Ano C – II Domingo da Quaresma

1ª Leitura: Gen 15, 5-12. 17-18;
Salmo: Sal 26 (27), 1. 7-8. 9abc. 13-14;
2ª Leitura: Filip 3, 17 – 4, 1 ou Filip 3, 20 – 4, 1;
Evangelho: Lc 9, 28b-36.

O caminho da fé é muitas vezes um caminhar no meio da escuridão, do aparente sem-sentido, do sentimento de abandono e da aparência do não cumprimento das promessas. A primeira leitura deste dia, retirada do livro do Génesis, surge na consequência de uma lamentação de Abraão que ilustra bem esta situação: “Abrão respondeu: ‘Que me dareis, Senhor Deus? Vou-me sem filhos e o herdeiro da minha casa é Eliézer, de Damasco.’ Acrescentou: ‘Não me concedeste descendência, e é um escravo, nascido na minha casa, que será o meu herdeiro’.” (Gn 15, 2-3)

Abraão sente-se defraudado, porque já está velho e o seu herdeiro nesse momento não é um filho legítimo mas um servo. No entanto, o lamento de Abraão não caiu no vazio. As nossas lagrimas e as nossas aflições são importantes demais para Deus para serem ignoradas. Ante a lamentação de Abraão, Deus responde prometendo um geração numerosa como as estrelas do céu e a posse da terra e selou tal promessa com um ritual de conclusão da aliança próprio dos povos antigos. Com este ritual, que demonstra o compromisso irrevogável e solene de Deus para com Abraão, a promessa de Deus fica garantida. É curioso que neste compromisso só Deus é que se compromete. A promessa de Deus a Abraão é algo totalmente gratuito e incondicional.

No entanto, a leitura proclamada deixa bem claro que Abraão ante a promessa de Deus não ficou indiferente. Na verdade, “Abraão acreditou no Senhor, o que lhe foi atribuído como justiça”. Abraão respondeu à promessa do Senhor com um atitude de fé, ou seja, de confiança, de entrega e de aceitação total. Abraão acreditou plenamente na palavra de Deus e por isso foi considerado justo pelo Senhor. A justiça é um conceito relacional. A Escritura ao dizer-nos que Abraão foi considerado justo pelo Senhor por ter acreditado está a afirmar que Abraão adoptou o comportamento correcto na sua relação com Deus. Talvez por isto Abraão seja considerado pelos crentes como um modelo de fé (cf. Heb 12, 8-13). 

Assim como partilhamos com Abraão a sensação da escuridão, do aparente sem-sentido, do abandono e da aparência do não cumprimento das promessas partilhemos também a sua fé, o seu acreditar contra toda a esperança. Na verdade, podemos estar seguros que Aquele que nos promete a bênção é o Deus fiel à sua palavra. 

Situação semelhante à de Abraão, deveriam estar a viver os discípulos, antes do episódio da transfiguração que o evangelho deste Domingo nos relata. Na verdade, a transfiguração de Jesus ocorre oito dias depois de Jesus ter feito o primeiro anúncio da Paixão: “o Filho do Homem tem de sofrer muito, ser rejeitado pelos anciãos, pelos sumos sacerdotes e pelos doutores da Lei, tem de ser morto e, ao terceiro dia, ressuscitar” (Lc 9, 22). E como se isto não bastasse, Jesus também declara que o caminho do discípulo deve ser um caminho de cruz: “Se alguém quer vir após mim, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz, dia após dia, e siga-me.” (Lc 9, 23)

Podemos imaginar como estavam consternados aqueles discípulos que deixaram tudo para seguir Jesus depois de ouvirem da boca de Jesus aquele primeiro anúncio da paixão e as condições para o discipulado. Certamente, que o desânimo e a frustração invadiram o coração dos discípulos. 

É neste contexto que o evangelista Lucas coloca o episódio da transfiguração que escutávamos no evangelho de hoje e que pretende ser uma chamada à esperança. Confortados por esta manifestação de Cristo, os discípulos poderão ultrapassar os acontecimentos dramáticos da paixão e morte de Jesus na cruz que colocarão a sua fé à prova.

