Ano C – Quarta-feira de Cinzas

1ª Leitura: Joel 2, 12-18;
Salmo: Sl 50, 3-4. 5-6a. 12-13. 14 e 17;
2ª Leitura: 2 Cor 5, 20 – 6, 2;
Evangelho: Mt 6, 1-6. 16-18.

Iniciamos, nesta quarta-feira, o tempo litúrgico da Quaresma com o símbolo da imposição das cinzas. As cinzas são o resultado de algo que é queimado pelo fogo. Assim, o símbolo das cinzas recorda-nos a morte, a destruição, a caducidade e a fragilidade humana e convida-nos à penitência e à humildade. No entanto, a Quaresma é um caminho e não uma meta. A meta é a Páscoa do Senhor e nessa meta encontramos outros símbolos que nos ajudam a compreender o significado das cinzas. Na vigília pascal, encontramos os símbolos da água e da luz, símbolos de vida, da vida nova do Ressuscitado na qual somos enxertados pelo baptismo. Assim sendo, ao começarmos a Quaresma, com o símbolo das cinzas, queremos reconhecer que é preciso morrer a tantas coisas que nos impedem de viver para podermos ressuscitar para uma vida de homens novos. 

O tempo da Quaresma, como diz S. Paulo na sua segunda carta aos Coríntios, é um tempo favorável para nos convertermos, é o tempo para nos reconciliarmos com Deus. Todos nós, na nossa vida diária, procuramos momentos favoráveis e oportunos para realizarmos as coisas. Os agricultores escolhem as épocas ideais para fazerem as sementeiras. Os turistas buscam os dias de sol para fazerem belos passeios. A Quaresma é o tempo favorável para nos reconciliar com Deus. Ao longo da nossa vida cristã nem sempre somos fiéis à nossa vocação baptismal que se deve manifestar no amor a Deus e aos irmãos. Por isso, o próprio Deus, muitas vezes pela boca dos seus ministros, “embaixadores da graça de Deus”, convida-nos a olhar para a nossa vida e a fazermos um exame de consciência para reconhecermos os nossos erros, para pedirmos o perdão e para, animados pela graça de Deus, voltarmos à vida nova que nasce da Páscoa de Cristo.    

No entanto, a Quaresma não é um tempo que tem o pecado no seu centro. No centro, como diz S. Paulo, está a graça, o amor de Deus que revela a nossa verdade e nos leva mais além. Neste tempo, não recebamos o amor de Deus em vão. A Quaresma é uma oportunidade única que se nos concede. A Quaresma é o tempo de nos reconciliarmos com Deus. Só reconciliados com Deus é que podemos ser felizes. Ninguém é feliz sozinho e em guerra com os outros. Nesta Quaresma, saibamos e esforcemo-nos por nos aproximar de Deus que se aproxima de nós, independentemente da nossa situação, para nos salvar e dar a vida em abundância. Desfrutemos este momento onde o amor de Deus nos acompanha e nos ajuda a morrer para o pecado e a (re)nascer para a vida nova dos filhos de Deus. 

No entanto, neste caminho de conversão, somos convidados a obras concretas de conversão e de mudança de vida, obras que manifestem a inversão na direcção da nossa marcha. Neste caminho de conversão em direcção à Pascoa do Senhor, a Igreja convida-nos a três atitudes. Atitudes essas que o próprio Jesus, no evangelho de hoje, recomenda aos seus discípulos e diz como se devem praticar: a esmola, a oração e o jejum. 

A esmola e o jejum são duas práticas intimamente ligadas entre si. Na verdade, o verdadeiro jejum é aquele que nos torna sensíveis e solidários com as necessidades dos irmãos e nos leva a gestos de caridade. O verdadeiro jejum não é aquele cujo alimento poupado é conservado na dispensa para o dia seguinte mas aquele cujo alimento poupado é distribuído pelos mais necessitados. O jejum deve desembocar sempre na obra de misericórdia que é a esmola. E quando se fala de jejum não se fala a algo que se reduza à comida e à bebida. Também do tempo mal utilizado podemos fazer jejum e utilizarmos esse tempo para a oração ou para ajudarmos alguém.

