Ano C – III Domingo da Quaresma

1ª Leitura: Ex 3, 1-8a. 13-15;
Salmo: Sl 102 (103), 1-2. 3-4. 6-7. 8 e 11;
2ª Leitura: 1 Cor 10, 1-6. 10-12;
Evangelho: Lc 13, 1-9.

Um dos apelos que mais se escuta na Quaresma e que hoje, no evangelho, se volta a repetir é o apelo à conversão: “se não vos arrependerdes morrereis do mesmo modo”. No entanto, não são poucos aqueles que consideram que não necessitam de arrependimento e de conversão. Para muitos a vida cristã que levam e que se resume à participação na eucaristia dominical e à confissão anual é o suficiente. 

Àqueles que assim pensam não podem deixar de estremecer ao escutar as palavras que o Apóstolo Paulo dirigiu à comunidade de Corinto e que hoje escutamos na segunda leitura: “Não quero que ignoreis que os nossos pais estiveram todos debaixo da nuvem, passaram todos através do mar e na nuvem e no mar, receberam todos o baptismo de Moisés. Todos comeram o mesmo alimento espiritual e todos beberam a mesma bebida espiritual… Mas a maioria deles não agradou a Deus, pois caíram mortos no deserto”.

O Apóstolo Paulo faz esta exortação aos cristãos no contexto da sua resposta à questão que a comunidade de Corinto lhe tinha colocado sobre licitude de comer a carne sacrificada aos ídolos. Na verdade, uma parte da carne que era sacrificada aos ídolos era comercializada. Tal situação não deixava de causar algumas reservas aos crentes. Será que comprar e comer carne de animais que foram sacrificadas aos ídolos não seria uma forma de compromisso com os cultos idolátricos?  

Ante esta questão, o Apóstolo Paulo afirma que os cristãos podem comer tranquilamente a carne sacrificada aos ídolos, porque os ídolos nada são. No entanto, se tal facto causar escândalo aos membros mais débeis da comunidade deve-se actuar com cautela.

No contexto desta resposta, o Apóstolo aproveita para recordar o que realmente é importante para se ter acesso à salvação. Para obter a salvação não basta ser baptizado e participar na eucaristia. Para se ter acesso à salvação é necessário uma vida de comunhão com Deus. Para ilustrar este ensinamento, Paulo cita o exemplo dos israelitas que apesar de terem sido libertados, guiados e alimentados por Deus pereceram no deserto, porque adoraram os ídolos. Assim sendo, também para os cristãos o mais importante não deve ser os ritos externos mas uma comunhão de vida total com Deus. Os cristãos devem recordar-se que “não basta ter acreditado em Cristo (o novo Moisés), ter sido baptizado (a passagem do mar vermelho), ter recebido o Espírito (a protecção da nuvem), terem-se alimentado da Eucaristia (o Pão e o Vinho correspondem ao maná e à agua do deserto). É necessária uma vida coerente, doutro modo podem perder-se, como aconteceu aos Israelitas no deserto” (F. Armellini).

Se formos sinceros e depois de termos escutado a advertência de Paulo temos de reconhecer que também nós necessitamos de arrependimento e de conversão, porque, apesar de cumprirmos os ritos externos, as nossas vidas concretas não são vidas de comunhão com Deus e com a sua vontade. Assim sendo, o apelo à conversão que Jesus nos dirige no evangelho de hoje é dirigido a todos nós. 

Jesus dirige-se para Jerusalém com os seus discípulos. No entanto, este itinerário não se limita a um simples itinerário geográfico. Este caminho é, acima de tudo, um caminho espiritual e formativo que visa preparar os discípulos. É no contexto deste caminho que Jesus, dirigindo-se à multidão em geral e aos discípulos em particular, convida à conversão. O evangelho deste Domingo é composto por duas partes. Na primeira parte temos a referência a dois acontecimentos históricos e na segunda parte temos a parábola da figueira. 

