Ano C – I Domingo da Quaresma

1ª Leitura: Deut 26, 4-10;
Salmo: Sl 90 (91), 1-2. 10-11. 12-13. 14-15;
2ª Leitura: Rom 10, 8-13;
Evangelho: Lc 4, 1-13.

Na passada Quarta-feira iniciamos o tempo da Quaresma com o sugestivo sinal das cinzas que nos recordava a necessidade de conversão e a nossa debilidade. No entanto, a Quaresma para muitos não é um tempo bem querido. Não são poucos aqueles que consideram a Quaresma, com a sua espiritualidade e práticas ascéticas, um tempo mórbido e até deprimente. Talvez quem assim pense ainda não tenha compreendido verdadeiramente o que é a Quaresma. 

O tempo da Quaresma não é um fim em si mesmo mas um caminho, um tempo de graça oferecido por Deus que nos conduz até à Páscoa. É à Páscoa, à vida, à esperança, à alegria e à vida nova que queremos chegar. Contudo, a nossa vida presente está muito longe desta meta desejada. Assim sendo, como podemos chegar à felicidade e alegria pascal partindo de uma vida com tantos sinais de morte, de desespero, de tristeza e de desespero? A resposta é fácil: seguindo o caminho da conversão quaresmal. E este caminho de conversão quaresmal, como nos recordava Jesus, no evangelho da passada Quarta-feira, é composto de três pedras: a esmola, a oração e o jejum. 

No entanto, estas práticas não se devem reduzir a gestos externos mas devem ser a expressão do crescimento da vida cristã. O jejum tem de ser sinal do exercício das virtudes da ascese cristã, ou seja, daquele esforço que fazemos contra as más inclinações e as tentações que tantas vezes temos e uma manifestação do meu amor a Deus e ao próximo. A esmola tem de ser o sinal da verdadeira caridade fraterna e não se limita a dar dinheiro. Muitas vezes nas nossas casas faz mais falta dar tempo e atenção que propriamente coisas. A oração deve ser o sinal daquela intimidade que devemos ter com Deus. No tempo da Quaresma devemo-nos esforçar por dedicarmos mais tempo à oração, à leitura da Bíblia, à participação na eucaristia semanal e na via-sacra… Só com Deus é que nos podemos converter e Ele não nos abandona mas sempre nos acompanha e guia com a sua misericórdia e o seu amor neste caminho quaresmal. 

Porém, no presente ano da fé, a Quaresma deve ser vivida mais intensamente como uma preparação para a renovação das promessas baptismais que faremos na Vigília Pascal. A Quaresma deve ajudar-nos a (re)descobrir e a (re)afirmar a nossa fé. É nesta direcção que aponta Liturgia da Palavra deste I Domingo da Quaresma ao abordar o tema da fé. 

Na segunda leitura deste Domingo escutávamos a exortação do Apóstolo Paulo aos cristãos de Roma: “se confessares com a tua boca que Jesus é o Senhor e se acreditares no teu coração que Deus O ressuscitou dos mortos, serás salvo.” Com tal exortação o Apóstolo diz-nos que a nossa fé deve ser professada com a boca mas também com o coração. Antes de confessarmos a fé com os lábios temos de acreditar com o coração. Na verdade, só assim é que a profissão de fé que brotar dos nossos lábios será verdadeira. 

Mas o que significa acreditar com o coração? “Segundo uma sugestiva … etimologia medieval ‘crer’ deriva de cor dare, dar o coração” (Bruno Forte). Penso que esta etimologia, apesar de ser um pouco fantasiosa, nos indica o que é verdadeiramente crer e acreditar. Crer e acreditar é confiança e entrega. Além disto, não nos devemos esquecer que para a mentalidade bíblica o coração é a sede dos pensamentos, das paixões e dos sentimentos mais variados. Por isso, acreditar com o coração é adesão, fidelidade e confiança plena e total em Deus. 

Mas, não basta acreditar no coração que Deus ressuscitou Jesus. Também é necessário professar com a boca que Jesus é o Senhor. Isto é uma consequência lógica porque, como nos recorda Jesus, “a boca fala da abundância do coração” (Lc 6, 45). Assim, se temos dificuldade em confessar com os nossos lábios que Jesus é o Senhor devemos interrogar-nos seriamente se acreditamos, se confiamos totalmente em Jesus. 

No entanto, muitos de nós podemos estar neste momento a interrogarmo-nos: concretamente o que é isso de professar a fé e de acreditar com o coração? As restantes leituras proclamadas neste Domingo respondem-nos a esta questão. A primeira leitura do livro do Deuteronómio diz-nos como deve ser a correcta profissão de fé e o episódio evangélico das tentações de Jesus exemplifica-nos o que é acreditar com o coração.

