Ano C – I Domingo do Advento

1ª Leitura: Jer 33, 14, 16;
Salmo: Sl 24, 4bc-5ab. 8-9. 10 e 14;
2ª Leitura: 1 Tes 3, 12 – 4, 2;
Evangelho: Lc 21, 25-28. 34-36.


Para conhecermos bem uma pessoa não basta um simples e mero encontro fugaz com ela. São necessários vários encontros para as pessoas se conhecerem bem e para se desenvolverem laços de amizade. Assim sendo, a Igreja, para possibilitar aos cristãos um melhor conhecimento do Senhor Jesus e uma maior oportunidade de conversão, dividiu o ano em tempos litúrgicos, estando cada tempo relacionado com uma festividade de Jesus Cristo. Podemos comparar o Ano Litúrgico a uma roda com 365 raios, que gira continuamente e que, ao terminar uma volta, começa uma nova volta. Os raios dessa roda estão todos unidos no centro a um eixo que é Jesus Cristo, luz do mundo, que difunde o seu esplendor sobre toda à roda através da sua mensagem. Assim sendo, o Ano Litúrgico é como uma roda de festividades que nos apresenta os aspectos fundamentais da vida e do mistério de Jesus. 

Iniciamos neste I domingo do Advento um novo ano e um novo tempo litúrgico: o Advento. Apesar do ano civil se iniciar no dia 1 de Janeiro, o ano litúrgico inicia-se neste primeiro domingo de Advento. Na verdade, a história de uma pessoa não começa no dia do seu nascimento mas no dia em que se começou a esperar a sua vinda. O tempo de Advento, como já a própria palavra o indica, é um tempo de preparação para a vinda de Cristo. De uma forma imediata, e ao preceder o Tempo de Natal, o Tempo de Advento mostra-nos como o nascimento de Jesus, do Emanuel, do Deus-connosco, foi preparado. No entanto, só na segunda parte do Tempo do Advento é que nos concentraremos na preparação da vinda histórica de Jesus. Com efeito, a primeira parte do Tempo de Advento convida-nos a tomar consciência e a prepararmos a última vinda, em glória, de Cristo para instaurar a nova criação. Na verdade, o reza assim o Prefácio de Advento I: “Ele [Jesus] veio a primeira vez, na humildade da natureza humana […]; de novo há-de vir na sua glória, para nos dar em plenitude os bens prometidos”. No entanto, entre a vinda histórica de Jesus há 2000 anos em Belém e a última vinda de Cristo, a liturgia também nos testemunha outra vinda de Cristo: “Agora Ele vem ao nosso encontro, em cada homem e em cada tempo, para que o recebamos na fé e na caridade e dêmos testemunho da gloriosa esperança do seu reino” (Prefácio do Advento I/A). 

Assim sendo, o tempo do Advento mete-nos diante de três vindas de Cristo: a vinda histórica de Jesus há 2000 em Belém, a vinda quotidiana de Cristo nos sacramentos, na Palavra proclamada, em cada homem e em cada tempo e a vinda gloriosa do Senhor no final dos tempos. Colocando-nos diante das vindas de Cristo, outra coisa não pretende ser o Tempo do Advento do que ser um tempo de preparação da vinda de Cristo. É exactamente sobre a promessa da vinda do Salvador e suas consequências que nos fala a liturgia da Palavra deste I Domingo do Advento. 

A primeira leitura deste dia é retirada do Livro de Jeremias e situa-se numa época muito complicada para o povo de Deus. Na verdade, a cidade de Jerusalém encontrava-se cercada pelo exército babilónico. No entanto, é neste contexto de eminência de uma catástrofe que acaba com todas as seguranças e esperanças humanas que ressoa este anúncio profético de Jeremias: “Dias virão, em que cumprirei a promessa que fiz à casa de Israel e à casa de Judá: Naqueles dias, naquele tempo, farei germinar para David um rebento de justiça que exercerá o direito e a justiça na terra».” Na iminência da catástrofe o profeta anuncia que Deus não se esqueceu da promessa messiânica que fez a David, que o Senhor é fiel a Sua Palavra e que o Messias surgirá. 
O Messias é apresentado por Jeremias como alguém justo e que tem por missão instaurar o direito e a justiça. A expressão “direito e justiça” refere-se ao poder judicial que possibilita uma correcta ordem social. O rei Ezequias, o monarca de Judá da altura deste oráculo profético de Jeremias, não garantiu o direito e a justiça e por isso o seu povo está na iminência da desgraça. No entanto, Deus através do Messias, do “rebento de justiça” dará ao seu povo a vida plena e feliz. 