O tema da conversão surge do facto de terem contado à Jesus um crime cometido por Pilatos: o assassínio de alguns galileus. Os interlocutores de Jesus viam este facto como um castigo de Deus àqueles galileus. Na verdade, segundo a doutrina da retribuição as desgraças eram uma consequência de algum pecado grave cometido pela pessoa. Além disto, ao contarem este episódio a Jesus os seus interlocutores também podiam estar a espera de alguma palavra de condenação aos romanos por tal acto. No entanto, a condenação e a advertência que Jesus faz não se destina aos romanos mas aos adeptos da doutrina da retribuição que consideravam as vítimas como pecadores e se consideravam como bons e justos e isentos da necessidade da conversão.

Jesus, citando o exemplo dos galileus assassinados por Pilatos e dos 18 homens que morreram na derrocada da torre de Siloé, mostra a falsidade da doutrina da retribuição e a necessidade de todos os homens se converterem. Mostra a falsidade da doutrina da retribuição, porque a imagem de um deus polícia, juiz e vingativo que ela transmite não concorda com a imagem do Deus revelado por Jesus Cristo. Assim sendo, não podemos ser apressados a considerar as vítimas de calamidades como pecadores castigados e os sobreviventes como justos. Ao refutar a doutrina da retribuição Jesus diz que todos necessitamos de arrependimento e de conversão e que o motivo que nos deve levar ao arrependimento e à conversão não é o medo do castigo divino mas a triste possibilidade da infelicidade total a que se chega por pertinazes opções equívocas. 

A segunda parte do evangelho deste Domingo, a parábola da figueira, continua o tema da necessidade da conversão juntando-lhe o ingrediente do amor paciente de Deus. O Deus cristão é o Deus paciente que sabe esperar o regresso do pecador. 

A imagem da figueira é um símbolo usado pelo Antigo Testamento para se referir a Israel e à infidelidade de Israel à Aliança. Também a vinha é um símbolo veterotestamentário do povo de Israel.  

Assim como o proprietário da figueira esperava e procurava os doces frutos da figueira também Deus espera do povo os doces frutos da aliança que são as obras de amor. No entanto, Deus não encontra os doces frutos do amor no seu povo. Que fazer ante esta situação? Cortar de imediato a figueira? Não! O Jesus do evangelho de Lucas, do evangelista da misericórdia, diz-nos que a atitude adoptada é a oferta de mais uma oportunidade: “Senhor, deixa-a ficar ainda este ano, que eu, entretanto, vou cavar-lhe em volta e deitar-lhe adubo. Talvez venha a dar frutos.” O Deus cristão é um Deus paciente, tolerante, compreensivo e misericordioso que não cessa de oferecer novas oportunidades de conversão.

No entanto, da paciência não se deve abusar. A misericórdia e a paciência de Deus não devem ser usadas, pela nossa habilidade negocial, como forma de retardarmos a urgente tarefa da conversão. Na verdade, “esta atitude longânime não deve porém ser entendida como uma indiferença perante o mal, não é uma aprovação da negligência, do desinteresse, da superficialidade. O tempo da vida é demasiado precioso para que se possa desperdiçar um só instante. Logo que se vislumbra a luz de Cristo é necessário acolhê-la e segui-la, imediatamente” (F. Armellini). Que a paciente misericórdia de Deus seja algo que nos aproxime da conversão e não algo que nos afaste dela. A certeza da misericórdia e da paciência de Deus não são algo que nos deixam comodamente instalados nos nossos pecados mas algo que nos estimula ainda mais ao arrependimento, à conversão e à mudança. 

Que a celebração deste III Domingo da Quaresma a todos nos ajude a tomar consciência da necessidade de conversão e a não “abusar” da paciente misericórdia de Deus que não cessa de nos oferecer novas oportunidades de conversão.

P. Nuno Ventura Martins

missionário passionista

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