A primeira leitura deste Domingo pertence ao livro do Deuteronómio, àquele livro que recolhe os discursos que Moisés proferiu antes da entrada do povo na terra prometida e onde convidava o povo a recordar os seus compromissos com Deus e a renovar a aliança. Mais precisamente, o texto que hoje foi proclamado apresenta as leis e os costumes que o povo devia seguir quando entrasse na posse da terra prometida. Uma dessas leis era a oferta das primícias. Com esta prática, Israel reconhecia que a terra e os seus frutos são dom de Deus e assim evitava a idolatria e a auto-suficiência. Esta prática ajuda-nos a compreender a correcta profissão de fé com a boca, porque os israelitas juntamente com a oferta das primícias recitavam um credo histórico que recapitulava as intervenções amorosas de Deus na história dos homens (patriarcas, êxodo, dom da terra). Assim sendo, os israelitas professavam a sua fé narrando o Amor. É assim que nós devemos confessar a nossa fé. É esta atitude que devemos adoptar quando rezamos o credo. “Falar de Deus, narrando o seu amor, é exactamente aquilo que faz o Símbolo da fé, que confessa o Deus vivo narrando a história do Pai, criador e Senhor do céu e da terra, aquela do Filho, que se encarnou e morreu e ressuscitou por nós, e aquela do Espírito, que anima a Igreja e é vínculo da comunhão no tempo e na eternidade” (Bruno Forte). 

Por sua vez, o episódio evangélico das tentações ilustra-nos o que implica acreditar com o coração. A cena passa-se no deserto. O deserto é um lugar importante para a teologia de Israel, porque é o lugar do encontro com Deus e o lugar da prova e da tentação. Jesus ao ir, movido pelo Espírito, para o deserto vai para o lugar do encontro com Deus, do encontro com os projectos de Deus mas também para o lugar onde se sente tentado a abandonar os projectos de Deus e a seguir por outros caminhos.

Diz-nos o texto que Jesus esteve 40 dias no deserto. O número 40, na Bíblia, é um número simbólico que indica a vida de toda uma geração ou toda uma vida ou um período de preparação. Assim sendo, é toda a vida de Jesus que está representada nestes quarenta dias. Durante toda a sua vida, até ao momento da sua morte na cruz Jesus foi provado.

Também nos diz o texto que Jesus no deserto e durante 40 dias foi tentado pelo diabo, ou seja, sentiu a tentação de prescindir de Deus e da sua vontade. As tentações que Jesus sofre são as mesmas que o povo de Israel enfrentou na sua peregrinação em direcção à terra prometida. A tentação de Jesus de transformar as pedras em pão corresponde à prova da fome a que Israel foi sujeito e à consequente murmuração do povo eleito à qual Deus respondeu com o maná (cf. Ex 16; Nm 11). A promessa feita a Jesus da dádiva de todas as nações se Ele adorar Satanás corresponde à tentação do povo de Israel de substituir o verdadeiro Deus pelo ídolo do bezerro de ouro (cf. Ex 32) ou pelos deuses de Canaã (cf. Ex 23, 20-33; 34, 11-14). A tentação diabólica de Jesus se lançar abaixo do pináculo do templo para assim desencadear o milagre corresponde à sede do povo e à consequente murmuração do povo a Moisés contra Deus (cf. Ex 17, 1-7). O texto evangélico ao afirmar que Jesus foi tentado demonstra que também Jesus no âmbito da sua liberdade sentiu a tentação de dizer não ao projecto de Deus. Contudo, se o povo de Deus caiu nestas provas, Jesus alcançou a vitória porque se manteve fiel ao projecto de Deus. Jesus não cedeu às tentações tão humanas que sofre. Jesus assume-se como o servo obediente que veio para fazer a vontade do Pai e não para coincidir com os desejos mundanos. 

Assim sendo, o Senhor Jesus apresenta-se-nos a todos nós como um exemplo concreto do que é acreditar com o coração em Deus. Acreditar com o coração é uma confiança total em Deus e uma fidelidade absoluta à sua mensagem que nos ajudam a evitar os ilusórios e destrutivos caminhos do materialismo, do poder e do êxito fácil. 

Que esta Quaresma que estamos a iniciar seja verdadeiramente um itinerário de fé, duma fé que se professa com os lábios e que se acredita com o coração.

P. Nuno Ventura Martins

missionário passionista

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