Ano C – IV Domingo da Quaresma

1ª Leitura: Jos 5, 9a. 10-12;
Salmo: Sl 33 (34), 2-3. 4-5. 6-7;
2ª Leitura: 2 Cor 5, 17-21;
Evangelho: Lc 15,1-3.11-32

Celebramos hoje o quarto Domingo da Quaresma comummente designado, na tradição litúrgica da Igreja, por Domingo Laetere. Na verdade, este Domingo que nos fala da misericórdia de Deus é um forte convite à alegria que exteriormente se manifesta na utilização dos paramentos cor-de-rosa (junção do roxo da penitência com o branco da alegria), na ornamentação do altar com flores e no uso mais intenso dos instrumentos musicais na celebração da eucaristia. 

No entanto, para que esta alegria não seja só algo exterior mas algo que brote do nosso interior devemos aproximarmo-nos da liturgia da Palavra deste dia, pois é ela que nos revela a fonte daquela alegria que nada nem ninguém nos podem tirar: o amor misericordioso de Deus.  

O apóstolo Paulo, na segunda leitura deste dia, introduz-nos na alegria que vem do amor misericordioso de Deus ao abordar o tema da reconciliação, uma reconciliação que apesar de ser uma realidade bilateral, ou seja, de englobar Deus e os homens é uma iniciativa de divina: “É Deus que em Cristo reconcilia o mundo consigo”.

A segunda carta aos coríntios, da qual é extraída a segunda leitura deste Domingo, surgiu num contexto de reconciliação entre Paulo e a comunidade de Corinto. Depois de alguns pregadores itinerantes terem atormentado, com doutrinas erróneas, a comunidade de Corinto e terem originado assim uma certa confusão nos crentes e um descrédito do ministério de Paulo, o Apóstolo das Nações, ao saber deste facto, apressou-se em ir à comunidade de Corinto. No entanto, Paulo foi mal recebido e ofendido gravemente por um membro dessa comunidade. Tal situação levou Paulo a afastar-se fisicamente mas não espiritualmente da comunidade de Corinto. Passado algum tempo, Paulo enviou, o seu colaborador Tito, a Corinto para ver como a comunidade se encontrava. As notícias que Tito, depois da sua visita a Corinto, levou a Paulo eram animadoras: os coríntios estavam novamente em comunhão com o Apóstolo. Ante esta situação, Paulo escreve a sua segunda carta aos Coríntios, uma carta que é uma apologia do ministério do Apóstolo e onde aparecem apelos à reconciliação do homem com Deus e dos homens entre si, como nos mostra a segunda leitura deste Domingo. 

Paulo começa por afirmar que a reconciliação é uma iniciativa de Deus. É Deus que, em Cristo, dá o primeiro passo. É Deus que toma a iniciativa de se reconciliar com os homens. Contudo, todos sabemos que não há verdadeiramente reconciliação se não houver o assentimento daquele que é o objecto do perdão. É por isso que Paulo também faz o apelo, como embaixador de Deus, “reconcilia-vos com Deus”. O perdão e a misericórdia de Deus estão no princípio mas só há verdadeira reconciliação quando o perdão oferecido é recebido. 

O contexto de reconciliação entre Paulo e os coríntios, em que esta carta é escrita, também nos permite afirmar que só estando reconciliados com Deus, só estando em paz com Deus é que os homens poderão viver em paz entre si e se reconciliarem uns com os outros.  

Da reconciliação de Deus com os Homens, reconciliação essa que reconstrói vidas e existências, também nos fala a belíssima parábola que escutávamos no evangelho deste Domingo e que é um texto exclusivo do evangelista Lucas, o evangelista da misericórdia. 

A parábola proclamada pertence ao capítulo XV do evangelho de Lucas, um capítulo que apresenta três parábolas da misericórdia em forma crescente: do dracma e da ovelha que se perdem ao filho que voluntariamente se vai embora e da festa da ovelha e da moeda reencontrada ao anel no dedo, às sandálias nos pés e ao banquete com o vitelo gordo. Quanto maior for o estado de afastamento do homem de Deus maior será o amor de Deus que espera o regresso e maior será a alegria da reconciliação. 

