Ano C – Festa do Baptismo do Senhor

1ª Leitura: Is 42, 1-4. 6-7;
Salmo: Sl 28 (29), 1-2. 3ac-4. 3b e 9b-10;
2ª Leitura: Act 10, 34-38;
Evangelho: Lc 3, 15-16. 21-22.


Ao fazer a transição entre o Tempo de Natal e o Tempo Comum a Igreja convida-nos a celebrar a festa do Baptismo do Senhor.

O Baptismo de Jesus é um momento importante na sua vida. Prova disto é o facto dos quatro evangelhos canónicos narrarem a cena do baptismo de Jesus (Mateus, Marcos e Lucas) ou fazerem referência a tal acontecimento (João). Na verdade, com o baptismo de Jesus por João Baptista, nas margens do rio do Jordão, dá-se o início da vida pública de Jesus.

O baptismo que João convida a receber era um baptismo de penitência. Baptismo esse que se distingue das habituais abluções religiosa, uma vez que não é reiterável e que exige uma mudança radical de vida. O baptismo de João está relacionado com o anúncio do juízo de Deus e porta consigo um convite a uma nova maneira de pensar e de agir. João é o precursor do Messias e com o seu baptismo e pregação deve preparar o caminho do Senhor. Na verdade, o baptismo de João queria superar a existência pecaminosa vivida até então e iniciar uma nova existência transformada. O próprio rito baptismal, imersão nas águas, manifesta esta verdade. Na verdade, se por um lado a imersão das águas simboliza a morte por outro lado tal acção também é símbolo de vida e faz referência ao dilúvio. Assim sendo, o baptismo de João é um baptismo de purificação, de libertação do pecado e de recomeço. 

No entanto, afirmar que Jesus se sujeitou ao baptismo de João é algo inquietante. O baptismo de João era um baptismo dirigido aos pecadores e de arrependimento dos pecados e nós afirmamos que Jesus é igual a nós em tudo menos do pecado. Se Jesus não tem pecado porque quis ser baptizado por João no Jordão? 

Ao receber o baptismo de penitência de João, Jesus solidarizou-se com a humanidade pecadora para a ajudar a sair da escravidão do pecado em que vivia. Na verdade, Jesus, como afirma João Baptista no evangelho de São João, é o cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo (cf. Jo 1, 29). Jesus é “o verdadeiro cordeiro pascal que expiando apaga os pecados do mundo” (Ratzinger). Jesus tornou-se solidário connosco no pecado para nos libertar do pecado e da morte. Assim sendo, o baptismo de Jesus já faz referência ao mistério pascal de Cristo.

“A antecipação da morte na cruz, que acontecera no Baptismo, e a antecipação da ressurreição, anunciada pela voz do céu tornam-se realidade no mistério pascal de Jesus”. (Ratzinger) Na verdade, não nos podemos esquecer que no evangelho de João a morte de Jesus na cruz é apresentada como o sacrifício do verdadeiro cordeiro pascal. A referência do baptismo de Jesus ao mistério pascal é o que permite compreender o baptismo cristão.

Do baptismo de Jesus fala-nos a segunda parte do evangelho deste Domingo. Na primeira parte do evangelho deste Domingo, João esclarece que não é o Messias. Ele é um simples “escravo” (a função de desatar as correias das sandálias era tarefa de escravos) do Messias que está a chegar e que, além de ser mais forte do que João, baptizará o povo com o fogo e com o Espírito. Assim sendo, João esclarece à multidão que ele não é o Messias e que a sua missão limita-se a preparar o povo para acolher o Messias que está para chegar. 

Em seguida, Lucas refere-se ao baptismo de Jesus. Nesta cena do baptismo de Jesus, narrada por Lucas, devemos prestar atenção a alguns pormenores: o facto de Jesus ser baptizado enquanto todo o povo recebia o baptismo, a oração de Jesus, os céus abertos, a pomba e a voz do céu.

Só Lucas refere o facto de Jesus ser baptizado “quando todo o povo recebeu o baptismo”. Este pormenor sublinha a solidariedade de Jesus. Jesus é aquele que se põe ao lado dos pecadores. 

