Ano C – Festa Sagrada Família de Jesus, Maria e José

1ª Leitura: Sir 3, 3-7. 14-17a (gr. 2-6. 12-14);
Salmo: Sl 127, 1-2. 3. 4-5;
2ª Leitura: Col 3, 12-21;
Evangelho: Lc 2, 41-52.

Em pleno tempo de Natal, considerado como a festa da família, a liturgia deste domingo convida-nos a celebrar a Festa da Sagrada Família. É uma festa tipicamente natalícia. Na verdade, Jesus encarnou no seio de uma família e foi no seio de uma família humana que foi crescendo em estatura, sabedoria e graça aos olhos de Deus e aos olhos dos homens. 

A família é uma realidade importante tanto para a vida social como para a nossa caminhada de fé. Na verdade, a família é considerada a Igreja Doméstica. Além disto, o apóstolo São Paulo utiliza a analogia da família, do amor fiel e fecundo dos esposos para descrever a relação de Cristo com a Igreja. Tal analogia porta consigo uma grande dignidade para a vida matrimonial e familiar. Os esposos, pelo sacramento do matrimónio, devem ser sacramentos do amor de Cristo pela sua Igreja, do amor de Deus pelo seu povo. 

Assim sendo, a fé cristã, e de uma maneira muito especial a liturgia da palavra deste dia, ilumina a realidade da família, uma realidade que por ser tão humana é tão divina. 

O evangelho deste dia apresenta-nos um episódio da vida da família de Nazaré que a primeira vista nos pode parecer desconcertante: a perda e o encontro do menino Jesus no templo. Como foi possível que o menino Jesus tenha ficado em Jerusalém sem ter pedido autorização aos pais e depois tenha respondido de uma forma dura a Nossa Senhora? Não será isto uma desobediência que contrasta com o final do evangelho (“Jesus … era-lhes submisso”)?

O episódio relatado não foi redigido nos dias seguintes a ter acontecido mas só depois da ressurreição de Jesus, cerca de 50 anos depois da ressurreição de Jesus, e a luz do Senhor Ressuscitado transparece neste texto. Na verdade, este episódio evoca, no início do evangelho, o mistério pascal de Cristo. São vários os motivos que estão presentes no relato da perda e do encontro de Jesus no templo e nos relatos da paixão, morte e ressurreição de Jesus (Jerusalém, festa da Páscoa, vontade do Pai, abandono de Jesus, procura de Jesus, os três dias, …). Assim sendo, ao lermos este episódio mais do que uma crónica jornalística dos factos temos uma catequese sobre a pessoa e a missão de Jesus onde se apresentam os temas teológicos que serão desenvolvidos ao longo do evangelho. 

Não deixa de ser significativo o facto da primeira fala de Jesus, no evangelho se Lucas, se encontrar neste episódio: “Porque Me procuráveis? Não sabíeis que Eu devia estar na casa de meu Pai?” Com esta resposta, Jesus afirma que Deus é o seu Pai e que cumprir a sua vontade é a sua prioridade fundamental. 

No entanto, do evangelho deste dia gostaria de ressaltar um aspecto que deve estra presente na vida familiar. Refiro-me a educação religiosa. A peregrinação a Jerusalém três vezes ao ano por ocasião das principais festas era uma prescrição da lei de Israel. No entanto, tal prescrição só obrigava os homens adultos e era aos treze anos que, em Israel, uma pessoa se tornava adulta e  passava a estar obrigada a cumprir a lei.  
Contudo, quando ocorreu o episódio evangélico deste dia Jesus só tinha 12 anos. Este facto mostra-nos a religiosidade da família de Jesus e como Maria e José, através do seu exemplo e da sua educação, queriam habituar Jesus, pouco a pouco, aos mandamentos. Além disto, a anotação final do evangelho deste dia (“Jesus desceu então com eles para Nazaré e era-lhes submisso. Sua Mãe guardava todos estes acontecimentos em seu coração. E Jesus ia crescendo em sabedoria, em estatura e em graça, diante de Deus e dos homens”) também nos revela que a dimensão religiosa da educação não estava ausente na família de Nazaré e que está é de extrema importância numa formação humana integral. 