Comummente designa-se a parábola lida neste Domingo como a parábola do Filho Pródigo. Mas também há quem a chame de parábola do pai misericordioso ou do filho ressentido. Todos estes títulos estão correctos. Se a nossa atenção se centrar na personagem do filho mais novo a parábola é a parábola do filho pródigo, pois este com o mau uso da sua liberdade tudo esbanjou. Se a nossa atenção se centrar no Pai, a parábola será a parábola do pai misericordioso que não quer a morte e o castigo do seu filho mas que ele volte a ser seu filho e a viver como filho. Por sua vez, se a nossa atenção se centrar no filho mais velho a parábola será a do filho ressentido que apesar de sempre ter estado ao lado do pai está bem longe dos seus sentimentos de misericórdia e de perdão. 

O motivo que levou Jesus a contar esta bela página evangélica foi a dureza de coração dos fariseus e dos escribas que ao verem Jesus a comer e a acolher os pecadores e os publicanos murmuravam dele. Com efeito, acolher os pecadores e criar laços de familiaridade com eles através da partilha de uma refeição era algo escandaloso para os fariseus. Além disto, tal acolhimento também era uma prova, para os fariseus, de que Jesus não era o enviado de Deus pois, segundo a doutrina tradicional, os pecadores jamais podem aproximar-se de Deus. É neste contexto que Jesus, através desta parábola, denuncia a atitude dos fariseus, personificada no filho mais velho, e revela que o que Deus quer é a salvação do pecador. Deus não é um juiz impassível mas um Pai misericordioso e cheio de compaixão que espera o regresso dos seus filhos perdidos nas malhas do pecado. 

Começa a parábola por dizer que o filho mais novo pediu ao pai a parte da herança que lhe tocava. Este pedido é dramático. Na verdade, a herança só se dá perto da hora da morte e uma única vez. O filho ao pedir a sua herança está a pedir para não ser mais filho e não ter mais pai. Respondendo à interpelação do seu filho, o pai divide os bens, melhor dizendo, a vida entre os filhos. Depois, o filho mais novo, juntando todos os seus bens, partiu para uma região longínqua operando assim um corte radical com o seu pai. O pai apesar de amar e querer o melhor para o seu filho sabe respeitar a liberdade de opção do seu filho. A liberdade é uma exigência fundamental em cada relação de amor. Na verdade, um amor que não se viva na liberdade não é amor mas tirania. 

Na sua experiência, o filho mais novo caiu no mau uso da sua liberdade ao ponto de descer ao próprio nível dos porcos, o animal mais impuro para a mentalidade semita. É nesta situação que o filho se recorda do pai. Quando é tratado segundo a lógica do patrão/trabalhador ele recorda-se do pai, símbolo da dádiva por excelência. Contudo, ele recorda-se do seu pai segunda a lógica do patrão/empregado. Na verdade, ele não quer converter-se de não filho para filho. Ele quer voltar a casa, pensando ser tratado como um assalariado. Contudo, o pai que, quando o vê ao longe corre na sua direcção, enche-se de compaixão e restabelece com o seu filho novamente a relação de pai/filho. Assim sendo, não é o filho que quer ser filho é o pai que o torna filho através do anel no dedo, das sandálias nos pés e da festa com o vitelo gordo. 

Quem não entendeu esta atitude misericordiosa do pai foi o filho mais velho que ficou ressentido com a misericórdia do pai para com o seu irmão. A caricata personagem do filho mais velho é figura de todos os fariseus e de todos os cristãos que apesar de cumprirem à risca todas as prescrições externas da lei de Deus são incapazes de ter um coração como o coração de Deus: um coração misericordioso que se alegra com a conversão dos pecadores e não com o seu castigo. 

Que a celebração deste Domingo a todos nos ajude a descobrir, na parábola de Jesus, a nossa história: a passada e aquela que queremos construir. A passada, porque também nós com o mau uso que fazemos da nossa liberdade também renunciamos muitas vezes à nossa condição de filhos de Deus. A que queremos construir, porque estimulados por esta parábola também nós devemos reconhecer o nosso erro e voltarmos para o Pai. E podemos estar seguros que o Pai que encontramos não é o pai apressado em castigar mas o Pai apressado a perdoar, a restabelecer a nossa condição de filhos e a fazer festa. É este perdão que reconstrói vidas e existências que é o verdadeiro motivo da Alegria do Domingo que hoje celebramos.

P. Nuno Ventura Martins

missionário passionista

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