Na verdade, a luz que resplandece no Tabor é uma antecipação da luz gloriosa da Páscoa. A transfiguração é a manifestação da glória de Cristo, é um momento culminante que antecipa a ressurreição e está escrito à luz da Páscoa. A Igreja oriental define a festa da transfiguração, celebrada a 6 de Agosto, como a Páscoa de verão. Esperando também nós a Páscoa de Cristo, este texto da transfiguração de Jesus que tem as características de uma aparição pascal com Cristo ao centro, rodeado pelos apóstolos maravilhados deve ser um estímulo neste caminho quaresmal. 

No entanto, mais que uma reportagem fotográfica dos factos, o texto evangélico da transfiguração é uma catequese que está repleta de elementos simbólicos que aparecem no Antigo Testamento. 

Começa o texto por dizer que Jesus foi com três dos seus discípulos para um monte para orar. Assim sendo, a primeira lição que este texto nos dá é que quando nos sentimos desanimados e frustrados devemos parar um pouco, devemos retirar-nos a sós com Jesus. Diz-nos o texto que este lugar retirado era um alto monte. O monte é um elemento simbólico. Na verdade, é sempre no monte que Deus se revela. 

As vestes brancas e resplandecentes, Moisés e Elias e a nuvem também são elementos simbólicos. As vestes brancas e resplandecentes evocam-nos o resplendor de Moisés depois de se ter encontrado com Deus no Monte Sinai. Moisés e Elias, protótipos da lei e dos profetas, eram duas figuras que, segundo a mentalidade de então, deveriam aparecer no dia do Senhor. Além disto, a aparição destas duas personagens, no momento da transfiguração, também sugere-nos que em Jesus se cumpre a lei e os profetas. Não é sobre qualquer assunto que Moisés e Elias falam com Jesus mas da sua morte (literalmente: do seu êxodo) que se ia consumar em Jerusalém. É pela morte de Jesus na Cruz que se realizará o verdadeiro e definitivo êxodo do povo da escravidão do pecado para a vida nova da graça. Por sua vez, a nuvem, símbolo da presença de Deus, evoca-nos aquela nuvem que guiava o povo pelo deserto em direcção à terra prometida. A voz vinda da nuvem testemunha a filiação divina de Jesus e é um convite a seguirmos as palavras de Jesus, por mais incompreensíveis e duras que sejam. 

Assim sendo, a transfiguração é uma oportunidade para os discípulos contemplarem a glória de Jesus e devolver a esperança e a confiança aos discípulos, dizer-lhes que a paixão e morte de Jesus na cruz não é o fim. Na verdade, no final do caminho de Jesus e dos seus discípulos não está a morte mas a ressurreição e a vida. 

Ante esta manifestação de Deus, Pedro acorda e, ao contemplar a glória de Jesus, deseja deter-se no tempo: “Mestre, como é bom estarmos aqui! Façamos três tendas: uma para Ti, outra para Moisés e noutra para Elias”. Os discípulos queriam deter-se naquele momento de glória e não queriam palmilhar o caminho de cruz que Jesus tinha anunciado para si e para os seus discípulos. Ante esta proposta, Jesus nada diz. Na verdade, Jesus sabe que tem de descer desse monte e caminhar em direcção a Jerusalém onde dará a vida pela salvação do mundo. Algo parecido a isto, pode-nos acontecer algumas vezes no nosso caminho de fé. Ao sentirmo-nos tristes e desanimados procuramos o Senhor na oração e acontece que o Senhor, com o seu amor, nos conforta e dá ânimo. No entanto, a oração não nos pode adormecer e paralisar. Os momentos de oração e de contemplação são momentos para “recarregarmos baterias” e não para estacionarmos. A oração não nos deve impedir de actuar mas deve levar-nos a actuar com mais esperança.

Este Domingo da transfiguração quer ser uma paragem no nosso caminho quaresmal. Como Abraão também nós nos deparamos com a aparência do sem-sentido, do abandono e do não cumprimento das promessas e como aos discípulos também a nós soam escandalosas as palavras de Jesus sobre a necessidade de percorrer o caminho da cruz. Ante as nossas dificuldades, Jesus oferece-nos uma manifestação da sua glória. No entanto, tal manifestação não é para nos deixar anestesiados mas para nos ajudar a descer do monte e a caminharmos pelo caminho da cruz em direcção à ressurreição.

P. Nuno Ventura Martins

missionário passionista

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