O apóstolo Paulo, na leitura aos cristãos de Colossos que hoje escutávamos, também nos dá sábios e importantes conselhos para uma boa vida familiar. Começa o Apóstolo por nos aconselhar: “habite em vós com abundância a Palavra de Cristo, para vos instruirdes e aconselhardes uns aos outros com toda a sabedoria”. 

A carta aos colossenses depois de, numa primeira parte, ter apresentado o papel de Cristo na criação e na redenção apresenta, na segunda parte da carta, as consequências da nossa adesão a Cristo. A nossa vida quotidiana, toda a nossa realidade humana deve ser iluminada pela nossa adesão a Cristo e pela nossa fé. A fé não se limita a um conjunto verdades que temos de acreditar. A fé é um estilo de vida concreto a luz da Palavra de Deus. A fé exige uma resposta existencial. 

Assim sendo, a partir de Cristo e tendo em conta a cultura de então, o autor da carta aos colossenses ilumina a vida familiar. A submissão no Senhor das esposas, o amor dos maridos, a obediência dos filhos e a pedagogia carinhosa dos pais devem ser as características dos que aderiram a Cristo.

Não nego que à primeira vista esta leitura possa encher de perplexidade os cristãos contemporâneos. Na verdade, parece que Paulo aprova uma moral familiar de repressão e de submissão. No entanto, a mensagem que esta leitura nos transmite é destruidora de toda a repressão e submissão. É o exemplo de Jesus que nos amou e se entregou por nós que é o critério do homem novo: “ Revesti-vos da caridade, que é o vínculo da perfeição”. Paulo não destrói a ordem social existente mas coloca-lhe um novo fundamento que a revoluciona totalmente. 

Iluminados pelo exemplo de Cristo e chamados a seguir o seu exemplo de amor a família torna-se um espaço vital para a vivência da fé. O amor entre o marido e a esposa é símbolo do amor de Cristo à sua Igreja. Assim sendo, os valores do amor oblativo e gratuito, o respeito, o cuidado mútuo devem ser as credenciais com que cada família cristã se apresenta ao mundo. 

Além disto os pais não devem se demitir da tarefa tão necessária e cada vez mais necessária que é a educação dos filhos. Tal educação não deve ser feita com violência mas com amor. A força pode vencer mas só o amor é que convence e transforma. Um amor que acompanha, exorta, estimula, corrige e anima. Os pais devem ser as primeiras testemunhas do evangelho para os seus filhos. 

Aos filhos Paulo exorta a obediência. Não são de hoje as queixas que se ouvem da boca de alguns filhos: “Os meus pais são uns retrógrados. Eles não percebem nada disto.”

Já a primeira leitura do livro do Eclesiástico, que é um livro sapiencial que oferece aos judeus, fascinados pela cultura grega, os valores tradicionais da fé judaica e alguns conselhos para viverem bem e serem felizes, nos apresenta ressonâncias desta crítica. Ante isto exorta o autor sagrado: “Filho, ampara a velhice do teu pai e não o desgostes durante a sua vida. Se a sua mente enfraquece, sê indulgente para com ele e não o desprezes, tu que estás no vigor da vida”. 

A primeira leitura deste dia é uma explicação do quarto mandamento: “Honra teu pai e tua mãe”. A palavra-chave deste texto é a honra. Os filhos devem honrar os seus pais. No entanto, honrar não é simplesmente obedecer. Honrar é obedecer, respeitar, ajudar, dar espaço, dar afecto e importância aos pais.

Este texto mostra-nos que respeitar o Pai e a Mãe é temer o Senhor e que abandonar os pais é uma blasfémia contra Deus. 

Neste dia em que celebramos a Sagrada Família e que a liturgia da palavra nos ilumina e nos convida a pensar na nossa vida familiar, devemos tomar consciência que a família é um caminho de santidade, de vida feliz e realizada. No entanto, isto só se pode tornar realidade quando os valores do egoísmo e da tirania desaparecerem e cederem o seu lugar aos valores de Cristo: amor, respeito e fidelidade.

P. Nuno Ventura Martins

missionário passionista

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