digo: Hoje estarás comigo no Paraíso”. É o hoje da salvação sempre oferecida por Jesus e que por nada devemos adiar para amanhã. Esta palavra de Jesus é um sinal de confiança e de salvação para todos aqueles que apesar de terem pecado se aproximam com confiança e arrependidos de Jesus. Assim sendo, nunca devemos duvidar da misericórdia e da salvação de Deus. Apesar dos nossos pecados serem grandes, a misericórdia de Deus é maior!

A terceira e última palavra de Jesus segundo Lucas é “Pai, em tuas mãos entrego o meu espírito”. Esta Palavra que Jesus pronuncia quando está a morrer é um exemplo de fé. Acreditar e confiar quando tudo corre bem é fácil. Difícil é acreditar e confiar na aparência da ausência. Jesus, apesar da aparência da ausência de Deus, morre acreditando e confiando em Deus. Como Jesus, devemos aprender a colocar a nossa vida, os nossos problemas, as nossas dificuldades e as nossas alegrias nas mãos de Deus. Ele é o nosso Pai e cuida sempre de nós. Quando nos sentimos mais sozinhos e abandonados podemos estar seguros que é nesse momento que Deus mais fortemente nos agarra e ampara. É curioso ver como algumas pessoas quando se deparam ante situações de aparente ausência de Deus recorrem a tudo menos Àquele que deviam. É curioso e triste ver como algumas pessoas ante os problemas em vez de confiarem e se agarrarem mais a Deus se voltam para farsas como a bruxaria. Será que como Jesus acreditamos e confiamos mesmo em Deus? Neste ano da Fé, este exemplo de Jesus deve-nos tocar de uma forma especial. Na verdade, esta palavra de Jesus é um exemplo vivo da sua fé, da sua confiança total em Deus e na sua presença apesar da aparência da sua ausência. 

O melhor resumo e conclusão da mensagem do dia de hoje nos oferece São Paulo da Cruz: “A Paixão de Cristo é a maior e mais maravilhosa obra do amor Divino” e “A paixão de Cristo é o remédio mais eficaz contra os males de todos os tempos”. Vivamos intensamente esta semana com uma participação efectiva e afectiva nas diversas celebrações. Na verdade, é a nossa história que celebramos.

P. Nuno Ventura Martins

missionário passionista

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