Em tempos de crise este anúncio profético de Jeremias reacende a esperança do Povo e impede que este se resigne quer no medo do presente quer no saudosismo que nos impedem de avançar. Mesmo no meio das contrariedades e dificuldades da vida presente, a certeza de que Deus é fiel à sua Palavra e que cumprirá as suas promessas devem reavivar em nós a esperança e a confiança e alimentar o nosso esforço quotidiano. 

Na mesma linha, o evangelho deste dia apresenta-nos o anúncio, feito por Jesus, de que a libertação está próxima. Este discurso de Jesus sobre a manifestação gloriosa do Filho do Homem insere-se no Ministério de Jesus em Jerusalém. Na verdade, Jesus já entrou triunfalmente em Jerusalém e já nos encontramos nos últimos dias da vida terrena de Jesus de Nazaré. Nestas circunstâncias, Jesus completa a catequese dos seus discípulos dizendo-lhes que também eles passarão por tempos difíceis de perseguição e martírio mas não devem desanimar porque “hão-de ver o Filho do homem vir numa nuvem, com grande poder e glória. Quando estas coisas começarem a acontecer, erguei-vos e levantai a cabeça, porque a vossa libertação está próxima ”.

Ao anunciar a vinda do Filho do Homem, a vinda gloriosa de Jesus no fim dos tempos, o evangelista utiliza uma linguagem cheia de sinais catastróficos que, à primeira vista, nos podem amedrontar um pouco. No entanto, a linguagem usada pelo evangelista é a mesma linguagem simbólica que os profetas utilizam para falar do Dia de Yahwéh, do Dia da intervenção de Deus na história, intervenção essa que marcará o fim de um mundo marcado pelo pecado, pela dor, pela violência e o surgimento do novo mundo de vida, graça e santidade. A linguagem simbólica usada pelos profetas e pelo evangelista não nos quer amedrontar mas transmitir-nos a esperança e a alegria porque, como nos diz Jesus, “hão-de ver o Filho do homem vir numa nuvem, com grande poder e glória. Quando estas coisas começarem a acontecer, erguei-vos e levantai a cabeça, porque a vossa libertação está próxima ”.

Jesus é o Messias de Deus e sempre que Ele vem até nós e nós aceitamos a sua visita a nossa vida transforma-se. Sempre que aceitamos Jesus na nossa vida morremos ao homem velho e nascemos homens novos. Quando Jesus vem até nós e nós aceitamos a sua visita acontece a libertação na nossa vida. É por isso que ante a visita de Jesus outra não pode ser a nossa atitude senão a alegria, a alegria da salvação e da libertação. Cada visita de Jesus à nossa vida não provoca medo nem terror, mas libertação e alegria. 

No entanto, o evangelho deste domingo também nos exorta à vigilância, a estarmos atentos à visita de Jesus, não aconteça que Ele nos visite e nós, de tão ocupados que estamos com coisas que não tem importância nenhuma, não nos apercebamos da importante visita de Jesus à nossa vida. É por isto que o Apóstolo Paulo na primeira epístola aos tessalonicenses, lida como segunda leitura nesta celebração, pedia: “ O Senhor confirme os vossos corações numa santidade irrepreensível, diante de Deus, nosso Pai, no dia da vinda de Jesus, nosso Senhor, com todos os santos.”

Assim sendo, que nos recorda e pede este I Domingo do Advento? Recorda-nos a certeza confortante, alegre e esperançosa da vinda do Senhor para nos salvar. O Senhor que nasceu há dois mil anos em Belém há-de vir em glória no final dos tempos e vem hoje a cada um de nós na Palavra proclamada, nos sacramentos celebrados e nos irmãos e a sua vinda é sempre uma vinda de salvação. No entanto, para não desperdiçarmos esta vinda devemos, neste I Domingo do Advento, acender a vela da vigilância.

P. Nuno Ventura Martins

missionário passionista

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