Ano C – IV Domingo de Páscoa

1ª Leitura: Act 13, 14. 43-52;
Salmo: Sl Sal 99 (100), 2. 3. 5;
2ª Leitura: Ap 7, 9. 14b-17;
Evangelho: Jo 10, 27-30.

O quarto domingo de Páscoa é conhecido como o domingo do bom pastor. Isto acontece porque o evangelho deste domingo é retirado do capítulo 10 do evangelista São João onde se encontra o discurso do bom, melhor dizendo, do belo pastor. 

No entanto, falar, hoje em dia, de pastor parece anacrónico e descontextualizado. A grande maioria de nós nunca viu um rebanho com o seu pastor a não ser na televisão ou através de alguma imagem. Numa sociedade industrial e com grande concentração urbana, a imagem do pastor e do seu rebanho é uma imagem bucólica e não suscita em nós as ressonâncias pastorícias e bíblicas que deveria suscitar. Assim sendo, torna-se necessário, para compreendermos melhor a comparação que Jesus utiliza do pastor e do rebanho, indicar alguns dados. 

O pastor não é só aquele que guia e conduz o rebanho. A função de guia não separa mas une o pastor à sorte do rebanho. O pastor é um companheiro de viagem que partilha com as suas ovelhas a sede, as longas caminhadas em busca dos melhores pastos, o calor do sol e as noites frias. O pastor é aquele que se sacrifica pelas suas ovelhas. O pastor é aquele que arrisca a sua vida pelas ovelhas. 

Além deste elemento pastoril, existe um outro elemento teológico que no Antigo Testamento caracteriza o pastor. Na verdade, o Antigo Testamento aplica a imagem do pastor aos chefes, ao rei e a Deus. No contexto assírio-babilónico o rei era designado como um pastor investido por Deus e o seu governo era visto como o acto de apascentar o rebanho. No Antigo Testamento também encontramos alusões a imagem do bom pastor. O próprio Deus é designado como o Pastor de Israel (cf. Sl 23). Esta designação plasmou a piedade de Israel e tornou-se uma mensagem de consolação e de confiança sobretudo nos períodos de calamidades de Israel. 

No entanto, o texto veterotestamentário que mais influenciou o trecho evangélico de hoje foi Ezequiel 33-34. Neste texto, Deus promete ao seu povo, exilado na Babilónia e vítima de tantos líderes que foram maus pastores, que Ele próprio assumirá a condução do seu povo e colocará à frente do povo o Messias, o bom pastor.   

O contexto em que o discurso do bom pastor aparece no evangelho de São João também não deixa de ser esclarecedor. O discurso do bom pastor surge depois da polémica entre Jesus e alguns líderes judaicos, resultante da cura do cego de nascença (Jo 9, 1-41). Estes líderes, especialmente os fariseus, impediam o povo de aceder a qualquer possibilidade de vida e de libertação. Estes líderes não eram verdadeiros pastores pois só se preocupavam consigo próprios e não serviam mas serviam-se do povo para os seus interesses. 

Depois destas notas introdutórias, que facilitam a nossa compreensão da imagem do pastor e do rebanho utilizadas por Jesus, podemos entender melhor o trecho do décimo capítulo do Evangelho de S. João que foi proclamado este Domingo. No evangelho deste Domingo, Jesus mostra a relação que existe entre Ele e as suas ovelhas: “As minhas ovelhas escutam a minha voz. Eu conheço as minhas ovelhas e elas seguem-me. Eu dou-lhes a vida eterna e nunca hão-de perecer e ninguém as arrebatará da minha mão”. Vejamos mais esquematicamente. Jesus, o belo/bom Pastor, conhece as ovelhas, dá-lhes a vida eterna e não permite que as arrebatam da sua mão. O Povo do Senhor, as suas ovelhas, escutam a voz do Senhor e seguem-no. Iluminados, pelas outras leituras proclamadas neste domingo, prestemos atenção a estas cinco atitudes começando pelas atitudes de Jesus o nosso belo e bom pastor.  