Também é exclusivo de Lucas a indicação de que Jesus estava em oração no momento do seu baptismo. O evangelista Lucas, ao longo do seu evangelho, insiste muito no facto de Jesus rezar. “Jesus não reza para nos dar bom exemplo. Ele precisa, como nós, de descobrir qual é a vontade do Pai, precisa de receber a sua luz e a sua força para fazer em cada momento aquilo que lhe agrada” (Fernando Armellini). 

Os céus abertos, a pomba e a voz vinda do céu revelam-nos a identidade e a missão de Jesus. Os céus abertos indicam a união entre o céu e a terra e indicam que Jesus vai reconciliar a humanidade com Deus. “ A sua [de Jesus] comunhão de vontade com o Pai, o seu cumprimento de «toda a justiça» abre o céu, que, por natureza, é o lugar onde se cumpre perfeitamente a vontade do Pai” (Ratzinger). A pomba, símbolo do Espírito Santo, faz referência ao Espírito de Deus que pairava sobre as águas primordiais da criação. Em Jesus, com as suas palavras e obras, inicia-se uma nova criação. A voz vinda dos céus era um recurso utilizado pelos mestres para mostrar a opinião de Deus sobre um acontecimento ou sobre uma pessoa. Esta voz vinda do céu, vinda de Deus, é a proclamação da missão de Cristo. No entanto, tal proclamação “não anuncia um fazer mas o seu ser: ele é o filho muito amado no qual repousa a complacência de Deus” (Ratzinger). A voz declara que Jesus é o filho de Deus citando implicitamente as palavras do primeiro cântico do Servo que a primeira leitura do livro de Isaías nos oferece: “Eis o meu servo, a quem Eu protejo, o meu eleito, enlevo da minha alma. Sobre ele fiz repousar o meu espírito”.  

O Servo de Deus é uma personagem importante na expectativa messiânica. Na verdade, o Servo é um predilecto de Deus, chamado por Deus a uma missão profética universal. No entanto, aquilo que caracteriza a missão do servo é o facto de ela ser realizada através do sofrimento e da sua entrega incondicional. No entanto, os sofrimentos do Servo têm um valor expiatório e redentor. Como mostra a voz vinda do céu e a afirmação de Pedro, na segunda leitura (“Deus ungiu com a força do Espírito Santo a Jesus de Nazaré, que passou fazendo o bem e curando todos os que eram oprimidos pelo demónio, porque Deus estava com Ele”), a figura misteriosa do Servo do Senhor tem o seu pleno cumprimento em Jesus. Fica claro que Jesus é o Filho de Deus mas também é preanunciado que a sua missão não será levada a cabo pelo triunfo, pelo poder e pela prepotência mas na obediência a Deus e na mansidão. Na verdade, como diz a primeira leitura desta celebração, “não gritará, nem levantará a voz; não quebrará a cana fendida, nem apagará a torcida que ainda fumega”.

Além disto, também encontramos na perícope evangélica deste domingo um prenúncio do mistério trinitário. Na verdade, este texto fala da voz do Pai, da descida do Espírito e do título de Filho. Tal prenúncio trinitário será, no evangelho de Mateus, revelado mais explicitamente aquando do envio missionário: “Ide, pois, fazei discípulos de todos os povos, baptizando-os em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo” (Mt 28, 19). Tal referência faz-nos reflectir sobre o baptismo cristão, sobre o nosso baptismo. Na verdade, o baptismo que os discípulos de Jesus administram é “a entrada no baptismo de Jesus, a entrada na realidade que Ele com o mesmo antecipara” (Ratzinger).

Pelo Baptismo a Páscoa de Cristo acontece nas nossas vidas: morremos para o pecado e nascemos para a vida da graça. Além disso, pelo baptismo também nos tornamos filhos de Deus. De certa maneira podemos dizer que quando alguém é baptizado os céus voltam-se a abrir e volta-se a escutar uma voz que diz “tu és o meu filho muito amado”. 

A celebração do baptismo de Jesus interpela-nos. Como estou eu a viver a minha vocação baptismal? Vivo como filho de Deus e em obediência aos seus mandamentos? Vivo em solidariedade com toda a Igreja à qual fui agregado pelo baptismo?

A celebração do baptismo do Senhor, início do seu ministério público, convida-nos a reavivar a nossa vocação de baptizados: filhos de Deus, membros da Igreja e testemunhas da Páscoa de Cristo.

P. Nuno Ventura Martins

missionário passionista

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