No entanto, além da dimensão caritativa expressa na esmola, o jejum também tem uma dimensão ascética. O jejum, a privação voluntária que fazemos dos alimentos ou de outras coisa por amor de Deus e não por outros motivos, ajuda-nos no autocontrole e dá-nos forças para superar a tentação. As privações que voluntariamente fazemos por amor de Deus ajudam a fortalecer a nossa vontade para dizermos não às tentações com que diariamente nos deparamos. 

Por sua vez, a oração não deve ser um momento de teatro religioso e de repetição mecânica de fórmulas ou de pedidos e graças. A oração deve ser feita na intimidade e na sinceridade e deve ser um momento de descoberta da vontade de Deus. Tal descoberta origina em nós muitas vezes uma luta, uma agonia porque a vontade de Deus não está de acordo com os nossos projectos e vontades tantas vezes egoístas e mesquinhos. Neste contexto, a oração é também um momento importante para ganharmos a força e a coragem necessárias para colocarmos a vontade de Deus em prática. 

Praticadas desta maneira a esmola, a oração e o jejum não serão gestos hipócritas mas a manifestação concreta do nosso desejo de morrermos ao homem velho e ressuscitarmos homens novos. Agindo desta maneira, rasgaremos os nossos corações e não os nossos vestidos, como dizia o profeta Joel na primeira leitura deste dia. 

Neste ano da fé, o Papa Bento XVI dedicou a sua tradicional mensagem da Quaresma à relação entre a fé e a caridade: “Crer na caridade suscita caridade: ‘Nós conhecemos o amor que Deus nos tem, pois cremos nele’”. A fé e a caridade não são duas realidades que se possam separar e contrapor mas são duas virtudes intimamente unidas. Na verdade, “a existência cristã consiste num contínuo subir ao monte do encontro com Deus e depois voltar a descer, trazendo o amor e a força que daí derivam, para servir os nossos irmãos e irmãs com o próprio amor de Deus”.  

Na origem da fé está o encontro com Deus, com o seu amor apaixonado e misericordioso. A fé é o resultado da conquista do amor misericordioso e serviçal de Cristo pelos homens. “A fé constitui aquela adesão pessoal …   à revelação do amor gratuito e ‘apaixonado’ que Deus tem por nós e que se manifesta plenamente em Jesus Cristo”. No entanto, a fé não se limita a um simples e mero acolhimento do amor de Deus mas supõe um conformar-se com Cristo. “Quando damos espaço ao amor de Deus, tornamo-nos semelhantes a Ele, participantes da sua própria caridade. Abrirmo-nos ao seu amor significa deixar que Ele viva em nós e nos leve a amar com Ele, n’Ele e como Ele”. Assim sendo, a experiência do amor de Deus conduz-nos ao amor do próximo. O amor ao próximo deve estar fundado no amor de Deus “de tal modo que o amor do próximo já não seja por assim dizer um mandamento imposto de fora, mas uma consequência resultante da sua fé que se torna operativa pelo amor”. 

É esta relação entre fé e obras que o Santo Padre Bento XVI nos convida a viver nesta Quaresma. Na verdade, estas são duas marcas essenciais de todo e qualquer percurso quaresmal. “A Quaresma, com as indicações que dá tradicionalmente para a vida cristã, convida-nos precisamente a alimentar a fé com uma escuta mais atenta e prolongada da Palavra de Deus e a participação nos Sacramentos e, ao mesmo tempo, a crescer na caridade, no amor a Deus e ao próximo, nomeadamente através do jejum, da penitência e da esmola.”

Assim sendo, nesta Quaresma, aproveitemos todos aqueles momentos de oração e de piedade popular que nos recordam e evocam a Paixão de Cristo, “a maior e mais maravilhosa obra do amor divino” (S. Paulo da Cruz). Na devota recordação e meditação dos mistérios da Paixão e da Morte do Senhor Jesus cada um pode descobrir o amor apaixonado e misericordioso de Deus por cada homem e é levado a amar os irmãos, tomando a cruz do amor fiel e total que para salvar os outros sabe gastar-se.  
Que o rito da imposição das cinzas que fazemos neste dia acompanhado pelo convite “Arrependei-vos e acreditai no evangelho” nos ajude a entrar neste tempo favorável de conversão. Sempre nos acompanha neste itinerário o Deus amoroso e compassivo, lento a ira e rico em misericórdia.

P. Nuno Ventura Martins

missionário passionista

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