A primeira atitude do belo/bom pastor é o conhecimento das suas ovelhas. Para Jesus não há multidões anónimas, massas unificadas. Para Jesus cada ser humano é uma pessoa única e irrepetível e não um número mais. Assim sendo, Jesus conhece cada uma das suas ovelhas. Com cada uma das suas ovelhas, Ele estabelece uma relação de intimidade. Conhecer na mentalidade bíblica não se reduz a uma mera actividade intelectual. Conhecer, na Sagrada Escritura, envolve a mente, o coração, a paixão, o afecto, a vontade, a inteligência e a acção. Ao dizer que conhece as suas ovelhas, Jesus está a dizer que entre Ele e as suas ovelhas existe uma forte comunhão de vida. “Entre os fiéis e Cristo existe uma comunhão real e intensa que não se quebra com as debandadas do rebanho, que não se apaga com a solidão e o isolamento criado pelas ovelhas rebeldes ” (Ravasi). Podemos agora compreender outra das atitudes que Jesus tem para com as suas ovelhas: “nunca hão-de perecer e ninguém as arrebatará da minha mão”. Se entre o Senhor e cada um de nós, ovelhas do seu rebanho, há tão forte relação de intimidade, comunhão e amor nada e ninguém nos poderá separar d’Ele (cf. Rm 8, 31-39). “A sua salvação [das ovelhas] é garantida não pela sua docilidade, pela sua fidelidade, a sua coragem, o seu amor gratuito e incondicional. Este é o grande anúncio! Esta é a grande notícia que vem da Páscoa e que o cristão deve comunicar a cada pessoa. Também a quem errou tudo na vida Ele deve assegurar: as tuas misérias, as tuas faltas, as tuas escolhas de morte não conseguirão derrotar o amor de Cristo” (Armellini).

A última atitude do belo/bom pastor para com as suas ovelhas é a dádiva da vida eterna. Na verdade, como nos dizia a segunda leitura deste dia, retirada do livro do Apocalipse, “O Cordeiro, que está no meio do trono, será o seu pastor e os conduzirá às fontes da água viva”. Assim como o pastor do rebanho conduz as suas ovelhas para os prados verdejantes e para as fontes das águas cristalinas, assim o Senhor Ressuscitado a todos nos conduz à felicidade plena e total: “Aquele que está sentado no trono abrigá-los-á na sua tenda. Nunca mais terão fome nem sede, nem o sol ou o vento ardente cairão sobre eles. O Cordeiro, que está no meio do trono, será o seu pastor e os conduzirá às fontes da água viva. E Deus enxugará todas as lágrimas dos seus olhos”.  

Por sua vez, as ovelhas do rebanho do Senhor, o seu povo devem escutar a sua voz e segui-lo. Escutar a voz do belo/pastor não se limita a ouvir as palavras que Ele nos dirige mas acolhe-las e aceita-las. Nem sempre as ovelhas escutam a voz do Pastor que lhes fala e que as quer conduzir à vida plena e feliz, à alegria. Exemplo concreto disto é a primeira leitura deste domingo, retirada dos Actos dos Apóstolos, que nos mostra duas atitudes bem distintas ante a Palavra de Deus anunciada por Paulo e Barnabé. Os judeus recusam o Evangelho. Por sua vez, os pagãos ouvem a Palavra do Senhor e aceitam-na e isso enche-os de alegria. Nem sempre escutar a Palavra que o Senhor nos dirige é fácil e agradável. Na verdade, a sua Palavra é uma Palavra que muitas vezes denuncia situações erradas e nos desinstala ao pedir-nos para irmos mais além. Mas devemos estar seguros que só escutando a sua Palavra podemos chegar à verdadeira alegria. 

No entanto, não basta escutar a Palavra do Senhor. É necessário segui-lo. S. Tiago exorta-nos com grande claridade neste sentido: “Mas tendes de a pôr em prática e não apenas ouvi-la, enganando-vos a vós mesmos. Porque, quem se contenta com ouvir a palavra, sem a pôr em prática, assemelha-se a alguém que contempla a sua fisionomia num espelho; mal acaba de se contemplar, sai dali e esquece-se de como era. Aquele, porém, que medita com atenção a lei perfeita, a lei da liberdade, e nela persevera – não como quem a ouve e logo se esquece, mas como quem a cumpre – esse encontrará a felicidade ao pô-la em prática” (Tg 1, 22-25).

Neste domingo celebramos também o 50º Dia Mundial de Oração pelas Vocações. É um dia para pedirmos que o belo/bom Pastor dê sempre ao seu rebanho pastores segundo o seu coração. No entanto, também é um dia para nos interrogarmos com seriedade: por qual caminho é que o Senhor quer que o siga: sacerdócio, vida consagrada ou matrimónio? Não fechemos os ouvidos ao convite do Senhor. Só aceitando o seu convite teremos a vida eterna.

P. Nuno Ventura Martins

missionário passionista

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